Main image
17th maio
2012
written by Paulo Nogueira

Centro de São Paulo: o pior tipo de solidão, segundo Nelson Rodrigues, é a companhia de um paulista

Nelson Rodrigues foi um polemista absolutamente único entre os brasileiros. Suas bordoadas, quase sempre nas mesmas pessoas e pelos mesmos motivos, eram, paradoxalmente, delicadas como broncas de mãe amorosa – mas convicta e dura. Isso conta muito sobre ele. Nelson Rodrigues, nos combates que travou no campo das palavras, jamais pareceu interessado em destruir seus alvos e nem sequer em batê-los nos argumentos – mas sim em fazer os leitores pensarem, de preferência com um sorriso no rosto. Nelson Rodrigues, e este é um traço seu pouco valorizado, foi um dos melhores humoristas do país.

O humor estava presente em todas as polêmicas que travou – e também nas provocações que fez. Como toda a elite intelectual do Rio de Janeiro de seu tempo, tinha pelos paulistas uma mistura de desprezo,  despeito, raiva e admiração. Traduziu tudo isso numa de suas numerosas frases memoráveis. “O pior tipo de solidão é a companhia de um paulista”, escreveu. Só um paulista muito tacanho poderia se sentir agredido por Nelson Rodrigues. Como sempre, a vergastada estava envolta num humor tão fino que subtraía quase toda a contundência – sem minar a essência da mensagem.

Essa grande tirada sobre os paulistas ele, como de hábito, repetiria muitas vezes, quase que obsessivamente. Nelson Rodrigues produziu um número extraordinário de frases memoráveis nas polêmicas que travou e nas provocações  que fez, e para ampliar sua força usava a estratégia da repetição. Se ele fosse apenas um autor de frases, como o francês La Rochefoucauld, já teria conquistado um lugar destacado nas letras brasileiras. Suas máximas abarcaram virtualmente todos os campos, da política à religião, do futebol à psicologia – isso para não falar do amor. “É preciso trair para não ser traído”, escreveu ele num de seus grandes momentos de reflexão amorosa. Como de costume, você encontra essa frase em vários textos de Nelson Rodrigues.

Não era um polemista que se movimentava conforme as circunstâncias. Isso o distinguiu, por exemplo, de Paulo Francis. Francis foi de esquerda quando era chique ser de esquerda, nos anos 60 e 70. Na década de 80, em que o conservadorismo galvanizou boa parte do planeta na figura da primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, Francis virou um polemista de direita. O glamour tinha se deslocado da esquerda para a direita. (Hoje, em que o receituário thatcherista é apontado por muitos como uma das razões da presente crise econômica mundial e por isso perdeu grande parte do brilho, Paulo Francis provavelmente retornaria à esquerda.)

Nelson Rodrigues não tinha problema nenhum em ser chamado de “reacionário” numa época em que isso era um dos maiores insultos que um intelectual poderia receber. Era um homem convicto não das virtudes do capitalismo, mas dos defeitos para ele insolúveis do socialismo. Os símbolos da esquerda de seu tempo foram uma formidável inspiração para Nelson Rodrigues. Do cardeal Dom Helder Câmara, um expoente da Teologia da Libertação –  corrente esquerdista da igreja que pregava o ativismo em prol dos pobres –, ele dizia, por exemplo, que “só olhava para o céu para ver se ia chover”. O fascínio erótico que Guevara despertava nas mulheres da alta sociedade carioca – a “esquerda festiva” — também foi objeto de análises esprituosas, ferinas e divertidas.

A elegância bem-humorada com que ele esgrimia contrasta intensamente com as armas de outro célebre polemista brasileiro, Carlos Lacerda. Lacerda, que na juventude foi comunista e depois na idade adulta viraria anticomunista, tinha uma agressividade destrutiva que você jamais encontra em Nelson Rodrigues. Em seu melhor e ao mesmo tempo pior momento como polemista, Lacerda comandou um ataque sangrento ao presidente Getúlio Vargas, cuja administração era segundo ele um “mar de lama”. O suicídio de Getúlio, em 1954, é a demonstração suprema da força devastadora do “mar de lama” criado por Lacerda. (Posteriormente, em 1964, Lacerda apoiaria o golpe militar na esperança de se tornar logo depois presidente. Quando os militares decidiram permanecer no poder, ele se frustrou e foi para a oposição.) Compare isso com a resposta clássica de Nelson Rodrigues aos jovens rebeldes que nos anos 1960 o acusavam de ser mentalmente e ideologicamente senil. “Jovens: envelheçam.” Mais uma vez, o tom firme mas doce de uma mãe que deseja o melhor para seus filhos.

Ao contrário de tantos polemistas, Nelson Rodrigues não fez barulho simplesmente sendo do contra, mesmo sabendo da fraqueza do chamado pensamento convencional. Ele expressou isso numa de suas frases mais citadas: “Toda unanimidade é burra.”  Se é possível traçar uma linha – ainda que torta — de Paulo Francis a Diogo Mainardi entre os polemistas, Nelson Rodrigues, lamentavelmente, não deixou sucessores.  Arnaldo Jabor, que filmou algumas das histórias de Nelson Rodrigues e é um de seus mais conspícuos discípulos, bem que tentou, mas acabou ficando a uma distância considerável do mestre. Principalmente naquilo que foi talvez a marca maior de Nelson Rodrigues como polemista: o humor fino, suave que leva o leitor a refletir com uma risada e não a imprecar, seja contra ou a favor, com uma carranca.

Este texto foi originalmente publicado na revista Bravo!

16th maio
2012
written by Paulo Nogueira

Não ia melhorar sem ele?

 

Pobre Líbia.

Pobres líbios.

A festa pela queda de Gaddafi foi breve. A Human Rights Watch, HRW, uma organização que monitora o respeito aos direitos humanos no mundo, divulgou ontem um relatório  desalentador sobre a Nova Líbia.

Liberdade de expressão? Fica para a próxima. O governo transitório líbio proibiu elogios ao regime de Gaddafi. Antes, sob Gaddafi, o que estava vedado eram críticas.

Imagine como ficam as crianças numa sala de aula ao estudar a história de seu país. Ontem, Gaddafi era divino. Hoje, diabólico.

Nas ruas, milícias  estão acima da lei. Segundo o relatório, 5 000 dos 8 000 presos estão em poder das milícias. Muitos estão detidos há um ano, ilegalmente. “Há numerosos casos de tortura e de mortes”, afirma o estudo.

