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28th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

 

Muhammad Ali se referiu muitas vezes a seu arqui-rival Joe Frazier como Uncle Joe.

Injustamente, aliás.

Uncle Joe era como os negros ativistas chamavam, pejorativamente, os negros que se comportavam como serviçais dos brancos no auge da luta de afirmação racial, em meados dos anos 1900.

Não era o caso de Frazier, aliás. Frazier até ajudou financeiramente ali quando este foi banido dos ringues por se recusar a guerrear no Vietnã. Ali foi ingrato e cruel com Frazier.

Mas é o caso de Obama. Obama é um típico Tio Uncle. Ou negro de alma branca, como os brasileiros dizemos.

Em sua temporada na Casa Branca, a elite branca continuou a ser tão favorecida quanto antes. Foi preciso que um bilionário – Warren Buffett – gritasse que o sistema tributário americano é absurdamente injusto. Buffett, num artigo que já ocupa um lugar de destaque na história moderna americana, mostrou que, relativamente, pagava menos impostos que sua secretária.

Não era novidade. Desde a era Reagan, na década de 1980, as corporações e os ricos foram amplamente beneficiados pela legislação fiscal americana. Um estudo do Congresso americano traduziu isso, no ano passado, em números estarrecedores.

Obama nunca tocou nisso. Foi preciso que Buffett clamasse, do alto de sua pilha monumental de dólares: “Chega!” (Dias atrás, também Bill Gates reclamou que paga pouco imposto.) Obama, enquanto isso, fazia, bem, fazia o quê mesmo? Atirava bombas nos países árabes. E mandava matar bin Laden, para recolher votos para a reeleição e se ufanar – ridiculamente — de que o mundo ficara mais seguro, contra todas as evidências.

O pior, para os Estados Unidos, é que a alternativa a Obama é ainda pior. Os republicanos representam a espécie mais predadora dos ricos americanos. Os dois nomes mais fortes da oposição republicana – Mitt Romney e Newt Gringrich – somam zero em carisma e todos os demais atributos que compõem um estadista.

Não é à toa que a China caminha velozmente para desalojar os americanos da condição de maior potência do mundo. Um país, como uma pessoa, pode perder o caminho, e foi isso que aconteceu com os Estados Unidos.

Em Obama, na campanha para a reeleição, o slogan que traduziria mais verdadeiramente suas realizações seria: “No, I can’t.”

27th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

Em Londres, aja como os londrinos: aposte

 

Escrevi o texto abaixo para a revista Alfa que está nas bancas:

O euro vai sobreviver?

Esta é uma discussão cada vez mais intensa na Europa, no rastro de uma brutal crise econômica que vem colocando de joelhos muitos países. Economistas, políticos e jornalistas se dividem. Se você lê ou ouve o que eles estão dizendo, sua dúvida sobre a sobrevivência da moeda comum adotada por 17 países europeus tende a se ampliar cruelmente. Mais ou menos como num jogo de tênis, seu rosto vai virar ora para um lado e ora para o outro, e junto com ele sua mente.

Mais eficiente,  talvez, para você avaliar a situação, é consultar como as lendárias casas de apostas inglesas – tão presentes na paisagem local quanto os pubs –  estão vendo o caso.  Para abreviar, nos últimos meses, os bookmakers britânicos – assim chamados porque na origem as apostas (em cavalos) eram marcadas num livro – estão pagando cada vez menos para quem põe dinheiro na hipótese da morte do euro ao longo de 2012.

Uma das principais empresas de apostas – a William Hill – pagava há poucos meses 10 libras para cada uma que você apostasse no fim do euro. Agora, com a Grécia agonizando economicamente e a Itália respirando com extrema dificuldade , a WH está pagando apenas 3 por 1. No jargão dos bookmakers, estas são as odds – basicamente, as probabilidades. Não se trata, no caso de precisos  cálculos matemáticos, como aqueles que vocêpode ver na tevelisão nos jogos de pôquer. Um computador calcula as chances de este ou aquele jogador ganhar a mão com base nas cartas que ainda estão por ser viradas.

No caso das casas de apostas, as odds funcionam na base da intuição. Para elas ganharem dinheiro no negócio, sua sensibilidade, sua intuição, sua inteligência têm que funcionar na plenitude – e harmoniosamente. Se elas cometem erros de julgamento frequentes – por exemplo, pagar mais do que devem para quem aposta em Rafael Nadal  (a chamada barbada) para ganhar Roland Garros –  não têm chance de permanecer à tona.  Odds bem-feitas são o segredo do negócio: atraem os apostadores e, ao mesmo tempo, garantem uma margem de lucros para as empresas.

Um caso real – e engraçado – dá uma boa idéia do funcionamento dessa indústria. Na morte de um papa, uma casa não sabia como começar o livro. Quer dizer, seus executivos não estavam seguros de como deveriam fazer para começar a aceitar apostas num episódio que prometia, evidentemente, despertar intenso interesse dos apostadores. Até que alguém teve a idéia: “Vamos começar pelo principal rabino da Inglaterra. Vamos pagar 1 000 por 1.”

O mercado britânico é dominado pelas chamadas “Big Three”:  Ladbroks, Coral e William Hill. Você vê lojas delas virtualmente onde quer que esteja no Reino Unido.  Há cerca de 8 500. Uma visita a Londres fica incompleta se você não entra numa delas. Há televisores nos quais apostadores vêem competições para conferir a sorte em suas apostas. Corridas de cavalo e futebol dominam as apostas.

Os bookmakers nasceram, no final do século 18, no turf, como os ingleses chamavam (e chamam) as corridas de cavalo. Mais tarde, as apostas foram se diversificando, e abarcam uma infinidade de coisas. Num jogo de futebol, você pode apostar não apenas num time, mas numa série de detalhes. Você pode arriscar em coisas como o placar do primeiro tempo, o autor do primeiro gol e daí por diante.  Novas tecnologias permitem a você apostar sem sair do sofá. Nos intervalos de jogos da Premier League, é comum que apareça um comercial com alguma oferta  de ocasião para os apostadores:  Didier Drogba vai marcar o próximo gol do Chelsea, por exemplo.

A indústria das apostas se consolidou no Reino Unido graças a algumas leis fundamentais. Ainda nos primórdios, uma delas fez com que fossem reconhecidas legalmente as dívidas de jogo. Até então, perdedores podiam recorrer à Justiça para se livrar das consequências de apostas desastrosas e irresponsáveis. Mais recentemente, no começo da década de 1960, o governo permitiu a abertura de lojas. Os britânicos vão a uma loja como vão a um pub: é parte dos hábitos nacionais.

Nem o advento da internet parece ter mexido nisso. As lojas físicas estão firme — e em processo de internacionalização. A centenária Ladbroks opera hoje também na Espanha e na Bélgica. A Ladbroks dá uma idéia do apetite britânico por jogo.  Por ela passam, anualmente, 15 bilhões de libras em apostas, cerca de 35 bilhões de reais. A rede emprega 15 000 pessoas. A travessia rumo ao mundo digital está sendo feita com sucesso: são 800 000 os clientes ativos da Ladbrokes na internet.

Os bookmakers  –  ou  bookies, como são chamados aqueles que trabalham no ramo — vivem do risco, mas tomam suas precauções quando necessário.  Imagine que estão sendo feitas muitas apostas altas em alguém.  Voltemos alguns anos e suponhamos que houvesse um enorme volume de dinheiro colocado na hipótese – virtualmente irrealizável – de que o invicto e destruidor Mike Tyson fosse batido pelo inexpressivo veterano James Buster Douglas. Em situações assim, os bookies preventivamente fazem uma espécie de seguro informal: eles assumem o papel de apostadores, também, e fazem suas apostas na concorrência. Agindo assim, eles reduzem seu lucro, mas também evitam a bancarrota com uma surpresa extraordinária como foi, exatamente, a derrota de Tyson.

Na Inglaterra, faça como os ingleses, e entro aqui então com minha experiência pessoal. No verão passado, entrei numa loja perto de casa e apostei 100 libras em Federer para ser campeão de Wimbledon. Ganharia 400, caso Federer vencesse, o que infelizmente não ocorreu. Mas a visita a uma loja valeu o dinheiro que perdi. Pude ver, pela primeira vez, uma corrida de cachorros na televisão, na companhia de apostadores. Olhos atentos, na loja, acompanhavam ansiosamente as passadas rápidas dos cães.

Raras vezes, em minha temporada em Londres, me senti tão inglês como naquele instante – numa casa de apostas,  fazendo meu jogo afinal fracassado, cercado de londrinos que ajudam a manter viva uma tradição nacional (quase) tão enraizada quanto o chá.

