Ex Machina, um forte concorrente ao Oscar de melhor roteiro original. Por Luísa Gadelha

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“Podem as máquinas pensar?”, pergunta-se o cientista computacional Alan Turing no seu artigo Computing Machinery and Intelligence, publicado na década de 1950. Para Turing, a questão é irrelevante: o mais importante seria nos perguntarmos se uma máquina poderia jogar o jogo da imitação, isto é, se ela poderia se passar por uma pessoa, a ponto de ser impossível distingui-la de um ser humano. Essa questão ficou conhecida como “Teste de Turing”.

Alan Turing é bastante conhecido pelos pesquisadores da área de computação, mas obteve projeção internacional no aclamado filme O Jogo da Imitação, que concorreu ao Oscar ano passado.

Ex Machina: Instinto Artificial, filme que está concorrendo ao Oscar de melhor roteiro original, é um thriller de ficção científica que traz em seu cerne o Teste de Turing. Nathan (Oscar Isaac), um jovem programador que enriqueceu criando um mecanismo de busca no estilo Google e vive isolado em sua mansão, conseguiu criar uma inteligência artificial, a qual chamou de Ava – uma referência a Eva, a primeira humana na mitologia cristã.

Ava, na excelente interpretação de Alicia Vinkander (que também está em A Garota Dinamarquesa, com mais uma atuação fenomenal, e indicada ao Oscar de melhor atriz), possui aparência e voz humanas. Para criar suas expressões, Nathan utilizou o banco de dados de seus clientes. Nada que o Google ou o Facebook não façam atualmente.

Para testar a ‘humanidade’ de Ava, Nathan contrata um jovem programador de sua empresa. Rapaz frágil, tímido e solitário, Caleb (Domhnall Gleeson) vai para a residência de Nathan com o intuito de lá passar uma semana, e ter sessões de conversação com Ava. Ao final, Caleb deve decidir se Ava foi ou não aprovada no Teste de Turing, isto é, se podemos ou não perceber que ela é uma máquina.

Na primeira sessão, já somos atraídos pelo jeito sensível de Ava, sua maneira de conversar, de devolver perguntas a Caleb, e uma tristeza inerente, uma aparência melancólica. Ava manifesta o interesse de sair, de conhecer o mundo, as pessoas, e lamenta estar eternamente presa a um quarto.

É um pulo para o flerte: Caleb, apesar de preparado para testar Ava, sente-se fisgado por sua amargura. E pergunta a Nathan, numa das cenas mais interessantes do filme, por que ele deu sexualidade à sua máquina. Nathan responde que, sendo a sexualidade um aspecto da natureza humana, programou-a assim, afinal seria estranho interagirmos com um bloco de cimento. Além do mais, responde Nathan, nossa natureza sexual também é ‘programada’ – ou Caleb escolheu ser heterossexual?

No pingue-pongue entre Nathan e Ava, nos perguntamos se Caleb está sendo manipulado – e por quem. Será que Ava realmente tem sentimentos por Caleb? Ou ela apenas finge gostar dele para atingir seus objetivos de escapar? Ela é um ser consciente?

Na parede de sua sala de estar, Nathan estampa uma tela de Pollock, a qual compara à inteligência artificial: o quadro parece ter sido pintado de maneira impulsiva, irracional, aleatória. Mas cada pingo, cada ponto, significa algo. Seria assim a natureza de Ava?

Uma outra questão abordada no filme, ainda que sutilmente, é a violência contra a mulher: a maneira com que Nathan trata suas ‘crias’, ainda que não humanas, feitas para satisfazê-lo. Como Caleb diz, uma “assistente gostosa” para o gênio da programação.

Ex Machina é dirigido por Alex Garland – do ótimo Extermínio – e não nos parece nem um pouco futurista. A inteligência artificial, apesar de estar longe de chegar a imitar humanos, já é realidade em alguns aspectos. A manipulação e venda de dados por grandes empresas, que mapeiam nossas ações e preferências virtuais, também já ocorre. Como corre um ditado na internet: “quando você não paga por um serviço, o produto é você”.