Em sua imensa prepotência e irresponsabilidade, o então presidente francês Nicolas Sarkozy deu o grito de guerra das forças ocidentais na liberação da Líbia. Muito mais que um gesto humanitário, era uma tentativa de Sarkozy de recuperar popularidade para conseguir um segundo mandato.

Fracassou, como sabemos. Foi obrigado a colocar  um salto carrapeta para conseguir ficar na altura dos olhos de seu sucessor, François Hollande, na cerimônia de transmissão do cargo.

Morto Gaddafi, os líbios encontraram não uma primavera, mas um inverno que ninguém sabe quando terminará. Um outro relatório da Human Rights fala nas mais de 70 mortes de civis – a maior parte mulheres e crianças – em ataques de forças ocidentais.

A história tem se repetido com insistência aterradora nos países árabes. No Iraque, a situação ficou ainda pior depois da queda de Saddam Hussein. No Afeganistão, os locais sentem saudade dos dias do Talibã. Os líbios eram provavelmente mais felizes sob Gaddafi.

 

15th maio
2012
written by Paulo Nogueira

Ele não gritava

 

 

Os brasileiros precisam aprender a discordar civilizadamente.

Vejo aqui na Inglaterra.

O Guardian é um jornal de centro esquerda. O Times, de Murdoch, é conservador. Ninguém se xinga. Entre pessoas que divergem há um respeito intelectual do qual a sociedade se beneficia.

A gritaria desqualifica o argumento, mas ninguém parece se lembrar disso no Brasil. Você afasta, em vez de atrair pessoas para o seu lado e as suas idéias. O xingamento é a doença infantil dos polemistas.

Fernando Henrique Cardoso é uma referência aí. Nunca ele rebaixou seu vocabulário para se referir a Lula e ao PT. A presidenta Dilma também é um bom exemplo a seguir. Críticas elegantes refletem mentes  elegantes. O maior polemista brasileiro, Nelson Rodrigues, defendia suas idéias com graça e vigor — sem ultrapassar jamais os limites da dignidade. Pena que ele seja tão pouco seguido. O Brasil acabou dominado por um lacerdismo insuportável na troca de opiniões. (Carlos Lacerda, com sua campanha selvagem contra Getúlio Vargas à base do tristemente célebre “mar de lama”, levou um presidente eleito ao suicídio e os brasileiros a uma divisão que perdura até hoje, lamentavelmente.)

Há uma métrica boa para aferir o progresso do Brasil no campo do debate educado. Quando expressões gastas e chulas como “pig”, “besta” e “petralhas” sumirem, é porque avançamos.

Seguirá então daqui meu clap, clap, clap.

De pé.

14th maio
2012
written by Paulo Nogueira

Kraft

 

As urnas gritaram neste final de semana também na Alemanha de Angela Merkel. A mensagem foi exatamente a mesma da França uma semana antes: chega de administrações que mimam os ricos.

“A social democracia volta a ter relevância na Alemanha”, era uma das manchetes da Der Spiegel em seu site em inglês hoje pela manhã. O Partido Social Democrata alemão – de centro esquerda, como os socialistas franceses que retornaram ao poder com François Hollande – venceu no domingo com ampla margem as eleições no estado mais populoso do país, a Renânia do Norte Vestfália. Merkel já tem uma rival dura para as eleições nacionais de 2013: a governadora do Estado, Hannelore Kraft, do PSD.

Alguns analistas dizem, equivocadamente, que a Europa está dizendo não à austeridade.

É uma visão míope.

A rejeição real é a administrações que colocam em segundo plano os 99% e favorecem o 1%. Esse tipo de gestão dominou o mundo nas últimas três décadas, com Thatcher de um lado do Atlântico e Reagan do outro.

Como você pode pedir sacrifícios aos 99% quando o 1% não faz nenhum?

Austeridade ou é para todos, ou não é para ninguém. Faz muito tempo que a austeridade vale apenas para os 99%.  Corporações e milionários encontram maneiras legais de pagar menos e menos impostos. Recentemente, para ficar apenas num exemplo, o New York Times mostrou que a Apple é tão engenhosa na contabilidade como na criação de produtos. Ao montar escritórios em paraísos fiscais com o único propósito de diminuir a carga devida de impostos, a Apple vem deixando de pagar uma cifra calculada entre 2,5 e 5 bilhões de dólares por ano.

O mundo está cansado disso, e o cansaço se expressa em protestos como o Ocupe Wall Street — e também nas urnas. Sarkozy foi varrido. Merkel, que até há pouco parecia inexpugnável como a voz mais influente da Europa,  pode ter também contados os seus dias como chanceler.

Kraft, como Hollande, não quer punir os privilegiados. Quer apenas que eles participem da austeridade.

É justo.

13th maio
2012
written by Paulo Nogueira

Sobrenatural de Almeida vai ver as finais da Libertadores

 

Recebi a seguinte carta de Sobrenatural de Almeida:

“Você viu o que fiz com Messi nas semifinais da Champions League. Estava incomodado com as pessoas que o comparavam a Pelé.

Você viu também o que fiz hoje. Já era hora de o Manchester City ser campeão depois de 44 anos de fila. É o time de Noel Galagher, e gosto do Oasis. Todos os comentaristas estão atônitos com os dois gols que milagrosamente deram o título ao City no reduzido tempo extra depois dos 90 minutos regulamentares. Para mim, foi apenas uma questão de fazer, duas vezes, a bola entrar na rede nos estertores de uma partida. Para mim, é fácil como passar manteiga numa baguete.

Pois vou dar um furo a você. Não me pergunte por que. Acho que simpatizo com você. Depois do Nelson Rodrigues, que compreendeu minha capacidade de decidir jogos e produzir resultados inacreditáveis, quase ninguém se lembrou de mim além de você.

É o seguinte.

O Neymar está me irritando.  Daqui a pouco vão começar a compará-lo com o Pelé. Por enquanto, o que se pode dizer com certeza dele é que é o melhor jogador da cidade de Santos, incluído o Robinho. Vamos ver como ele se sai nas Olimpíadas e na Copa de 2014.

Para evitar que ele se mascare a ponto de desiludir os brasileiros naquelas duas competições internacionais tão importantes, vou agir rapidamente.

Estarei presente nas semifinais da Libertadores entre Santos e Corinthians. Você quer ganhar dinheiro sem trabalhar? Pegue o que tem no banco, passe na Ladbroks e aposte no Corinthians.

Estarei lá.

Sinceramente,

SA

 

12th maio
2012
written by Paulo Nogueira

 

 

Roberto Civita

Roberto Civita não é Murdoch, como escreveu em sua capa a revista Carta Capital. Mino Carta, assinalou corretamente Alberto Dines, fez vendetta, e não jornalismo. Mino jamais superou sua saída da Veja, que ele montou em 1968 e fez andar com talento, brilho e alguns tropeços até o final dos anos 1970. Divergências com a família Civita levaram à saída de Mino, e desse episódio ele guardou um ódio insuperável.