 

 

26th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

Cuidemos da saúde, como aconselha Balzac

 

Erro pela minha biblioteca desorganizada. Apanho um Balzac, e me dá vontade de reler A Comédia Humana. Balzac foi o maior de todos os romancistas. Um contador de histórias sublime. Ferino, cáustico, corrosivo. Se você tem que ler um romancista na vida, o nome é Balzac.

E logo dou numa cena típica de Balzac.

Uma jovem e inocente esposa procura uma mulher madura e libertina em busca de conselhos amorosos. Seu marido estava se comportando mal. O irônico é que a jovem vai atrás exatamente da mulher por quem seu marido estava encantado. A libertina se comove com a infeliz em lágrimas. E lhe diz: “Em primeiro lugar, aconselho-a a que não chore assim, porque as lágrimas enfeiam. É preciso saber conformar-se com as tristezas; estas fazem adoecer, e o amor não fica muito tempo junto a um leito de dor. A melancolia dá, é verdade, no começo, um certo encanto que agrada, mas acaba por desmerecer as feições e emurchecer o rosto mais sedutor. Além disso, nossos tiranos – os homens – querem que suas escravas estejam sempre alegres.”

Uma frase, particularmente, me pega. “O amor não fica muito tempo junto a um leito de dor”.

Alguém duvida?

Para os amantes Balzac oferece aí uma lição essencial: cuidem bem da saúde.

25th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

A resposta à desigualdade nos Estados Unidos veio no movimento Ocupe Wall St

 

Quer dizer então que, depois de quase um mandato inteiro, Obama descobriu que a desigualdade social nos Estados Unidos chegou a níveis absurdos.

Os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres mais pobres, graças a um sistema tributário que trata os privilegiados como meninos “mimados”, para usar a já histórica expressão do bilionário Warren Buffett. Num artigo publicado no ano passado no New York Times, Buffett afimou que era hora de Washington taxar gente como ele próprio decentemente. Ele notou que, proporcionalmente, sua secretária paga mais imposto que ele: menos de 20% ele, mais de 30% ela.

A isso se dá o nome de plutocracia: o governo dos ricos, pelos ricos e para os ricos. Os Estados Unidos trocaram a democracia pela plutocracia há cerca de 30 anos, quando Ronald Reagan era presidente. Na era de George W Bush o processo se acentuou, e a resposta apareceu agora nos protestos que chacoalham o país.

Outro bilionário, George Soros, previu esta semana tumultos em série nos Estados Unidos no futuro próximo, por conta da ridícula distribuição da riqueza.

Gostaria de aplaudir Obama, mas só nas proximidades das eleições ele percebeu o que se passava com o povo de sua nação? Oportunismo, miopia, hipocrisia, ou o quê?

Ainda assim.

A alternativa a Obama é ainda pior. O republicano Mitt Romney, por exemplo. Ele tenta ser escolhido por seu partido para concorrer com Obama. Romney, multimilionário que vive basicamente de rendas, pagou cerca de 13% de imposto em 2010. Ainda menos que Buffett. Cinicamente, disse que os americanos não gostariam de votar em alguém que paga mais imposto do que deveria.

As grandes corporações e os bilionários – o “1%” – encontram variadas maneiras de fugir dos impostos.  Mantêm lobistas no Congresso para influenciar na feitura de leis que os beneficiam, estão cercados de especialistas em planejamento tributário  — em geral uma expressão solene que no mundo prático costuma significar sonegar.

Os demais “99%” não têm alternativa. Já pagam imposto na fonte – caso tenham a sorte de estar empregados, aliás — e fim de história.

Obama diz agora, enfim, que quer um país “mais justo”.

Em vez de soltar bombas freneticamente no Oriente Médio por meio dos drones, os aviões teleguiados, ele deveria ter gastado o melhor de seu primeiro mandato para evitar que o sonho americano se transformasse num pesadelo regido por plutocratas.

24th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

 

 

Caio Blinder é boa gente.

Me lembro dele, em algumas ocasiões, na redação da Exame, na década de 1990.  Ele já morava fora, e nas visitas ao Brasil aproveitava para combinar alguns frilas.

Como entender, então, as barbaridades que ele disse no programa Manhattan Connection?

Antes de mais nada: jamais assisti uma única vez o programa. As cenas que vi foram postadas no Facebook.

Caio tinha, no passado, um papel inglório no programa. Ele era o alter ego de Paulo Francis. Isso, na prática, significava que ele era a favor daquilo que era atacado por Francis e contra o que Francis defendia.

Ou seja: Caio era pago para fazer sombra para Paulo Francis.

A única explicação que encontro para as pataquadas de Caio está exatamente nesse passado em que ele abdicava de suas próprias idéias para rechaçar as de Francis, fossem quais fossem. Apoiar o assassinato de cientistas do Irã supostamente envolvidos num programa nuclear é ir contra todos os preceitos da civilização.

Caio vive nos Estados Unidos, o país que jogou duas bombas atômicas no Japão quando Hitler já se matara e a guerra estava ganha, em agosto de 1945.  Em Hiroxima, a bomba caiu numa manhã, quando milhares de crianças saíam de casa para ir à escola.

A bomba atômica é um horror.  Por décadas, na Guerra Fria, a humanidade viveu intimidada, apavorada com a possibilidade de um holocausto nuclear provocado pelos Estados Unidos e pela União Soviética. Um dinheiro incalculável foi gasto não para combater a pobreza e a miséria, mas para produzir armas capazes de dizimar a humanidade. (A União Soviética acabaria quebrando por causa disso, e os Estados Unidos seguem o mesmo caminho.)

Einstein foi quem animou o presidente americano Franklin Roosevelt a correr atrás de uma bomba atômica. Teria sido defensável matar Einstein antes que ele convencesse Roosevelt? Pela estranha lógica de Caio Blinder, sim.

“Às vezes, quando penso nas coisas que falei, sinto inveja dos mudos”, escreveu Sêneca.

Imagino que Caio, um bom cara, repito, vai sentir algo parecido quando, de volta a seu juízo normal, ouvir aquilo que disse.

 

23rd janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

Pesquiso para uma encomenda que recebi: um perfil de Ayrtor Senna.
Vou dar neste vídeo. Um tributo do aclamado programa de tevê britânico Top Gear a Senna no dia em que ele completaria 50 anos, em março de 2010. Achei uma cópia do vídeo com legendas em português, que compartilho aqui no Diário.
No comando do programa está um dos jornalistas mais polêmicos e brilhantes da Inglaterra, Jeromy Paxton – especializado em carros mas com opiniões contudentes e de enorme repercussão também na política e na economia. (Fiquei feliz ao saber, em minha temporada de fim de ano no Brasil, que a 4 Rodas, dirigida por meu querido e talentoso amigo Sérgio Berezovsky, está publicando as colunas de Paxton.)
Não vou dizer aqui como viajei com este vídeo rumo aos anos 1980, o ápice de Senna e provavelmente da Fórmula 1, tempos de superpilotos como Senna, Prost, Mansell e Piquet.
“Ah, éramos jovens, éramos jovens”, para usar a frase de Eça de Queiroz no final de Os Maias.
Quero fixar duas coisas.
Primeiro, a maneira como Lewis Hamilton fala de Senna. Como ele lembra exatamente o que estava fazendo no diz em que Senna morreu, a exemplo de milhões de brasileiros e, ficou claro para mim agora, não apenas brasileiros. Em toda a minha vida, vi três vezes uma morte se fixar imediatamente na memória de boa parte da humanidade de forma tão intensa que as pessoas lembram como souberam dela com detalhes pelo resto de seus dias. A primeira vez foi com Kennedy, em 1963. A segunda com Lennon, em 1980. E a terceira com Senna, em 1994.
A segunda coisa que eu queria destacar é a opinião de quem conhece, como diz Paxton: os pilotos. Eles falam de Senna como o número 1 sem hesitação. Meu favorito naqueles dias, Nigel Mansell, diz que Senna foi o piloto que defendeu seu espaço numa corrida com mais “ferocidade” – um reconhecimento relevante uma vez Mansell, o Leão, foi um mestre neste quesito específico.
Mesmo Schumacher, cujas estatísticas são superiores às de Senna. Ouvido pelo programa, ele diz, em coro com os demais pilotos, que também ele colocaria Senna na primeira colocação entre os maiores.
E agora até logo, porque vou ver o documentário que os ingleses fizeram sobre Senna.

22nd janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

Yusuf fotografado antes de ser executado

Boko Haram. Num dialeto nigeriano, significa, aproximadamente, “não à educação ocidental”.

Não com exclamação. E com bombas.

