A arte de viver e de morrer: em memória de César Augusto Ferreira (1936-2013)

Um homem extraordinário
Um homem extraordinário

Num de seus melhores ensaios, Montaigne dizia que nada mostra tão claramente a estatura de um homem quanto sua atitude diante da morte.

Ele citava os casos clássicos de Sócrates e Sêneca, que morreram consolando seus discípulos desesperados.

Montaigne falava também de um filósofo que, perguntado sobre como ele achava que seria visto pela posteridade, respondeu: “Não sei. Vai depender de como eu me comportar na morte.”

Escrevi isso porque raras vezes em minha vida vi uma demonstração tão notável de força diante da morte como no caso do avô de meus filhos, César Augusto Ferreira. César morreu hoje. Segundo a métrica montaigniana, não poderia haver homem maior que ele.

Meus filhos Emir, Pedro e Camila estão, evidentemente, em pedaços. César, desde que se aposentou há 30 anos, se dedicou entusiasmadamente a ser avô.

Simples, modesto, discreto, não havia para ele alegria maior do que estar na companhia dos netos. Nunca o vi gritar com nenhum dos três. Na verdade, nunca o vi dizer não a eles. Ele conseguiu o milagre de fazer isso – não dizer não aos três – sem estragá-los.

Sêneca disse que rico é aquele a quem pouco basta. Sob essa ótica, César foi um bilionário. Bastavam-lhe os netos, a filha Luiza, a mulher Gê e tantos amigos, entre os quais me incluo com orgulho.

Meus filhos, tão tristes hoje, com o tempo irão entender o legado precioso de seu avô. César viveu plenamente. Enquanto pôde, fez todas as coisas que quis, como jogar pôquer, ler romances policiais e comer feijoadas preparadas com incrível capricho em seu prato.

Enterrou o pai, enterrou a mãe, enterrou a irmã mais nova, e sempre se reergueu para seguir adiante e extrair de cada dia a maior dose possível de alegria.

É um legado que haverá de inspirar meus filhos.

Soube viver e, mais ainda, soube morrer. Diagnosticado com câncer de pâncreas, dizia, a cada exame, que ia verificar seu ‘prazo de validade’.

A quimioterapia lhe caiu bem, e isso lhe deu uma sobrevida maior que a habitual em casos de câncer de pâncreas.

Mas a radioterapia, depois de um ano, o derrubou – não moralmente, porque mostrou ser inexpugnável, mas fisicamente.

Logo começou a apagar. Sabia o que estava acontecendo com ele, e jamais se queixou, e jamais se revoltou. Resignou-se como um filósofo, como um sábio, como um homem superior segundo Montaigne. Olhou a morte nos olhos, com bravura.

Deixou no Facebook — sim, septuagenário foi conviver com os netos e os amigos também ali — a seguinte mensagem, só encontrada agora por uma amiga que fez no fim da vida, Erika. “Quando você está no coração dos seus, não existe morte”.

Disse, aos netos, que queria ser enterrado como viveu: camiseta, bermuda e havaiana. E uma cueca samba canção. Tinha dito a Erika, antes da doença, que gostaria que pusessem em seu bolso, no caixão, um isqueiro e um maço de cigarros, para o caso de haver possibilidade de fumar do lado de lá.

Tudo isso foi amorosamente atendido.

Pediu, ontem, um padre para a extrema unção. “Está demorando para eu morrer”, disse ele. “É que deve estar havendo uma fila no céu”, respondeu o padre.

Não acredito em céu, não acredito em nada, mas bem que César merecia um lugar no céu.

Agradeço a ele o exemplo extraordinário que  legou a meus três filhos, algo que os acompanhará nos correr dos longos dias sobre essa terra tão dura.

E agradeço, também, o exemplo que ele legou a mim, que tive a sorte de ver meu caminho cruzar num certo dia, e por tanto tempo, com um gigante moral como ele.