A única coisa claramente comum entre Civita e Murdoch é a ideologia conservadora, a fé absoluta em que o mercado salva e o Estado mata se intervier.

Mas as diferenças são enormes.

Primeiro, Roberto Civita, ao contrário de Murdoch, jamais manteve relações comprometedoramente próximas com os governantes. No Brasil, quem fez isso foi Roberto Marinho, este sim extremamente parecido, nos métodos, com Murdoch. Murdoch e Marinho utilizaram a proximidade com o poder para barganhar, na sombra, vantagens para seus negócios. Este traço é vital para entender por que a Globo ganhou uma concessão de televisão que a fez mudar de patamar como corporação e a Abril não.

Também são completamente diferentes na forma de tocar um negócio. Murdoch ajudou a criar uma cultura de vale tudo em sua organização. Recentemente, a BBC mostrou que a BSkyB, a tv por assinatura de Murdoch no Reino Unido, virtualmente eliminou um concorrente ao contratar hackers que tornaram fácil ao público ver a programação sem pagar. Essa cultura conduziu o tablóide de Murdoch News of the World ao escândalo das violações de caixas postais de celulares. É um episódio que Murdoch admite ter provocado um “estrago” em sua reputação — e que pode comprometer seriamente o futuro de sua News Corp, uma das maiores empresas de mídia do mundo.

A Editora Abril é conhecida pelos elevados padrões éticos em sua administração. Quando quase todas as empresas de mídia – da Globo à Folha – começaram a adotar a entratégia de transformar funcionários mais bem pagos em pessoas jurídicas para pagar menos impostos, a Abril recusou essa saída moralmente indefensável. Este é apenas um exemplo entre muitos de que fui testemunha pessoal em meus 25 anos de Abril.

No Brasil, foi a Abril que trouxe o conceito americano de separação entre Igreja (jornalismo) e Estado (administração). Isso fez a Abril ser guiada pelo conteúdo. Na Globo, ao contrário, á a área comercial que tem o comando. Isso se vê na bizarrice de você não poder dizer o nome de empresas no Jornal Nacional mesmo quando se trata de puro jornalismo porque isso poderia significar “propaganda” não paga. Uma vez, presenciei uma discussão patética no Conselho Editorial da Globo sobre como fazer para, numa transmissão de futebol, se referir a um time gaúcho que tinha o nome da faculdade que o comprara.

Coisas assim seriam inconcebíveis na Abril.

Lembro que uma vez, pouco antes de eu sair da empresa, fiz uma pergunta a Roberto Civita num almoço. Eu queria saber por que, diante de uma mesma situação, dívidas asfixiantes, a Abril tomara um caminho e a Globo outro. A Abril foi ao limite dos sacrifícios para honrar as contas. A Globo preferiu parar de pagar para forçar os credores a renegociar condições mais amenas. “Cresci vendo meu pai pagar todas as contas”, respondeu Civita depois de suspirar longamente.  Esse episódio, para mim, simboliza o espírito da Abril, primeiro sob o fundador Victor Civita e depois com seu filho e sucessor Roberto.

E então chegamos ao caso específico das denúncias passadas à Veja por um contraventor. Logo aprendemos nas redações que muitas vezes as melhores informações são dadas pelas piores pessoas. O público se beneficia com a publicação de furos dados por pessoas de baixa estatura moral? Se sim, o editor em geral tapa o nariz e vai adiante. Parece claro, além disso, que a revista não tinha conhecimento da folha corrida de Carlinhos Cachoeira quando publicou denúncias originárias dele.

A discussão mais proveitosa sobre o que Cachoeira passou à Veja gira em torno do interesse público.  Se o que foi publicado com base em informações de Cachoeira atendeu ao interesse público, a situação é uma. Se não, é outra. Sair desse campo objetivo de avaliação é um erro.

Como jornalista e como leitor, finalmente, acho que a Veja foi dura demais com Lula, principalmente no primeiro mandato. O colunista Diego Mainardi várias vezes ultrapassou os limites do bom senso, bem como Reinaldo de Azevedo em seu blogue movido a ódio e não a idéias. Na minha interpretação pessoal, a Veja imaginou estar diante de um novo Collor – uma percepção que se acentuaria com o caso do Mensalão. Certa ou errada, e fico, repito, com a segunda alternativa, a posição da Veja diante de Lula foi puramente editorial. É importante não esquecer isso.

A revista demorou a perceber que Lula não é Collor. Mas de novo: a cobertura dura da administração Lula não trouve vantagens à Abril. Não aumentou – longe disso — os anúncios de estatais e nem a venda de livros educativos para o governo federal. Assim como Lula não é Collor, Roberto Civita não é Murdoch. Se fosse, a presidenta Dilma não teria recebido há pouco  uma equipe da Veja para uma entrevista de capa. E nem a Editora Abril seria o que é – uma referência em limpidez ética na administração e uma casa que provoca orgulho em seus funcionários, entre os quais me orgulho de ter figurado por tantos anos.

11th maio
2012
written by Paulo Nogueira

 

Clap, clap, clap.

Aplausos. De pé.

A capa da última edição da revista americana Time é, simplesmente, espetacular. Entra, instantaneamente, na lista das melhores capas da história das revistas.

A linda mãe de 26 anos dando de mamar ao filho de três, trepado numa cadeira.  Uma imagem absolutamente original para ilustrar o tema da capa: a maternidade militante. A revista discute a tese de um estudioso — Bill Sears — segundo a qual o filho tem que ser tratado com carinho extremo pela mãe. Isso significa abrir a ele a possibilidade de dormir na cama dos pais e, como mostra a imagem, de mamar enquanto quiser.

É uma capa que tem todas as virtudes e mais uma. É, esteticamente, linda. Conceitualmente, é provocadora. É ousada. Pena que apareça numa Time que é uma caricatura do que foi sobretudo nos anos 1960 – uma escola de jornalismo mundialmente admirada. É como um gol espetacular de um time que está perdendo de 5 a 0.

A Time inventou a revista semanal de informações. Quer dizer, seus fundadores inventaram, Henry Luce e Briton Haden, dois estudantes da Universidade de Yale que na década de 1920 imaginaram que haveria mercado para uma publicação que organizasse para os leitores as principais notícias da semana. Foi a Time também que criou o conceito de Igreja e Estado numa empresa de jornalismo. Igreja são os jornalistas. Estado, a administração. São coisas que não se misturam, em nome da independência editorial dos jornalistas. (No Brasil, a primeira empresa a importar esse conceito foi a Editora Abril.)