Boko Haram é o nome de uma organização extremista islâmica parecida com a Al-Qaeda de bin Laden. Nos últimos tempos, homens-bombas da Boko Haram têm promovido atentados em série no norte da Nigéria, o país mais populoso da África, com 160 milhões de habitantes. No mais recente deles, esta semana, mais de 150 pessoas morreram na cidade de Kano, no nordeste nigeriano.

O fundador da Boko Haram foi um religioso radical chamado Mohammed Yusuf. Ele foi capturado pela polícia nigeriana e executado, alguns anos atrás. Cenas colhidas por vídeos amadores registraram a maneira como a polícia matou suspeitos de pertencer à Boko Haram num grande ataque ao grupo: os policiais mandavam as pessoas se deitarem de costas e davam tiros.

O objeto era liquidar a Boko Haram. Mas ocorreu o oposto. Os extremistas islâmicos consideram a morte em combate um “martírio” em nome da causa, como os católicos que, séculos atrás, enfrentavam as chamas quase que alegremente, em nome de Cristo.

A cada martírio brotam mais radicais e, consequentemente, mais bombas.

E então me ocorrem as palavras de Obama depois da execução de bin Laden: “O mundo ficou mais seguro”.

Desde lá, uma rotina de explosões no Iraque, no Afeganistão, no Iêmen – e na Nigéria da Boko Haram.

Obama – uma monumental decepção diante das expectativas de que ia promover mudanças reais nos Estados Unidos – pronunciou ali uma daquelas frases diante das quais a grande sentença de Chesterfield se aplica: “Quem acredita nisso, acredita em tudo.”

21st janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

Notívagos, de Hopper

 

Escrevi esse conto com uns 30 anos. É minha ficção de que mais gosto. Nela estão as coisas que me são obsessivas na escrita fora do jornalismo: a melancolia, o fim do amor e o reencontro patético. 

Reencontro

 

“Você não mudou nada. Sempre com cara de criança. Sempre calado. Pensativo. Às vezes eu tinha que fazer a pergunta e a resposta para que nossas conversas não morressem.”
Fabio arregalou os olhos e encarou Lenira. Fazia cinco anos que não a via, mas parecia que estivera com ela na noite anterior. Fora a roupa, agora muito mais elegante, ela não mudara nada. Os cabelos pretos como uma noite siberiana de inverno continuavam a escorrer pelas suas costas como uma capa de super-herói.
Os óculos pretos de aro fino, antes sem marca, agora Armani, ainda lhe davam o ar ingenuamente sexy de professora. Os grossos lábios vermelhos sem batom – batom para quê? Um fêmur deslocado aos 15 anos deixara a perna direita de Lenira ligeiramente menor que a esquerda. Fabio adorava vê-la caminhar. Ninguém se movia com tanta graça, achava. O maior espetáculo da Terra. Lenira vestia um tailleur rosa de executiva. Subitamente passou pela cabeça de Fabio a idéia absurda de dizer coisas assim: “Ei, você sabe que eu prefiro você de jeans e camiseta branca, como no passado? Você ainda fica com as bochechas vermelhas depois do amor? Você pode me deixar ver, pela última vez, aquela tatuagem de golfinho na virilha direita?”

Quantos anos ela já tinha? Trinta? Não, 31. Era quatro anos mais nova que ele. Pensou na Sofia de Machado de Assis. “O tempo, como um escultor vagaroso, a ia esculpindo ao correr dos longos dias.” Uma vez, no primeiro aniversário do dia em que alugaram um apartamento e foram morar juntos, escrevera isso no cartão em que lhe dera as obras completas de Machado em três volumes. Quando o deixou, ela não as levou. Os livros de Machado jaziam desprezados numa estante do pequeno apartamento em Pinheiros. Fabio se perguntou o que Lenira teria feito do cartão. Provavelmente o jogara fora, pensou. Ela jamais guardara nada, ao contrário dele.
“Você deve ter achado estranho eu aparecer depois de tanto tempo, não é, Fabio? Telefonar e marcar um almoço exatamente nesse restaurante.”

Esse restaurante. A cantina Speranza, na Bela Vista. Freqüentavam nos bons tempos. Um restaurante charmoso e barato, bom para gente de dinheiro contado como ele ontem e hoje e para ela ontem.
“Você nunca quis ir a outros restaurantes. Sempre a Speranza, sempre a lasanha à romanesca, sempre a Coca-Cola, sempre a musse de chocolate. A primeira coisa em que eu reparei hoje foi o seu pedido. Lasanha e Coca. Se pelo menos fosse Coca light. Quase que eu falei quando o garçom anotou o pedido: e musse de sobremesa para ele. Fabio, Fabio, você nunca vai mudar?”

Fabio achou no tom de voz de Lenira alguma coisa que sugeria que ela podia estar à beira de lágrimas ou gargalhadas. Não estava preparado para lágrimas. Preferia gargalhadas. Era mais fácil enfrentá-las.

“Eu precisava dizer certas coisas. Coisas que não foram ditas.”

Fabio fez um gesto com as mãos como dizendo que não, ela não tinha que lhe dar satisfação nenhuma. Algumas palavras talvez tivessem importância num passado já remoto, não agora.

“Quando eu decidi ir embora, sabia que não conseguiria falar com você. Olhar para você e dizer adeus. Mas imaginava escrever uma carta que explicasse tudo. Aí eu peguei a caneta e… e nada. A gente pensa que certas coisas são mais fáceis de escrever do que de dizer, mas isso é uma ilusão.”

Passou rápido por Fabio a lembrança de que Lenira jamais fora, mesmo, uma boa redatora. Estudara jornalismo, mas depois se fixara no departamento comercial de uma revista.

Ela tirou os óculos e os pôs na mesa. Era um sinal, Fabio sabia, de que estava emocionada. Era como se a vista turva a ajudasse a enfrentar melhor certas situações difíceis. Fabio sentiu uma súbita e absurda vontade de pedir a ela que caminhasse pelo restaurante, para ver aquele andar inigualável e majestoso em sua leve oscilação, mas tinha noção do ridículo de tal pedido e permaneceu calado.

“Não sei quantas vezes iniciei um bilhete de explicação e rabisquei tudo. No fim desisti. O silêncio era mais digno do que uma carta vulgar de despedida, cheia de lugares-comuns e de erros de português.”

Uma amiga de Lenira lhe telefonou, um dia, para dizer que ela decidira sumir um pouco para pensar na vida. Deixara o emprego, deixara o namorado, deixara a cidade, deixara tudo. A amiga disse que ela fora viajar para ninguém sabia onde. Fabio dormira depois, algumas vezes, com essa amiga de Lenira. Aprendeu ali que o sexo pode ser sinônimo de desespero. Naqueles dias, Fabio só se sentia vivo quando estava dentro de uma mulher.

Alguns meses depois da partida de Lenira, Fabio a viu numa coluna social, mulher de um homem 20 anos mais velho que ela, Miguel. Ele era um figurão do mundo publicitário. Conquistara leões de todas as espécies em Cannes e era sócio de americanos numa grande agência. Lenira era sua segunda mulher. Pouco mais de um ano depois, leu também numa coluna social que Lenira e Miguel tiveram um filho. Quase desesperara ao sabê-la perdida.

“Quando nós fomos morar juntos, eu pensei que era para sempre, Fabio. Mas tudo mudou, depois. Você, Fabio. Você mudou, cada vez mais monomaníaco. Primeiro ouvia músicas variadas, depois só o Nirvana, depois só o Acústico do Nirvana, depois só My Girl. Deus, às vezes passo dias sem conseguir tirar essa maldita música da cabeça.” Cantarolou um trecho, desafinada como sempre. Ninguém é perfeito, pensou Fabio.

Ocorreu a ele que não poderia haver prova de amor maior do que gostar de ouvir cantar uma mulher desafinada. E ele gostava de ouvi-la. “My girl, my girl / Don’t lie to me / Tell me where did you sleep last night.”

A história da música, sabia Fabio, era a história deles dois, a história de milhares, milhões de casais, aqui, ali, em todos os lugares. A falência de um romance, a tristeza, o desamparo, a perplexidade. Sempre a mesma história. Ridículo achar que um caso de amor possa ser especial, quimera vã e despropositada de amantes pretensiosos. Ocorreu a Fabio que Lenira entrara no restaurante acusando-o de não ter mudado em nada e agora o acusava de ter mudado em tudo. O que poderia se chamar de caso sem solução.

“Depois foram os livros. Você lia tudo, me fez ler até Guerra e Paz. Demorei seis meses, mas consegui. Depois só Machado de Assis, depois só um conto, sei o nome, Um Capitão de Voluntários. Quantas vezes você leu esse conto? Cento e oitenta, 320? E ainda dizia que era um conto menor do Machado de Assis. Menor! Eu comecei a ficar com medo. Eu tinha medo de você. Ainda tenho. Você pode imaginar o que é, de repente, descobrir que o homem com quem você dorme é um desconhecido? Um… um… um lunático?”

