8 cantoras negras para parar de falar em Mallu Magalhães. Por Nathalí Macedo

As definições de vergonha alheia foram atualizadas quando vi – cadê o botão desver? – o vídeo de Mallu Magalhães no Encontro com Fátima Bernardes apresentando seu novo single, “Você não presta” (simbólico, hein).

O clipe do single em questão foi julgado e condenado pelo tribunal racial (e pelo Tribunal do Facebook, como diria Tom Zé). Pudera: Mallu, branquinha, toda coberta (quase uma sinhá europeia), e corpos negros de bailarinas e bailarinos descobertos e sexualizados – em resumo, bundas negras servindo de enfeite e a bundinha branca de Mallu bem guardada em roupas elegantes.

Bundas descobertas não fazem mal a ninguém, inclusive adoro. Acontece que é difícil ignorar que bundas negras são sexualizadas e bundas brancas são canonizadas desde o Brasil Império.

Como se não bastasse, a moça, revoltada com o racismo contra brancos que claramente impera no Brasil, disse corajosamente no programa – com a voz trêmula, fazendo de tudo pra não perder o tempo no violão (conseguiu, parabéns) – que dedicaria a música a “quem é preconceituoso e acha que branco não pode tocar samba.”

Os convidados do programa ficaram estupefatos e disfarçaram mal. Fátima fez cara de paisagem, coitada. Os expectadores ficaram estupefatos com o micão. E eu fiquei estupefata com o fato de a música apresentada ser considerada (por quem?) um samba.

O fato é que há três dias a internet fala nisso e a conta bancária de Mallu só cresce.

Pensei que ao menos o espaço nesta coluna não deveria ser de Mallu Magalhães, nem do clipe bonitinho autoplagiado, nem do samba que meio que não é samba, basicamente porque existem coisas mais importantes para serem ditas (e ouvidas, sobretudo): mulheres pretas talentosas, por exemplo.

1. MC Carol – é a terceira vez que MC Carol aparece em uma lista de mulheres sensacionais feita por mim. Desculpem por isso, mas fica difícil fazer uma lista de mulheres sensacionais e não lembrar de MC Carol logo no primeiro ponto. Se a lista for de mulheres pretas sensacionais, fica impossível.

Se ser mulher já é, por si, uma tarefa complexa, penso no quão difícil deve ser ser mulher na periferia. Ela é mulher, preta, gorda, pobre, teve a infância roubada. Conta que ser pesada sempre foi uma vantagem, porque a ajudava a se proteger da opressão masculina. O rap de MC Carol também não é leve, e nem poderia: tem violência, drogas, sexo e muita resistência. Recomendo “Delação”, a música que traduz o cenário político brasileiro atual.

2. Karol Conka – Era uma vez uma mulher preta e talentosa que trabalhou muito até ver a sua música – e, com ela, a representatividade da mulher negra – fazendo sucesso. Conseguiu ainda um pouco mais do que isso: Agora é apresentadora de um programa de bom gosto em um canal fechado finesse. A branquitude, definitivamente, pira. Como se não bastasse tudo isso para sacramentar a majestade de Karol Conka, ela lançou recentemente o ousado clipe “Lala”, um ode à liberdade sexual feminina. O clipe colorido e bonitinho é, na verdade, um recado claro: as mulheres querem – e podem – gozar.

3. Elza Soares – Ela é só o símbolo da resistência da mulher preta na música brasileira e lançou recentemente o maior hino feminista do século (até agora). Você pode substituir a polêmica de Mallu Magalhães por assistir repetidamente o clipe de “Maria da Vila Matilde”, por exemplo.

4. Larissa Luz – “Quero acontecer sem ter que dizer: Ei! É o meu sexo! Quem disse que é pra você?” Foi com esse recado que a cantora baiana subiu no trio no bloco “Respeite as Minas”, o primeiro bloco feminista em Salvador (2017). E todo mundo entendeu. Eu sei porque eu tava lá e nunca vi tantas mulheres livres dançando no carnaval sem serem importunadas. Larissa Luz é ex-vocalista do Araketu, mas está bem melhor como expoente da representatividade feminina e negra na música baiana.

5. Josy Ara – ainda na Bahia – porque, uma vez aqui, é difícil sair – é preciso falar de Josy Ara, cantora baiana de Juazeiro – BA que tem um sotaque-abraço. Ela lançou o CD autoral Uni’versos, que certamente vale mais a pena do que ver Mallu pagando micão no programa de Fátima Bernardes.

6. Margareth Menezes – Em terra de Ivetes e Milks, a cantora de axé mais tradicional da Bahia, às vezes, acaba esquecida: Margareth é baiana de outros carnavais e pioneira em temáticas que contrariam a intolerância às religiões de matriz africana.

7. Iza – É comum a associação imediata da cantora Iza ao sucesso emplacado na trilha de “Rocky Story”, mas há muitas outras coisas pra se dizer sobre ela: ela já cantou na igreja (quem nunca, né), ficou conhecida no YouTube com covers de músicas pop e não esconde o objetivo de embutir a representatividade feminina e negra em suas músicas, clipes e figurinos.

8. Luedji Luna – Duvido que depois de ouvir “Um corpo no Mundo” na voz de Luedji Luna – que, por sinal, parece um carinho – você ainda se lembre da voz estridente de Mallu Magalhães – quanto a ela, às vezes não sei se está cantando ou sofrendo de dor de barriga, mas no peito dos desafinados também bate um coração, disse Vinícius.

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