A capa da mãe que amamenta um filho que já não é bebê faz com que você fale na revista e, também, pense no assunto. Na internet ela foi não apenas reproduzida em todas as partes como também inspirou várias paródias.

Mais uma vez: clap, clap, clap.

E então o tema me leva a mim mesmo. Minha mãe. A forma como ela nos educou, a meus irmãos e a mim.

Não sei até quando fui amamentado, mas lembro com saudade dos banhos que minha mãe me dava quando eu tinha seis ou sete anos.  Lembro também de dormir até quase a adolescência com ela a meu lado, contando histórias como a de um princípe que virava um pássaro e mesmo assim continuava apaixonado pela sua noiva, Esmeralda. O pássaro pousava na janela de Esmeralda, e ali encontrava sempre comida.

No colo de minha mãe

Minha mãe foi uma mãe como o especialista em crianças ouvido pela Time diz que as mães devem ser. O amor irrestrito que veio dela desde sempre resultou, em mim, num sentimento de confiança que várias vezes me ajudou a ultrapassar dificuldades.

É o primeiro Dia das Mães que passaremos, meus irmãos e eu, sem ela. E então me ocorre uma frase de um dos textos mais lindos que li na vida – um tributo que papai escreveu a sua mãe, minha avó Alice, quando ela morreu depois de meses de sofrimento extremo. Papai notou que o rosto de minha avó estava enfim sereno, e saudou isso.  “Mas que saudade, mãe, que saudade”, ele complementou.

É.

Que saudade, mãe, que saudade.

10th maio
2012
written by Paulo Nogueira

Estudantes de Xangai nas provas do Pisa

 

Pisa.

Já ouviu falar?

São uma espécie de Copa do Mundo da educação. A cada três anos, desde 2000, alunos de dezenas de países fazem uma prova. São três os tópicos:  compreensão de texto, matemática e ciências. Os estudantes devem ter 15 anos. Quem promove a competição é a OCDE, Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Baseada na França, a OCDE é composta de 34 países, e sua missão, como o nome diz, é melhorar a vida das pessoas.

Nas primeiras edições do teste, a China não participou. Na última, sim. Não nacionalmente, mas por meio de algumas cidades.

O que aconteceu?

Xangai ficou em primeiro nas três categorias, para espanto dos responsáveis pelo teste. Outras cidades chinesas foram excepcionalmente bem.

Numa viagem pela China, os organizadores notaram uma coisa. Mesmo nos centros mais pobres, os prédios mais modernos são escolas. “No Ocidente, são shopping centers”, disse um alto funcionário da OCDE.

O desempenho do Brasil no Pisa tem melhorado, mas continuamos a parecer um aluno burro. Ficamos, da última vez, na 53.a colocação entre pouco mais de 60 países. Os medidores de avanço social do Brasil são simplesmente ridículos.

Um especialista chinês em educação disse o óbvio: o extraordinário sucesso da China no Pisa deriva do confucionismo. Confúcio, um filósofo de 2500 anos venerado pelos chineses, afirmou que um dos três pilares de uma sociedade sábia é a educação dos jovens. (Os outros dois: respeito aos velhos e lealdade aos amigos.) Outros países asiáticos em que o confucionismo é ainda vivo estão também no topo no Pisa: Japão, Coréia do Sul e Singapura são alguns deles.

Vivemos o Século Chinês. Por que ele não veio antes? Porque a China no sécula 19, altamente desenvolvida socialmente mas sem nenhuma força militar, foi estuprada pelas potências ocidentais. Os ingleses – que por conta dos constantes conflitos com os franceses eram exímios na arte de guerrear — obrigaram a China, em duas guerras, a aceitar o comércio do ópio que produziam na Índia. O ópio – cujo consumo era proibido na Inglaterra – foi a resposta predadora e imoral que o império britânico encontrou para equilibrar a balança comercial com os chineses. (Os ingleses consumiam uma alta quantidade de chá, seda e porcelana da China.) Não bastasse o ópio, os britânicos ainda tomaram Hong Kong, só devolvida depois de mais de cem anos.

A China passou o século passado se recuperando da predação ocidental. Confúcio foi central na retomada chinesa, muito mais que Deng Xiaoping, o líder comunista que instou há 30 anos os chineses a enriquecerem. Deng, sem Confúcio, não seria nada. Confúcio, sem Deng, não perde nada.

A sorte fundamental da China é que um dia nasceu ali um certo Confúcio. O resto é apenas consequência.

9th maio
2012
written by Paulo Nogueira

Fitzgerald

 

Francis Scott Fitzgerald retratou a frivolidade dos ricos americanos dos anos 1920 e 1930 com a mesma graça e talento com que Balzac mostrou o mundo da plutocracia francesa na primeira metade do século 19. Fitzgerald foi tão grande como escritor que mesmo sendo alpinista social jamais conseguiu fingir em seus romances que o círculo ao qual ansiava por pertencer era decente, honesto, límpido. Também nisso se igualou a Balzac.

O Grande Gatsby, de 1925, é a obra magna de Fitzgerald. Gatsby é um misto de vigarista e sonhador que vai atrás da paixão de sua juventude, Daisy. Daisy não se casou com Gatsby porque ele era um pobretão. Gatsby faz fortuna vendendo bebida na época da Lei Seca – como o patriarca da família Kennedy, aliás – apenas para fazer jus a Daisy. Daisy – egoísta, falsa, interesseira, vazia – é, no romance, o símbolo supremo da riqueza e dos ricos. Gatsby acaba sozinho e destruído ao tentar entrar num mundo que não era o seu. A seu lado, no final, estava apenas Nick, o narrador, um alterego do próprio Fitzgerald.

É um romance cultuado. O escritor Hunter Thompson datilografou-o integralmente apenas para ter a sensação de escrever um livro notável. Fitzgerald morreu cedo, aos 44 anos, em 1940. Seu coração não aguentou uma vida absurdamente desregrada, repleta de bebida e de cigarro.

Também contribuiu para sua exaustão física e mental o casamento tumultuado com uma desequilibrada mental, Zelda. A história com Zelda é a base de outro grande romance seu, Suave é a Noite, que recomendo fortemente também. Zelda acabaria num manicômio. Fitzgerald, em seus últimos anos, viveu com uma colunista social.