Lenira olhou para um jovem casal numa mesa ali perto. Estavam completamente entretidos um com o outro. Por baixo da mesa ela tocava os pés dele. De tempos em tempos ele se erguia parcialmente sobre a mesa para beijá-la.

“Parece que estou vendo a gente alguns anos atrás. Acho que um relacionamento começa a terminar quando as conversas começam a terminar. Aquele casal ali. Parece que eles poderiam conversar dias, anos sem parar. Sabe do que eu mais sinto saudade? Das nossas conversas do início. Eu gostava tanto do som da sua voz dizendo meu nome.”

Lenira fez uma pequena pausa como para se lembrar de alguma conversa que tivera, no começo, com Fabio. Depois prosseguiu. “Que coisa mais absurda ter 20 anos e acreditar em palavras tolas e sem sentido como amor. Ora, o amor. Devia estar escrito assim em todos os dicionários. Amor: o mesmo que ficção. E cuidado ao usar porque machuca.”

Lenira começou a chorar baixinho. Fabio pensou em abraçá-la, confortá-la, mas viu o absurdo de confortar quem vencera o embate entre os dois, a parte vitoriosa, a mulher que o abandonara para crescer na vida. Ele era, ali naquela mesa, o derrotado. Ao fim de alguns segundos, ela já se recuperara. Os olhos verdes estavam levemente avermelhados. E só.

“Não sei se isso tem importância, mas eu só comecei a namorar o Miguel depois que deixei você. Enquanto nós estávamos juntos, sempre fui fiel.”

Fiel. Que palavra mais ridícula, pensou Fabio. Ninguém é fiel a ninguém. As pessoas só são fiéis a si próprias. Às vezes, nem a elas mesmas. Fabio achou pelo tom de voz de Lenira que ela pronunciara a palavra fiel como se julgasse merecer uma condecoração.

“É verdade: nunca dormi com ninguém quando estávamos juntos. Eu… eu simplesmente não tinha a menor vontade.”

Era a Lenira de sempre, pensou Fabio. Usava “dormir” como sinônimo de copular. Podia ser pior, ele sabia. Lenira podia preferir “fazer amor”. Falava de Miguel como se fosse um velho conhecido de Fabio.

“Não podia terminar bem. Você parecia não gostar mais de nada, só de ler Machado de Assis e escutar o Nirvana. Eu tinha uma festa, você não ia. Queria ver um filme, você não ia. Pareço estar ouvindo o que você dizia de cinema. Cultura de preguiçoso. Quem não tem preguiça lê livro. Quem tem vê filmes. Você sempre foi tão cínico. Mesmo agora. Eu falo essas coisas todas, tão importantes para mim, tão duras que levei cinco anos para conseguir dizer, e você me olha impassível, com um sorriso pregado no canto dos lábios. Eu nunca atingi você, não é, Fabio? Me pergunto quantos dias você demorou para perceber que eu tinha ido embora.”

Fabio achou que não era o momento de falar no quanto sofrera. Não ia falar no dia em que pegara uma tesoura e, num acesso de fúria, rasgara as fotos dos dois. Como sempre, quem precisava falar era ela, não ele. Reparou que ela não tocara na comida, uma salada de salmão acompanhada de água sem gás. Tudo bem, Lenira não fora ali para comer.

“Ainda no dia anterior eu esperei alguma coisa, um gesto, um sinal que mostrasse que eu tinha alguma importância pra você. Que você me achava tão importante quanto My Girl e um Capitão de Voluntários. Mas nada. Você tinha se refugiado num mundo no qual eu não conseguia entrar.”
Fabio demorara algum tempo para entender que essa indiferença fingida era apenas uma autodefesa errada e inútil. Sabia que perderia Lenira, algum dia, para alguém mais adequado que ele. Um homem que a levasse para dançar, para viajar, que a fizesse sorrir. Alguém como Miguel. Fabio sempre olhara Lenira de cima para baixo, uma perspectiva que só poderia mesmo levar o casal ao colapso. Lenira e Miguel parecem feitos um para o outro. Dois vitoriosos, que se olhavam de igual para igual. Pareciam tão felizes, os dois, nas fotos das colunas sociais. Por saber que a perderia, Fabio construíra um mundo ao qual Lenira não pertencia. Uma tolice, sabia agora, mas a vida é exatamente isso, uma sucessão interminável de tolices. E a gente só percebe que cometeu um erro grave num relacionamento depois que já é muito tarde para corrigi-lo.

“Fabio, Fabio. Você não vai falar nada?”
Fabio pensou em falar algo, mas se calou. Não falara nada quando falar poderia ter feito alguma diferença. Agora não fazia sentido falar nada.

“Fabio, Fabio, eu …”
Fabio percebeu que Lenira estava perto de perder o controle. Mas nunca houve nada que ele pudesse fazer a esse respeito.
“Eu te detesto, te detesto, te detesto. Você arruinou minha vida. Você me tornou uma mulher amarga, uma mulher que não consegue sonhar.”
Ele pensava que Miguel e ela fossem felizes. Era o que parecia nas colunas sociais.
“Você dizia que gente que não leu Sthendal não sabe nada da vida. Sthendal, não é isso? Não me lembro de ter passado uma noite só com você sem que você acendesse o abajur para ler um livro e …”
Lenira fez uma pausa breve, para recuperar ao mesmo tempo o fôlego e a raiva.
“… não consegui deixar de reparar que o Miguel nunca lia um livro antes de dormir. Mas ele é bom de sexo, entendeu? Muito bom, Fabio. Fabio, Fabio, eu te detesto.”
Ela foi subindo o tom de voz. Naquela altura todo o restaurante sabia que ela o detestava, e que Miguel era bom de cama.

Lenira levantou-se subitamente e foi embora. Fabio ficou na mesa. Admirou, uma última vez, o olhar torto e sublime de Lenira.
Depois olhou para o casalzinho que estava na mesma mesa em que eles gostavam de se acomodar.
Estavam tão apaixonados.
Teve pena dos dois.

20th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

Cena italiana dos dias de hoje

 

Vada a bordo, cazzo!

Eis a frase do momento na Itália. Numa tradução livre, “volte ao navio, cacete!” O autor, um funcionário da Guarda Costeira da Itália, endereçou-a ao capitão do navio Costa Concordia, Francesco Schettino, no momento em que as coisas se complicavam no trágico cruzeiro.

Schettino, segundo as evidências, foi não apenas inepto mas covarde. Está em prisão domiciliar, e as perspectivas para ele não são nada boas. Pelo menos 11 pessoas morreram por culpa, aparentemente, dele e dele só.

A frase virou um clássico instantâneo. Está estampada em camisetas usadas pelos italianos. Apareceu como um aditivo espituoso numa versão ítalo-inglesa do histórico cartaz que o governo britânico criou para tranquilizar a população na Segunda Guerra Mundial: Keep Calm and Carry On. (Mantenha a Calma e Siga Adiante.) Ficou assim: “Keep Calm and Vada a Bordo, Cazzo!”

Agora a imprensa italiana deu um uso político à expressão. Um jornal publicou uma charge da chanceler alemã Angela Merkel em que você lê: “Vada a bordo, cazzo!”

Merkel num jornal italiano

O que os italianos, quebrados, desejam é que Merkel, à frente do único país europeu em situação realmente boa, assuma o comando da operação de salvamento do euro.

Mas são definitivamente raras as chances de que Merkel saia distribuindo dinheiro aos países em apuros – até porque a única consequência efetiva disso seria também a quebra da Alemanha. Por isso a relutância de Merkel diante da frase dramática em italiano tende a ser ainda maior que a do tristemente famoso capitão Schettino.

19th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

Wikipedia, ontem

 

Em certos assuntos de maior complexidade você pode abreviar o caminho para decidir se é contra ou a favor. Você verifica quem está de um lado e quem está do outro.

No caso da SOPA, por exemplo, o controvertido projeto de lei americano que se destina supostamente a combater a pirataria na internet e a proteger os direitos autorais.

É um dos temas mais comentados na internet nestes dias, depois que num gesto dramaticamente eficiente a Wikipedia em língua inglesa decidiu ficar um dia fora do ar em protesto contra a SOPA. A Wikipedia queria aumentar o conhecimento sobre a SOPA e estimular seus leitores a fazer pressão sobre os congressistas americanos.

Gol.

Hoje, vários políticos americanos que apoiavam a SOPA retiraram seu projeto. As chances de aprovação se tornaram diminutas.

Voltando ao ponto. Um dos apoiadores mais fortes do projeto é Rupert Murdoch, da News Corporation – um homem que põe seus interesses financeiros acima de tudo. Murdoch é dono, entre outros negócios, da Fox Films. A indústria de cinema americana alega estar perdendo bilhões com a pirataria, e é ela quem está patrocinando a causa da SOPA. Os termos são duros: sites americanos que sejam acusados de ajudar na pirataria digital podem ser fechados e seus donos presos.

Contra o projeto está a Wikipedia, alinhada com a visão geral da comunidade da internet de que o conhecimento deve ser democratizado, e que a SOPA só beneficia uma pequena elite plutocrata. Google, Facebook e Twitter estão juntos com a Wikipedia na oposição à SOPA.

Caso você queira se aprofundar no tema, aqui está um texto didático em forma de perguntas e respostas.

Mas de novo.

Se Murdoch apóia alguma coisa e a Wikipedia – que não tem fins lucrativos — é contra, você intuitivamente sabe de que lado deve estar o interesse público.

18th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

Protesto em Londres contra a ganância corporativa e executiva

 

Escrevi para a edição da Exame que está nas bancas um artigo sobre um tema que provoca nervosas, apaixonadas, raivosas discussões mundo afora neste momento: a desigualdade social, um processo que ganhou velocidade galopante nas últimas três décadas.

Vejo, satisfeito, que a BBC foi a fundo no assunto, e preparou um documentário chamado “The Wealth Gap” – a disparidade da riqueza, numa tradução livre.

Onde a iniquidade mais se manifesta é nos obcenos salários dos CEOs, os presidentes de empresas. Peter Drucker, o papa da moderna administração, dizia que a relação entre o salário de um presidente e o da média dos funcionários não poderia ser superior a 25 para 1. Ou então se rompiam coisas fundamentais para o sucesso de um empreendimento, como o sentimento de time.

Na Viacom, multinacional americana, o CEO em 2010 ganhou quase 2 000 vezes mais que a média dos empregados: mais de 80 milhões de dólares. Há muitos outros casos. Um levantamento do Senado americano mostrou que a renda do 1% mais rico dos Estados Unidos cresceu 275%  entre 1979 e 2007. Os 20% de baixo da tabela viram sua renda crescer apenas 18%.

Na Inglaterra, atingida por uma crise econômica persistente, os salários dos CEOs das 100 maiores empresas listadas na Bolsa de Valores de Londres cresceram mais de 40% no ano passado – numa desconexão completa com o panorama do país.

Como os governos podem pedir sacrifícios à população quando uma elite ganha mais dinheiro que nunca e comanda uma concentração de renda absurda e injusta?

Uma das reações a esse quadro está na série de protestos que se espalharam pelo mundo nos últimos meses, sob o guarda-chuva do imperativo “Ocupe”. Os 99% estão dizendo basta ao 1% ganancioso que se beneficia de sua proximidade com o poder para extrair vantagens indecentes.

Constato que a BBC mudou de tom em relação aos protestos. Os manifestantes que acampam em frente da Catedral de São Paulo, em Londres, eram chamados, antes, de “anticapitalistas” pela BBC. Agora, a BBC reconhece que os protestos são contra a “ganância” corporativa e executiva.

Desigualdade em excesso gera mais crimes, mais insegurança etc etc. Por isso o tema é de interesse público, a despeito de ideologias. Estudos mostram que em países onde a diferença é menor, como no Japão e na Escandinávia, a vida é melhor – para todos, ricos e pobres. Um estudo do epidemiologista Richard Wilkinson que mostra isso tem sido intensamente lido e debatido por homens públicos nos países ricos. (Aqui, você pode ver um vídeo em que Wilkinson expõe suas idéias, com legendas disponíveis em várias línguas, incluído o português.)

Reduzir as desigualdades sociais é provavelmente o maior desafio do mundo moderno. Ou os governantes se mexem ou os próximos tempos serão plenos de tumultos, porque a paciência e a resignação dos excluídos têm limite — e isso ao longo da história já se manifestou em coisas como reis guilhotinados.

18th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

Em 1970, os corintianos éramos conhecidos como sofredores. Desde 1954 o Corinthians não ganhava um título. Nascido em 1956, eu jamais vira meu time ser campeão.

Eram outros tempos.

Não havia a profusão de competições de hoje.  Em São Paulo, o Campeonato Paulista era a única coisa que realmente importava. Era um torneio dificílimo. Ida e volta, pontos corridos. Fora os times da capital, o interior do estado tinha representantes fortes. Enfrentá-los na casa deles era uma parada sempre dura. Naqueles dias, a Ponte Preta, particularmente, era uma potência emergente, reflexo da pujança econômica de Campinas.

O esquadrão derrotado de 1970

 

O Corinthians, em 1970, tinha um grande time, comandado por Rivellino. Mas tinha como adversários times como o Santos de Pelé e o Palmeiras de Ademir. Isso para não falar do São Paulo, que depois de anos de anemia futebolística por conta do foco na construção do Morumbi, contratara Gérson, o Canhotinha de Ouro. Com seu estilo clássico, sua liderança carismática e seus lançamentos precisos de 40 metros, Gérson levou o São Paulo ao título em 1970.

Foi sob esse cenário desanimador que papai escreveu em sua coluna dominical  A Língua Nossa de Cada Dia, na Folha de S. Paulo, um texto sobre os torcedores de futebol, reproduzido abaixo. É parte do projeto do Diário de republicar as lições de papai sobre o português do cotidiano.


O TORCEDOR DE FUTEBOL     

Por Emir Macedo Nogueira

 

À falta sufixos próprios, empregam-se em São Paulo, para designar os adeptos ou torcedores dos clubes de futebol, os chamados sufixos pátrios ou gentílicos, que a rigor indicam procedência ou naturalidade. Curioso é que a cada grande clube paulista corresponde um sufixo diferente: ano ficou para Corintians (corintiano, como paraibano); ense para o Palmeiras (palmeirense, como amazenense), ista para os Santos (santista, como paulista); e ino para o São Paulo (são-paulino, como bragantino). Com a Portuguesa ocorre outra curiosidade: normalmente seria português o adjetivo a ser empregado para designar seu torcedor, seu atleta etc. A crônica esportiva, entretanto, refugou esse termo (talvez por ter conotação muito grande com nacionalidade) e passou a empregar lusolusa. De maneira que não estaria muito longe da verdade quem dissesse que em São Paulo o adjetivo luso só se emprega com o sentido de: relativo à Portuguesa (tanto à de Desportos quanto a Santista)…

Quanto aos demais times, ora a eles se aplica um daqueles sufixos, ora outra. Há casos de hesitação: em relação à Ponte  Preta, novo “grande” do futebol paulista, usa-se ponte-pretano ou ponte-pretense. Quando há problemas de eufonia, surgem recursos engraçados: a torcida do Guarani não é guaraniense, mas bugrina (é essa palavra que se aplica também ao time, aos jogadores etc).

No Rio, além do emprego dos sufixos, costuma-se também designar o torcedor pelo próprio nome do time. Assim é que o carioca é flamengo (ou flamenguista: entusiasta do Flamengo); vasco (ou vascaíno: adepto do Vasco da Gama) etc. Em São Paulo não há essa hábito.

As cores do uniforme também servem para identificar o clube e tudo quanto se relaciona com ele. Temos entre nós os alvinegros(Corinthians, Santos, Ponte Preta, entre outros), os alviverdes (Palmeiras), os rubroverdes (Portuguesa de Desportos). Observe-se que todos esses compostos se escrevem como se fossem uma só palavra, sem hífen, sem nada; o hífen aparece, por exemplo, em auri-rubro, para manter fidelidade à pronúncia sem necessidade de dobrar o r. O novo campeão paulista, o São Paulo FC, é apenas o tricolor, sem indicação das cores de seu uniforme. Na grafia do nome, que indica o seu torcedor, notam-se dúvidas entre são-paulino, sampaulino sãopaulino. A primeira (são-paulino) é a forma correta de acordo com as normas que se obedecem na grafia dos gentílicos derivados de topônimos compostos (mato-grossense, norte-americano, rio-pardense).

Apesar de esporte eminentemente nacional, o futebol não se livrou ainda de forte influência inglesa. O FC (Futebol Clube) que se propõe a numerosos nomes é vestígio da sintaxe britânica: em português deveria ser Clube de Futebol. O mesmo ocorre com EC (Esporte Clube) que só poderia ser Clube de Esportes ou Clube Esportivo. Aportuguesaram-se em suma as palavras, mas não se aportuguesou a construção.