Fitzgerald foi o maior escritor americano do século passado, ao lado de Hemingway. Conviveram muito. Numa das passagens mais divertidas da amizade entre os dois, foram ao Louvre por  sugestão de Hemingway. Fitzgerald estava em dúvida sobre a qualidade do tamanho de seu pênis, e Hemingway sugeriu que ele o comparasse com os pênis das estátuas do Louvre.

Gatsby, aos 87 anos de existência, tem vigor juvenil: sua história continua a fascinar, a comover. Faz rir, faz sonhar e faz chorar. Agora mesmo uma montagem do livro no Wilton’s Music Hall – um teatro alternativo e interessantíssimo de Londres, perto das Docas e longe do tradicional West End, onde passam os musicais – vem arrebatando os londrinos.

A platéia é convidada a se vestir como nos anos 1920, no auge do charleston. Muitos aceitam o convite. No intervalo, dois atores se fazem de repórter e fotógrafo ao estilo de um século atrás e entrevistam a audiência como se fossem jornalistas atrás de celebridades nas míticas festas dadas por Gatsby em sua mansão no seu esforço de reconquistar Daisy.

Fui, com Erika. Ela tirou uma foto da dupla com seu iPhone.  Eles perguntaram: “Que é isso?” Erika respondeu: “Uma câmara”. O fotógrafo – um ator gordo, jovem, alto, camisa fora da calça como é tão comum nas redações – riu. Gargalhou. “Hahaha. Câmara é isso!” E mostrou a sua, uma relíquia da era de Gatsby.

O repórter e o fotógrafo da montagem de Gatsby no Wilton's Music Hall, numa foto de Erika Nakamura

Em seu túmulo está escrita a frase épica que dá fim a O Grande Gatsby: “E assim vamos todos, braços remando contra a correnteza, empurrados incessantemente rumo ao passado.” Se não fossem todas as outras virtudes, apenas por este final todo mundo deveria ler O Grande Gatsby.

8th maio
2012
written by Paulo Nogueira

Mãe norueguesa com seu bebê: um ano de licença maternidade

 

A receita vitoriosa dos países escandinavos deveria ser mais estudada pelas administrações brasileiras. São países altamente desenvolvidos socialmente, e é uma pena que recebam tão pouca atenção no Brasil. Estão sempre no alto das listas que comparam desempenhos de nações em coisas genuinamente positivas.

Agora mesmo.

Acaba de sair um estudo de uma organização sem fins lucrativos chamada “Save The Children”. Seu objetivo, como diz o nome, é salvar crianças. A STC mapeia 165 países em busca das melhores – e das piores — condições para bebês. Locais que cuidam bem de crianças viram referência. E é dada assistência especial aos bebês de países na situação oposta.

A pesquisa recém-saída trata, especificamente, da condição das mães. “Melhores lugares para ser mãe” é o título. No topo, a Noruega.  Dos seis primeiros da lista, cinco países são escandinavos.

Basta?

As mães norueguesas têm direito a um ano de licença maternidade. Os pais, a dez semanas. O que acontece é que assim você está investindo no futuro com seriedade.

Pelo lado dos modelos ruins, os Estados Unidos aparecem apenas na 25.a colocação. Como observa o estudo, é o único caso de país rico em que simplesmente não existe uma lei nacional que estabeleça licença maternidade. É uma visão desumanamente pró-negócios – uma das maiores marcas dos Estados Unidos.

O Brasil, como em todas as listas sociais, é de uma mediocridade avassaladora. Não adianta nada você ter a sexta maior economia do mundo se a maioria da população vive na pobreza. Entre os países em desenvolvimento, o Brasil ocupa apenas a 13.a colocação. O relatório da STC aponta a questão dramática da concentração de renda no Brasil. Metade da riqueza do país está nas mãos de 10%. É verdade que o país avançou nos últimos vinte anos, sobretudo na gestão de Lula, mas o que foi feito é ainda muito pouco.

Nos anos 1980, um economista disse que o Brasil era uma Belíndia, mistura de Bélgica (rica) com Índia (pobre). Trinta anos passados da metáfora, é uma pena constatar que continuamos a ser uma Belíndia — melhoradinha, mas não muito além disso.

7th maio
2012
written by Paulo Nogueira

Hollande em sua Vespa

 

De Paris

“Homem comum”. É assim que se define Françoise Hollande, o novo presidente francês. Hollande, até se eleger, ia trabalhar de Vespa, e era ele quem ia ao mercado comprar coisas que estivessem faltando na geladeira. Sua atual mulher, a jornalista Valérie Trierweiller, jornalista da revista Paris Match, tinha menos tempo livre que ele.

É um homem de sorte, também.

Hollande dificilmente seria o candidato socialista se Domenique Straus-Kahn não tivesse se metido em sucessivas embrulhadas sexuais. DSK é muito mais carismático que Hollande, que lembra um bocado Geraldo Alckmin. Seu apelido entre os franceses é Pudim, por ser mole. É mais ou menos o equivalente ao Picolé de Xuxu de Alckmin.

A primeira sorte de Hollande foi a desgraça de DSK. A segunda foi a fraqueza do adversário. Nicolas Sarkozy, no decorrer do mandato, foi se tornando cada vez mais antipático aos olhos dos franceses. Arrogante sem obras se torna simplesmente abominado. É o caso de Sarkozy, em quem se colou também a imagem de novo rico deslumbrado, de um parvenu, como dizem os franceses.

Pegue uma parte de Serra e misture com uma parte de Collor: eis Sarkozy aos olhos dos franceses. Napoleões aparecem raramente, a cada duzentos ou trezentos anos. Pretendentes a Napoleão infestam a humanidade. Sarkozy é um deles.

Em Paris, no dia do triunfo do "homem comum"

Para batê-lo, Hollande não precisou de mais que um ajuste discreto. Perdeu uma dezena de quilos, trocou os óculos e deixou de parecer comediante ao reduzir o número de piadas que contava – um de seus traços pessoais marcantes.

 

O “homem comum” fez, involuntariamente, história. Sua eleição é o maior marco no renascimento da esquerda como alternativa política. Não é uma esquerda revolucionária que conteste o capitalismo. É uma esquerda que aceita e até afaga o capitalismo – desde que os benefícios dele não se restrinjam a uma fração da sociedade, o 1%.

 

 

6th maio
2012
written by Paulo Nogueira

Hollande

 

De Paris

A França fica melhor sem Nicolas Sarkozy e com François Hollande.

Sarkozy, na economia, não fez simplesmente nada. Chegou ao poder em 2007 com uma plataforma thatcherista – ou neoliberal — que um ano depois, na grande crise financeira de 2008, mostraria sua monumental capacidade de levar ao abismo. O projeto econômico de Sarkozy fracassou mundialmente antes que ele tivesse esquentado a cadeira no Palácio dos Campos Elíseos.