Para terminar, registre-se que o nome do mais popular clube paulista, o Corinthians, ainda não se submeteu às regras ortográficas vigentes. Conserva aquele ans em desacordo com os preceitos ortográficos. O correto deveria ser Coríntiãs, forma que ninguém tem coragem de usar. Nem este colunista, corintiano da velha guarda, frustrado agora pela décima sexta vez consecutiva.

17th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

Parece um velho tolo em meio a jovens imbecis

 

“Patrulhas Ideológicas”. Essa expressão foi largamente usada nos anos da ditadura militar. Basicamente, era o cerco que intelectuais de esquerda faziam a pessoas ou a atitudes consideradas prejudiciais à causa.

O termo acabou ganhando uma conotação pejorativa. Ou melhor, já nasceu estigmatizado.

Muitos anos depois, voltei a ver uma patrulha – e confesso que gostei. Muito. Não foi propriamente ideológica, mas ética.

O autor deu uma merecida, justa pancada moral no Big Brother, na Globo e, sobretudo, no apresentador Pedro Bial. Bial não é o idiota que parece ser no Big Brother: faz versos, cobriu como jornalista a queda do Muro de Berlim e escreveu uma boa biografia de Roberto Marinho.

Atribuiu-se o texto, que corre a internet, a Luiz Fernando Veríssimo, mas há dúvidas. Poderia ser um daqueles casos em que um artigo ganha a voz rouca das ruas sob uma autoria que não corresponde à realidade.

Coloquemos assim: Veríssimo deveria ter escrito. Ah, ele jamais viu um episódio? Não faz mal. Você não tem que comer carniça para saber que vai se dar mal. Um vídeo de propaganda de 30 segundos do BBB é suficiente para você saber do que se trata.

Penso em Bial, especificamente. Bom jornalista, Mas no Big Brother ele parece um velho tolo no meio de jovens imbecis. É um processo de corrosão de imagem que só encontra parcialmente explicação num salário incrível que ele receba como recompensa pelo papel patético que lhe cabe.

Veríssimo, ou quem quer que seja,  fez bem em escrever o que escreveu. O BBB é ruim para o Brasil. Rebaixa os brasileiros. Quanto maior seu ibope, pior para o país. Significa mais brasileiros na zona escura da ignorância e da frivolidade. Melhor apenas para a Globo, que como notou o autor ganha não só na publicidade como no dinheiro arrecadado com telefonemas. (A perda é em prestígio, mas isso conta pouco para a Globo quando cifrões estão em jogo.)

Maldição eterna ao Big Brother. Vaias em pé para Bial. E palmas para Veríssimo, ou mais ainda para o anônimo redator que disse o que tinha que ser dito.

16th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

 

Hoje é raro eu pegar um livro de papel como aquele

Minha vida toda se deu em torno de livros.

Poucas coisas me fascinaram tanto, na vida, como errar numa livraria. A visão de um mundo de livros sempre me deixou excitado, encantado. Comovido.

Nunca achei caros os livros. Quer dizer. Relativamente. Ria comigo mesmo quando via pessoas que gastam alegremente 100 reais numa refeição reclamarem do preço de um livro.

Como consequência disso, abri um bom espaço em minha casa para uma biblioteca. Regularmente, tinha que me desfazer de dezenas de livros por falta de lugar. Não consegui jamais ter a disciplina que Vargas Llosa afirma ter: a cada novo livro comprado, um é dado.

Gosto de escrever, mas gosto ainda mais de ler.

Mas.

Mas, seis meses depois de haver começado a ler livros digitais, fui conquistado por eles. Um hábito de uma vida inteira se rompeu. Ou se reformou.

Virtualmente, renunciei aos livros de papel. Nunca pensei que isso pudesse acontecer. Mas aconteceu.

Leio no iPad e no iPhone. É muito mais fácil. A iluminação suave da tela evita até que eu tenha que acender um abajur para a leitura. Compro livros com um clique. Tenho acesso a uma literatura gloriosa gratuitamente – as obras caídas em domínio público e digitalizadas por benfeitores da humanidade como os ativistas do Projeto Gutemberg. Foi assim que pude ler a História da Inglaterra, de David Hume, ou a História dos Girondinos, de Lamartine.

Dou preferência, hoje, ao iPhone. Muitos consideram a tela pequena demais, mas não concordo. As letras são de bom tamanho para um míope como eu, e a leveza do aparelho faz toda a diferença. Posso mover as páginas com um simples movimento do polegar da própria mão com a qual seguro o iPhone. (Em breve, assim que aprender a manejá-lo, vou também usar o Kindle que ganhei de minha namorada, Erika-san.)

Com o iPhone, já não preciso carregar um livro por toda parte, para emergências, como uma espera num consultório médico, por exemplo. Levo uma biblioteca no bolso.

Se ainda me tocam as livrarias? Não vou dizer que me tornei indiferente a elas, mas hoje as vejo como quem encontra um amor do passado – com carinho, mas sem que o coração dispare.

15th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

Parecem árabes, mas não são

 

Onde estão aquelas duas mulheres? No Afeganistão? Iraque, talvez? Nas montanhas do Iêmen?

Não.

Elas estão num lugar perto. Ao menos, geograficamente. Em Israel. E estão provocando celeuma. Elas pertencem a um grupo de mulheres ultraortodoxas chamado Mynet. Há não muito tempo, elas decidiram aderir aos véus tão comuns ao universo feminino árabe, para preservar a modéstia e o pudor. O grupo congrega cerca de 300 mulheres, concentradas em Jerusalém.

Israel é essencialmente ocidentalizada nos trajes e nos costumes, e a visão daquelas mulheres cobertas inteiramente por razões de modéstia e pudor – muitas vezes sem sequer um espaço para os olhos – está provocando um debate apaixonado entre os israelenses. (Aqui, um bom artigo da revista alemã Der Spiegel.)

Publicações locais notam o aumento na militâncias dos ultraortodoxos. Recentemente, um caso chocou os israelenses: um homem cuspiu numa menina de menos de dez anos por entender que ela usava um vestido não suficientemente longo.

Alguns comentaristas da mídia de Israel arriscam que a agitação dos radicais é consequência de um sentimento de perda de força e impacto que a internet e as redes sociais teriam trazido para a causa ultraconservadora.

Para mim, o mais interessante no véu das mulheres israelenses está no terreno da simbologia. Elas parecem integradas, espiritualmente, às mulheres árabes, e isso lembra dolorosamente que ali, naquela região, as guerras são travadas entre irmãos que compartilham a mesma história e tradições em muitos casos tão parecidas que, como no caso das mulheres cobertas, você não consegue distingui-las.

14th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

Papai, de gravata, na redação da Folha, em meados da década de 1970

 

Emir Macedo Nogueira, meu pai, uniu suas duas paixões profissionais  – o jornalismo e o magistério — numa coluna de português chamada “A Língua Nossa de Cada Dia”, publicada aos domingos na Folha nos anos 1970. Papai, mestre em português e versado em latim, pegava algum assunto da semana e o debatia à luz da língua com sua prosa límpida, simples, machadiana.

Me pus a reler, outro dia, textos de papai. Foi uma viagem sentimental — e histórica, porque os temas refletem os tempos em que foram escritos. Decidi fazer algo que me devia ter ocorrido já antes: publicar alguns dos textos de papai. A digitalização deles está a cargo de sua neta Camila, minha caçula, que aos 15 anos lembra, na rapidez elegante com que usa todos os dedos no teclado como se estivesse num piano, o avô. Três gerações de Nogueiras estão envolvidas no projeto, e isso me enche de alegria. O primeiro texto fala da cor magenta, no momento em que o Banco Central colocava na praça uma nova cédula de 100 cruzeiros.

Camila e eu

MAGENTA E OUTRAS CORES

 

Vêm aí novas cédulas, uma delas no valor de nada menos de 100 cruzeiros, ou 100 contos, como se dizia nos velhos tempos. De acordo com descrição fornecida pelo Banco Central, a cor predominante nessa valiosa nota será magenta. Muitas pessoas ficaram na mesma. A palavra não consta no Vocabulário oficial e poucos dicionários suprem essa omissão.

 

O vocábulo é no entanto familiar aos que lidam com tintas ou artes gráficas. Magenta é um matiz de vermelho – um vermelho carregado, que se aproxima do roxo; também se dá a mesma denominação a um corante extraído de certos produtos minerais ou vegetais, conforme ensina o dicionário Caldas Aulete. O nome provém de uma cidade italiana, Magenta, na Lombardia, onde se travou a famosa batalha entre franceses e austríacos, em meados do século passado; como o corante foi descoberto por essa época, deu-se-lhe o nome da cidade – uma relação, aliás, difícil de entender hoje em dia.

Essa questão dos nomes de cores tem aspectos ainda singulares. João Ribeiro estudou-os nas suas “Curiosidades Verbais”, onde afirma que, “no homem, o sentimento da cor revela-se gradual, moroso, confuso e contraditório”, e que “os nomes de cores foram sempre incertos e mudáveis”. Há cores “modernas” que os antigos desconheciam. Os nossos índios, por exemplo – lembra João Ribeiro – não diferenciavam o azul do preto, tanto que os designavam por um único nome: una.

 

Roxo já foi sinônimo de vermelho, ou ruivo. Quando se ouve falar em Frederico Barba-Roxa, é claro que não se pode imaginar um homem de barba roxa, tal como vemos hoje essa cor; a referência é à cor ruiva dos pelos de seu rosto. Da mesma forma, já se usou Mar Roxo em relação àquele que hoje conhecemos como Mar Vermelho. Pêro Vaz de Caminha descreveu os nossos índios como pardos (… a feição deles é serem pardos, maneira d’avermelhados…), o que indica que no seu tempo pardo era uma cor próxima do vermelho; hoje está mais próxima do preto.

À medida que se aperfeiçoa o sentido da visão e se desenvolvem as técnicas de combinação entre as cores básicas, novos matizes vão surgindo numa sucessão infindável. A indústria automobilística brasileira encarregou-se de expandir ainda mais essa tendência, criando denominações próprias para as diferentes tonalidades dos carros que fabrica. Os nossos automóveis, observe-se, nunca são, por exemplo, simplesmente vermelhos: são granada (ou grená, aportuguesamento do francês grenat), coral e até cerâmica, nuanças de vermelho que vieram juntar-se a numerosas outras, já usadas há mais templo: encarnado, escarlate, púrpura, bordô, carmesim, etc. Quando não se emprega nome diferente, recorre-se ao da cor fundamental, combinado com outra palavra: verde-garrafa, verde-mar, azul-atlântico, azul-pastel, amarelo-canário, amarelo-ouro.

Já se assinalou também que, curiosamente, o latim, matriz principal de nosso vocabulário, deu origem a relativamente pequeno número de cores (branco é de origem alemã; azul, persa; amarelo, árabe). Modernamente, da mesma forma, continuamos importando nomes desse tipo, especialmente do francês: marrom (aportuguesamento de marron), bege (fr. Beige); bordô, grená, etc. Sem esquecer o italiano magenta, por onde começos e por onde terminamos estas notas. 

14th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

Chávez

 

Estariam os Estados Unidos, de alguma forma sinistra e subreptícia, provocando câncer em líderes latino-americanos?

A questão, levantada – a sério – pelo presidente venezuela Hugo Chávez, dá a ele o prêmio de Pataquada da Semana. (Aqui, um bom artigo da BBC sobre o tema.)

Raras vezes, na história da política moderna, uma tolice tão grande foi dita. Os Estados Unidos são hoje uma força negativa no mundo, com seu militarismo ganancioso e destrutivo tão sinistramente exposto no Oriente Médio, mas daí a tornar cancerosos políticos antipáticos para eles vai uma distância colossal.

Câncer acontece, infelizmente. A possibilidade de que você receba um diagnóstico de câncer ao longo da vida, segundo estudos, é uma para três, caso você seja mulher. Para os homens, é uma para duas. (Em 2000, a descoberta de um tumor no rim esquerdo me colocou, pessoalmente, nessa estatística.) Na faixa dos 50 e 60 anos, caso de todos os líderes da lista de Chávez, as probabilidades são maiores. Só para lembrar: a presidenta argentina, Christina Kirchner, não sofre de câncer, ao contrário das primeiras especulações.

Na América Latina, segundo estatísticas, estão 9% dos casos de câncer do mundo. Nada de extraordinário. É o mesmo percentual da região na população global. A expectativa é que essa taxa suba nas próximas décadas. Primeiro, porque o progresso gera vidas mais longas, e o câncer é uma doença de velhos. Segundo, porque o aumento do poder aquisitivo costuma levar a coisas ruins para a saúde, como a obesidade e uma alimentação matadora.

Por tudo isso, vai para Chávez a Pataquada da Semana.

13th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

Claudio

 

Plutarco escreveu Vidas Paralelas, em que comparava gregos e romanos assemelhados. Demóstenes e Cícero, os grandes oradores, por exemplo. Ou Alexandre e César.

De vez em quando tenho vontade de usar essa lógica para falar de jornalistas que sejam essencialmente parecidos, mas separados por uma ou mais gerações.

Claudio Abramo e Elio Gaspari, para ficar num caso. Claudio morreu com pouco mais de 60 anos, Elio vai chegando aos 70 ainda ativo e influente como colunista – mas consideravelmente distante de sua era de ouro.

Ambos foram generais de redações. Claudio nos anos 60 e 70 na Folha, Elio na década seguinte na Veja. Uniam um talento jornalístico extraordinário a uma dose de carisma igualmente fora da curva. Todos os ouvidos paravam para escutá-los quando falavam. Inspiravam, cada qual de seu modo, admiração em quase todos, adoração em muitos e temor generalizado. Gostavam da adulação que provocavam em seus liderados, expressas em coisas como risadas fortes mesmo em piadas apenas medianas.

Claudio conheci garoto, quando meu pai me levava à Folha. Lembro com nitidez a elegância casual de suas roupas, da gravata sob o colarinho desabotoado, da bengala que lhe dava um ar aristocrático, da voz rascante de quem crescera mandando, de uma mecha grisalha do cabelo cobrindo parte do rosto. Elio era mais plebeu nos trajes, mas tinha o mesmo timbre dominante de Claudio.

Não tinham cultura acadêmica tradicional, mas compensavam isso com uma voracidade notável – e inevitavelmente caótica – por leituras. Cultivavam uma aura esquerdista que lhes caía tão bem quanto um paletó feito pelo melhor alfaiate da cidade. Tinham o instinto da notícia, o senso da hierarquia dos fatos, e isso os levava a distinguir facilmente o que era manchete e o que era uma nota de rodapé – um atributo raro entre os jornalistas.

A formação jornalística de ambos foi diferente. Claudio se educou, como jornalista, no Estado de S. Paulo, nos anos 1950, época de ouro do jornal. Isso seria importante para ele atrair a atenção de Frias quando este decidiu diversificar seus negócios – concentrados basicamente numa granja – e ingressar no glamuroso (ainda que menos rentável) universo da mídia comprando a Folha, no início da década de 1960. Frias era leitor apaixonado do Estadão. A educação jornalística de Elio foi menos politizada. Ele começou ajudando o colunista (e alpinista) social Ibrahim Sued a buscar notas na sociedade carioca. Anos depois, na redação da Veja, Elio se referia com frequência a Ibrahim com carinho nostálgico. Muitas vezes, usava um bordão do colunista social para se despedir dos jornalistas da revista: “Ademan, que eu vou em frente.”

Elio

Muitas das pessoas que trabalharam com eles contam, encantadas, histórias de ambos. Lembro, por exemplo, uma vez em que Elio escreveu uma matéria de capa da Veja de trás para a frente, por razões industriais. As páginas iniciais fechavam antes das últimas. Mas também não esqueço as frases – brilhantes – que Elio criava para diversas situações para que depois repórteres como eu encontrassem gente que topasse passar por autoras delas. Por que o próprio Elio não as assumia é um mistério para mim. Foi assim que acabou atribuída a Joãozinho Trinta a célebre sentença segundo a qual pobre gosta de luxo e intelectual de miséria.

Tinham em comum também o extremo cuidado com que tratavam com os empresários da mídia – um traço menos nobre de suas personalidades. Claudio não aderiu à greve dos jornalistas do final da década de 1970. Mas com certeza se sentiria ultrajado se o chamassem de furagreves, ou de patronal. Provavelmente, para aquietar a consciência, pensava que se fosse à greve seria subsrituído por alguém de “direita”. Tanto zelo não impediria que Frias varresse Claudio da redação da Folha quando o general Hugo Abreu determinou por telefone, no final da década de 1970. (O governo militar ficara irritado com uma crônica do grande Lourenço Diaféria na qual ele dizia que as pessoas faziam xixi na estátua no centro de São Paulo  do patrono do Exército, Duque de Caxias. Lourenço, no texto original, usou o verbo “mijar”. Meu pai o convenceu a trocar por “urinar”.) Elio jamais enfrentaria uma situação parecida: cultivou relações próximas, amigas com potências do regime militar como o presidente Ernesto Geisel e o pai do SNI, general Golbery do Couto e Silva, e com civis influentes como o governador baiano Antônio Carlos Magalhães. (Hoje existe um entendimento de que este tipo de proximidade é nocivo para o leitor. Naqueles dias, considerava-se que isso trazia furos para as publicações.)