Dali para a frente, ele deslocou o foco para um populismo de direita que dividiria os franceses. A grande comunidade muçulmana francesa foi moralmente pisoteada e excluída com absurdos como a campanha contra a burca sob o argumento cínico de que estavam sendo protegidas as muçulmanas. A tragédia de Toulouse é fruto, em grande parte, do ambiente irrespirável que Sarkozy criou para os muçulmanos.

Hollande, aos 57 anos, chega com o desafio de reunificar os franceses. Na campanha, ele adotou um discurso pacificador que é auspicioso, e que combina bem com seu ar bonachão de tio do interior. Economicamente, Hollande vai cobrar mais contribuição dos ricos, tão mimados e tão poupados por Sarkozy. Ele está mirando especificamente nas pessoas que ganham mais de 1 milhão de euros por ano. Taxar fortemente os ricos – ao contrário do que ocorreu nos últimos 30 anos em países como os Estados Unidos e a Inglaterra – é a única fórmula de obter sociedades harmoniosas. A Escandinávia é prova disso.

Com Erika, há minutos, na Champs Elysees

“Vive la gauche” (viva a esquerda), gritavam pessoas na Champs Elysees logo depois de anunciados os resultados das eleições.

Mais que isso.

Viva o bom senso.

Viva a França.

5th maio
2012
written by Paulo Nogueira

A Índia sob os ingleses

 

Um comercial do governo argentino está provocando calafrios entre os britânicos.

Você pode vê-lo no pé deste artigo.

É uma comercial olímpico. Um atleta argentino aparece treinando duro para os jogos. “Para competir na Inglaterra treinamos em solo argentino”, diz a publicidade.

O solo argentino, no caso, são as Ilhas Malvinas. Ou Falklands, como os ingleses a chamam, um pequeno, inóspito, frio e provavelmente rico pedaço de terra no extremo sul do Atlântico em torno de cuja posse o Reino Unido e a Argentina brigam há muito tempo ora com argumentos, ora com armas.

Se você observa a folha corrida de cada país, não terá muita dúvida em dar a razão para a Argentina.

As Malvinas foram ocupadas pelos ingleses em 1833. Na força.

Era o auge do império britânico – cuja grande marca foi o vale tudo.

Na mesma época, por exemplo, os ingleses estavam traficando na China o ópio que produziam na Índia. Quando o governo chinês proibiu o tráfico, dados os enormes estragos provocados na sociedade, a Inglaterra moveu uma guerra ao fim da qual não apenas o ópio estava legalizado como Hong Kong foi tomada.

Na Jamaica, trabalhadores locais eram tratados miseravelmente para que os senhores ingleses fizessem fortuna com o açúcar produzido lá e vendido em todo o mundo. E a imagem icônica da Índia sob os ingleses são os nativos carregando como cavalos os conquistadores em pequenas carroças.

A razão, na era do império britânico, era definida pelos canhões.

Mas lembremos. Estamos em 2012.

 

 

 

 

4th maio
2012
written by Paulo Nogueira

Red Ed

 

Veja o que está acontecendo na Inglaterra.

O Partido Trabalhista, de centro esquerda, perdeu as últimas eleições depois de ficar mais de uma década no poder, primeiro com Tony Blair, em seguida com Gordon Brown.

A derrota provocou uma renovação imediata. Um novo líder emergiu entre os trabalhistas, Ed Miliband. Red Ed, como o chamam, por ser mais à esquerda – vermelho, portanto —  que o habitual no trabalhismo.

Ed chegou com uma mensagem fresca para os ingleses, mais ou menos como o socialista François Hollande entre os franceses. Numa palavra, chega de mimar os ricos. (A expressão é de um deles, o bilionário americano Warren Buffett, que mudou a agenda política e econômica dos Estados Unidos depois de protestar indignadamente por pagar uma taxa menor de imposto que sua secretária.)

Nesta semana houve eleições municipais na Inglaterra. Os trabalhistas de Red Ed triunfaram espetacularmente. Para muitos observadores, Milliband colocou já um pé no número 10 da Downing Street, a sede do poder em Londres. É apenas uma questão de tempo o segundo pé.

Enquanto isso, no Planeta PSDB.

Bem, é o oposto. José Serra perde uma, perde duas vezes – e continua a ocupar um lugar que ceifa o surgimento de idéias novas e rostos novos.

O PSDB de Serra é um anacronismo na Era dos 99%. Não fala com o povo, e nem com a classe média menos retrógrada – que também se cansou de tanta iniquidade social. Porque isso se volta contra ela mesma, obrigada a coisas como erguer muros medonhos em sua casa e amedrontada a cada vez que sai para as ruas.

Dizer que Serra partiu para o sacrifício ao aceitar concorrer à Prefeitura de São Paulo é um desafio ao bom senso. O real serviço que ele prestaria a seu partido era dizer: “Para mim, deu.”

Mas não.

Ele insiste, e insiste, e insiste, e assim torna extremamente confortáveis as coisas para o PT.

3rd maio
2012
written by Paulo Nogueira

Você pode pensar muitas coisas sobre Norman Finkelstein, judeu americano de 58 anos.

Você pode achar que ele é radical em sua defesa da Palestina e dos palestinos e ataques a Israel. Você pode considerar que ele mina os próprios argumentos com uma retórica demasiadamente explosiva. Você pode supor que haja nele alguma coisa autodestrutiva. Você pode até suspeitar que ele odeie a si próprio por ser judeu.

Você só não pode fazer uma coisa: ignorá-lo.

Finkelstein é um acadêmico e palestrante obcecado com a causa palestina. Seus pais enfrentaram campos de concentração nazistas. A mãe, segundo ele, jamais superou a experiência. “A conversa podia girar em torno de petúnia, e de repente ela dizia que tinha enfim entendido algo que ocorrera naqueles dias”, diz Finkelstein.

Mas Finkelstein acha que é melhor olhar para o presente do que para o passado. Ele prefere falar da Palestina de agora a discorrer sobre o Holocausto de décadas atrás. A idéia essencial de Finkelstein é que o Holocausto — que ele não nega, evidentemente — é usado para justificar a violência de Israel contra os palestinos. Essa tese o faz ser abominado pela ala conservadora da comunidade judaica.

Numa palestra, uma jovem fez a ele uma pergunta. Chorando, ela disse que se sentia ofendida pelas referências negativas feitas a Israel, e citou o Holocausto. “Não respeito essas lágrimas e nem me deixo intimidar por elas”, respondeu Finkelstein. “Se você tem coração, deveria estar chorando pelos palestinos.”