Claudio escreveu uma primeira frase primorosa no obituário que fez de Carlos Lacerda, que antes de se dedicar à política foi um grande jornalista. “Ele foi o melhor de todos nós”, disse Claudio. Anos depois, o jornalista Pedro del Picchia, discípulo de Claudio na Folha, utilizaria a mesma frase para falar de seu mestre morto.

Elio  Gaspari também cultivava com esmero os donos das empresas. Uma vez, numa reportagem sobre a Folha feita na revista Vip, Elio foi citado. Ele teria dito que a Folha era como a Roma antiga, “colunas e ruínas”. Ele ligou imediatamente para o diretor de redação da Vip, Marco Rezende, para desmentir a frase e pedir uma correção.  Ouvi também uma vez, numa reunião na Globo,  Roberto Irineu Marinho dizer que Elio lhe fizera um roteiro essencial de um museu de Nova York, o Metropolitan. (Elio foi correspodente em Nova York.) O objetivo era poupar Roberto Irineu de caminhadas a esmo, movidas pela falta de conhecimento. Uma consulta ao Google daria o mesmo resultado, mas o mimo de Elio agradou fortemente o presidente da Globo.

Claudio e Elio pareciam ter um olho nos empresários da mídia e outro nos leitores. Mas esse olho único que ambos possuíam para o jornalista em si, para a essência da notícia, era tão forte, tão brilhante que os fez serem o que foram nas redações —  dois semideuses.

12th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

 

 

O que leva a Globo a ser tão detestada?

Vi o vídeo acima no Facebook, e ele é expressivo. Mesmo numa manifestação que não tenha o dedo do PT e dos petistas, a Globo provoca repulsa. E isso quando o repórter que a representa tem a estatura e o relativo prestígio de Caco Barcellos.

O problema está no passado. Roberto Marinho, o homem que fez a Globo ser o que é, adquiriu uma imagem poderosa  de aproveitador. Na percepção generalizada, o regime militar favoreceu Roberto Marinho – a começar pela concessão que permitiu a criação da TV Globo —  e recebeu em troca um copioso apoio editorial.

A rejeição à Globo se origina nisso – e diversos esforços feitos sobretudo depois da morte de Roberto Marinho fracassaram no objetivo de melhorar a imagem da Globo.

É um paradoxo que, sendo tão odiada, a Globo seja tão vista – ainda que sua audiência, na Era Digital, venha minguando. (Uma reportagem da Folha mostrou que,  desde o começo das medições, jamais foi tão baixo o público da Globo como em 2011.) O virtual monopólio da Globo como que forçou o espectador a sintonizar nela em muitas ocasiões, ainda que tapando o nariz. No futebol, por exemplo.

Que a audiência não se traduziu em prestígio fica claro quando se vê a influência da Globo sobre os eleitores. A má vontade da Globo em relação à Lula e à Dilma – o diretor do telejornalismo Ali Kamel, um  dos “aloprados” da emissora, é fanaticamente antipetista, bem como comentaristas como Merval Pereira e Arnaldo Jabor, para não falar no âncora William Waack – não impediu que o PT vencesse as últimas eleições presidenciais.

A Globo, indiretamente, sempre se beneficiou da brutal inépcia dos concorrentes na televisão quer em conteúdo, quer em gestão. É uma aberração que a Record, movida pelo dinheiro fácil extraído dos crédulos, simplesmente copie a Globo em vez de fazer coisa nova e superior. Se inovasse, em vez de imitar, a Record atalharia a disputa pela liderança, ajudada pelo cansaço da programação da Globo, expressa em programas como o Fantástico. Mas os bispos parecem muito entretidos com seus sermões caça-níqueis para ver a programação de emissoras como a BBC, de onde poderia ver a inspiração para um salto de qualidade.

A falta de opções do telespectador ajudou a Globo a seguir adiante mesmo atraindo tanto ódio. Mas agora a festa tende a acabar por causa da internet. Se a concorrência não oferece alternativa, a internet dá às pessoas  possibilidades infinitas de se livrar da Globo.

Para a Globo, ontem foi melhor que hoje e hoje vai ser melhor que amanhã. No futuro, as pessoas tentarão explicar como uma emissora tão antipatizada pôde ter a audiência que um dia teve.

11th janeiro
2012
written by Paulo Nogueira

A moeda de dois euros da Grécia: parece, mas não é

 

 O texto abaixo foi publicado na revista Exame.

Um jornalista francês, no calor caótico e anárquico dos primórdios da Revolução de 1789, descreveu o desgoverno que tomou conta da França quando, isolado o rei Luís 16 em Versalhes, o poder se fragmentou quase que infinitamente. Nas reuniões dos novos líderes, segundo ele, a impressão que se tinha era a de que ali, naquele grupo, estava uma pessoa cuja perna direita queria ir para um lado e a esquerda para o outro, cuja boca desejava falar mas cujos olhos exigiam repouso.

É mais ou menos este o cenário com que a Europa entra em 2012. No apogeu de uma crise econômica épica, em que o euro corre sério risco de vida,  a Europa vê seus  líderes confabulando freneticamente – mas com divergências que transparecem até nos sorrisos plásticos com que eles se apresentam diante dos fotógrafos.  Já se fala nas mais variadas línguas da região, como aconteceu no Brasil dos anos 1980, numa “Década Perdida” para a Europa. Suas três principais potências – Alemanha, Reino Unido e França –  parecem, reunidas,  aquela pessoa imaginária criada pelo jornalista francês no passado revolucionário francês. Cada qual quer fazer uma coisa que não combinada em nada com o que os demais pretendem.

Merkel e Sarcozy, ou Merkozy, como os jornais os têm chamado, estão sempre juntos. Mas isso não significa que as coisas estejam bem entre os dois. Não é à toa que o sobrenome de Merkel aparece na frente no apelido da dupla. Em tempos duros, fala mais alto quem tem mais dinheiro –  e, neste caso, é Merkel. A Alemanha é a maior economia européia e, provavelmente, também a mais ajustada aos novos tempos. Os alemães têm um modelo econômico que guarda grandes similaridade com a fórmula vitoriosa chinesa: o país não se desindustralizou nas últimas décadas, ao contrário da maior parte das potências ocidentais,  e tem um formidável superávit comercial.

Não bastasse isso, a Alemanha tem uma disciplina exemplar. O fantasma da superinflação dos anos 1920 está vivo na memória alemã. Em pouco tempo, naqueles dias, o mesmo dólar que valia 10 marcos passou a ser cotado na casa dos trilhões. Uma das consequências desse descalabro é que as portas acabaram se escancarando para a demagogia nacionalista e racista de Hitler. Merkel, no apogeu de sua estampa maternal aos 57 anos, resistiu germanicamente a todas as pressões para que a Alemanha abrisse os cofres para socorrer os países em apuros. Por isso, passou a ser chamada de Fraulein Nein – Senhora Não.

Uma análise favorável do atual quadro é que o novo tratado europeu empurra todos os países rumo às mesmas virtudes econômicas da Alemanha. Para a Europa, é sem dúvida melhor parecer no conjunto com a Alemanha do que com a Grécia ou Portugal. Mas, no lado menos brilhante das coisas, também os outros países têm o seu fantasma – a Alemanha. Desde a era dos bárbaros, os alemães têm, de tempos em tempos, mostrado aos vizinhos um apetite voraz por brigar, conquistar e dominar.

Hitler foi a última manifestação desse apetite, mas não a única, definitivamente, ao longo da história. O incômodo dos franceses com o predomínio de Merkel na parceria Merkozy pode se traduzir na derrota de Sarkozy nas eleições presidenciais de 2012. Um comercial da Renault que está no ar mostra o estado de espírito do francês médio.  Ironicamente, a narração é acompanhada de legenda em alemão. Se o euro sobrevive ou não está em aberto. Nas casas de apostas londrinas, tem crescido o número de gente que arrisca que não.

Criado em 2002, o euro já nasceu com estranhezas. Foi acordado que as moedas teriam numa face um mapa da Europa e, no outro, algo que fosse da escolha de cada país. A Grécia, por exemplo, optou, nas moedas de um e dois euros, por colocar um touro e uma jovem. “Parece que é uma ode à harmonia entre homens e animais”, diz Mary Beard, professora de Assuntos Clássicos em Cambridge. “Mas na verdade é um rapto – Zeus, o Rei dos Deuses, transformado em touro voador, roubando a Princesa Europa, aterrorizada, de sua cidade natal.” A escolha grega parece não fazer muito sentido – assim como muitas outras coisas numa moeda que amanhece em 2012 sem que ninguém saiba se chega a 2013.

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