Posto, junto com este texto, o vídeo de um documentário sobre ele. As legendas foram feitas num português precário, mas não importa.

Recomendo que vejam o vídeo. Quanto suportarem. Cinco minutos que sejam.

Porque Finkelstein é aquele tipo de gente rara e brava que faz você pensar.

 

2nd maio
2012
written by Paulo Nogueira

Cabral não deveria ter amigos

 

Jornalista não tem amigos.

Esta é uma frase de sabedoria eterna. Foi cunhada por um dos maiores jornalistas da história, Joseph Pulitzer, na segunda metade do século 19.

E no entanto é frequentemente desrespeitada.

Um comitê investiga a ética da mídia britânica no rastro do caso das violações telefônicas do falecido tablóide News of the World, de Rupert Murdoch.

A primeira conclusão: há uma proximidade inaceitável entre políticos e jornalistas em que o interesse público fica em risco. Os jornalistas ingleses tinham muitos amigos entre os políticos. O primeiro ministro David Cameron, por exemplo, cavalgava ao lado da jornalista Rebekah Brooks, a rainha dos tabloides caída em desgraça.

Quando vi um vídeo do governador Sérgio Cabral com amigos — entre eles um empreiteiro de duvidosa reputação —  num restaurante caro de Paris, a sentença eterna de Pulitzer me ocorreu, transportada do jornalismo para a política.

Político não tem amigo.

Quando políticos e empresários viram subitamente melhores amigos, o interesse público vai automaticamente para o segundo plano.

2nd maio
2012
written by Paulo Nogueira

Morello

 

Mais um capítulo de “Novo Tempo”, um romance passado no ambiente jornalístico. Claudio, o editor, quer fazer um perfil de Tom Morello, o grande cantor de protesto da Califórnia. Decide passar a tarefa para Daniella, a estagiária, mas eis que começa a pensar na possibilidade — para ele horrenda — de que ela acabe fazendo sexo com Morelli, e então …

“Temos que entrevistar esse cara”, pensou Claudio.

Claudio acabara de ouvir em sua sala no jornal, pela sétima vez seguida, The Road I Must Travel, de Tom Morello. Fazia isso quando alguma música o impressionava muito. Era o caso de The Road I Must Travel, uma espécie de hino dos inconformistas. Em Morello Claudio admirava, acima de tudo, o espírito livre e rebelde.

Well I climbed seven summits and swan the seven seas,

But the road I must travel its end I can not see.

A porta estava fechada, o que deu a Claudio tranquilidade para cantar junto com Morello. O que fizera Claudio decidir por dar Morello foi um fato específico. Morell, residente em Los Angeles, viajara 3 000 quilômetros para participar de um protesto em Nova York no Dia do Trabalho. Caminhara na multidão com sua guitarra, cantando suas canções de protesto.

Onde as músicas de protesto no Brasil?

Morello fizera Harvard, e de lá saíra não com vontade de se encher de dinheiro, mas de cantar músicas que denunciassem as injustiças sociais. Quarenta e poucos anos, estudante de Harvard na juventude. Num determinado momento, para sobreviver, Morello fizera fotos sem roupa. Vegan, presente na lista dos 100 maiores guitarristas da Rolling Stone. Estourara com a banda Rage Against the Machine nos anos 1990, e no início do novo milênio começara uma carreira solo sob o codinome de Nightwatchman. The Road I Must Travel pertencia à fase de Morello como Nightwatchman.

Claudio foi investigar o que a mídia brasileira dera sobre Morello. Riu. Leu que Morello, numa passagem pelo Brasil, em 2010, dedicou num show uma música a seus “irmãos” do MST. A Rede Globo, que estava transmitindo a apresentação, cortou. Um repórter da Globo, Álvaro Pereira Júnior, afirmou que Morello foi um “mané” nas mãos do MST.

Mané? Quem é o Mané, o artista ou o jornalista?

Claudio refletiu por alguns segundos sobre quem deveria entrevistar Morello.

Daniella.

Logo lhe ocorreu Daniella. A estagiária de rabo de cavalo que enfeitiçara os homens de redação e enchera de raiva as veteranas. Seria uma missão educativa para Daniella. Pela idade, provavelmente ela não conheceria o Rage Against The Machine e nem Morello. Mas isso não era problema. Daniella teria tempo para ler sobre Morello e ouvir suas canções. E seu inglês era perfeito. Estava na hora de Daniella fazer uma viagem internacional pelo jornal.

Mas será?

Claudio parou por segundos para pensar. Uma história rapidamente lhe voltou à memória. Alguns anos antes, uma jovem jornalista fora cobrir o Rock in Rio, e acabara ficando alguns meses com o guitarrista de uma banda americana.

Alguma coisa tomou conta do espírito de Claudio. E se Daniella acabasse na cama de Morello?

Será que estou com ciúme?

A imagem nítida, precisa, aterrorizadora de Morello penetrando Daniella veio à mente de Claudio como um pesadelo medonho. Considerou a possibilidade de desistir da entrevista – ou, pelo menos, de passar a tarefa para Daniella.

Enlouqueci. Enlouqueci. Tenho que voltar urgentemente à terapia.

“Os leitores podem esperar um pouco”, disse enfim para si mesmo. Decidiu refletir um pouco mais sobre a entrevista com Tom Morello. Tanta gente para fazê-la, por que ele pensara exatamente em Daniella? Talvez fosse melhor designar alguém que conhecesse o Rage Against Machine e entendesse o espírito da coisa.

Pronto.

Decisão tomada.

Claudio esticou os olhos para a redação, em busca da pessoa certa para a viagem para a Califórnia.

1st maio
2012
written by Paulo Nogueira

Manning

 

Falha minha.

Omissão.

Em tantos artigos que escrevi, não fiz ainda o elogio do soldado americano Bradley Manning, de 24 anos.

Manning está preso há dois anos, acusado de ter vazado para o Wikileaks documentos confidenciais da diplomacia americana ao redor do mundo. Manning teria também passado ao Wikileaks o histórico vídeo que mostra soldados americanos matando, de um helicóptero Apache, civis no Iraque.

Manning, se fez isso mesmo, o que é provável, combateu o bom combate. Não é à toa que muitas pessoas o indicaram para o Nobel da Paz. Mas o que ele ganhou mesmo foi um regime de prisão solitária capaz de destruir a sanidade rapidamente. Manning só saiu da solitária por pressão de ativistas, entre os quais se destaca o blogueiro Glenn Greenwald, da revista digital Salon. Greenwald foi a primeira voz a denunciar as condições desumanas em que vivia Manning.

Graças ao vídeo vazado, o mundo pôde ver o que era — e é — a Guerra do Iraque. Pôde ver, também, o caráter das guerras movidas pelos Estados Unidos em nome da civilização e da democracia.

Os iraquianos viviam melhor sob Saddam Hussein do que sob os americanos. Da mesma forma, os afegãos viviam melhor sob o Talibã do que sob os americanos.

Manning contribuiu para que todos pudéssemos entender melhor as coisas.  Você não resolve um problema se não consegue enxergá-lo. Manning nos ajudou a todos a enxergar o problema.

A humanidade como que acordou depois dos vazamentos atribuídos a Manning. A Primavera Árabe é, em boa parte, fruto dos documentos que foram publicados. A corrupção e a violência de governos de países como o Egito e a Tunísia ficaram dramaticamente expostas. E isso foi essencial para que as pessoas tomassem as ruas e varressem administrações predadoras — apoiadas, aliás, pelos Estados Unidos.

A Primavera Árabe acabou contagiando até os americanos. O movimento Ocupe Wall St foi inspirado nela.

Com tudo isso, a agenda planetária mudou. Foi numa atmosfera internacional de protesto e inconformismo que emergiram estatísticas que mostram a espetacular concentração de renda ocorrida nos países ricos nos últimos trinta anos. É nesse quadro que provavelmente Nicolas Sarkozy será derrotado nas eleições presidenciais francesas daqui a poucos dias. Sarkozy representa o 1%, para usar a grande expressão criada pelo Ocupe Wall St: “Somos os 99%.”

Bradley Manning está na origem dessa mudança formidável que vai se operando no mundo.

Por isso é um herói.

30th abril
2012
written by Paulo Nogueira

Escritório da Apple em Nevada, onde o imposto é zero

 

O que aconteceu no mundo desenvolvido nos últimos trinta anos foi, basicamente, um assalto legalizado das grandes corporações e dos bilionários aos cofres públicos por meio de artifícios que lhes permitiram pagar cada vez menos impostos.

Ronald Reagan nos Estados Unidos e Margaret Thatcher no Reino Unido comandaram uma concentração indecente de renda. Os dois levaram ao estado da arte o conceito de governo dos ricos, pelos ricos e para os ricos sob a fachada da desregulamentação e em meio a odes fanáticas à liberdade do mercado.

Não chega a ser surpresa a revelação neste final de semana pelo New York Times da imensa criatividade da Apple para pagar o mínimo de impostos – tudo dentro da lei. O mesmo engenho no marketing e na feitura de novos produtos, nota o NYTimes, a Apple mostrou na contabilidade.

Embora o grosso de suas operações esteja nos Estados Unidos, a Apple dá um jeito de transferir o pagamento de boa parte do imposto devido para países em que as taxas são baixíssimas. Um especialista calculou que apenas no ano passado a Apple deixou de pagar entre 2,4 e quase 5 bilhões de dólares à Receita Federal.

No esforço de não pagar impostos, a Apple — cujo quartel general é na Califórnia — montou uma operação em Nevada, onde a taxa é zero. Nevada hospeda, pelas mesmas razões, também a Microsoft de Bill Gates – que depois posa de filantropo. (Filantropia é em geral um embuste: de ricos espera-se que paguem impostos em vez de dar migalhas.)

Do outro lado do Atlântico, aqui na Inglaterra, neste final de semana um levantamento do Sunday Times mostrou que em 2011 os multimilionários ingleses ficaram ainda mais ricos – enquanto o país estacionava numa recessão que vai cobrando um preço alto dos chamados 99%.

Como esperar que os 99% aceitem os sacrifícios que muitos governos pedem para combater a crise econômica quando o 1% acumula cada vez mais dinheiro?

O caso da Apple está provocando um enorme barulho.

Mas é apenas um entre tantos, e tantos, e tantos.

30th abril
2012
written by Paulo Nogueira

'Eu ergui a bola para que se chocasse contra o travessão'

 

Caro Paulo:

Acompanhei a discussão em torno das semifinais entre Chelsea e Barcelona na Champions League.

Sem querer me gabar, fui eu que classifiquei o Chelsea. Eu, Sobrenatural de Almeida. Uma única pessoa compreendeu minha força no futebol:  Nelson Rodrigues.  Em vários artigos sobre futebol, NR evitou o lugar comum das explicações tolas em torno de uma bola que era para entrar e não entrou.

Com a morte de NR, eu sumi do noticiário. Mas não morri. Viverei enquanto houver futebol.

Se eu ficasse quieto, o Barcelona teria vencido o Chelsea, no acumulado, por 9 a 2.

Mas não me contive. Faltava, para mim, uma lição de humildade para o Barcelona. E para ser franco: já estavam me irritando as comparações entre Pelé e Messi. Mas este é outro assunto. Pep Guardiola, o Techo Bajo espanhol, também começava a me incomodar com seu ar de santidade e estudada humildade.

(Nota do Tradutor: Techo Bajo é Pouca Telha.)

No primeiro jogo, fui eu que empurrei levemente a bola de Fabregas que entraria no gol do Chelsea de tal forma que ela, depois de encobrir o goleiro, terminasse no travessão, e não nas redes. Fui eu também que, no único ataque do Chelsea, desviei um chute fraco de Drogba na canela de um zagueiro do Barcelona de tal forma que o goleiro não conseguisse defender.

No segundo jogo, fui ainda mais atuante. Ergui levemente a bola depois que Messi bateu o pênalti para que ela se chocasse contra o travessão. Antes disso, dei poderes de craque por segundos a Ramirez para que ele fizesse um gol em que a bola, normalmente, terminaria ou nas arquibancadas ou nas mãos do goleiro.

E corri o risco de ser descoberto quando fiz Torres — aquele espanhol inútil comprado por 50 milhões de libras e incapaz de marcar – assinalar o gol consagrador que matou as chances do Barcelona no finzinho do jogo. Fui mais Sobrenatural de Almeida que nunca neste lance. Deixado sozinho, Torres teria tropeçado nas pernas ao correr em direção ao gol do Barcelona.

Não sou de me gabar.

Escrevi para você, Paulo, apenas porque notei que em meio a tantas explicações para a eliminação do Barcelona ninguém se lembrou de mim. Nelson Rodrigues teria percebido na hora minha participação, mas ele está, infelizmente, morto.

Retorno agora à sombra e ao anonimato, mas continuarei a frequentar os gramados para dar vazão a meu passatempo favorito: fazer possível o impossível.

Cordialmente,

 

SA

Previous