A cidade que matou o nazismo

Na Batalha de Stalingrado Hitler começou a desmoronar, e Drummond reconheceu isso num poema pungente.

O nazismo começou a morrer em Stalingrado

O nazismo começou a morrer em Stalingrado

E eis que a vitória russa sobre os alemães em Stalingrado completa 70 anos.

Hitler foi batido ali.

Os nazistas jamais se recuperaram da Batalha de Stalingrado, uma das mais sanguinolentas na história militar. Foram 2 milhões de mortos. A aura de invencibilidade alemã, tão vital no início da II Guerra,  perdeu-se em Stalingrado.

Churchill e os ingleses ofereceram resistência épica aos nazistas, mas quem os derrotou foram os russos.

No Brasil, o poeta Carlos Drummond de Andrade dedicou um poema à cidade que dobrou os joelhos do nazismo, chamado Carta a Estalingrado. 

O Diário se orgulha de publicá-lo, em memória dos que tombaram para que a humanidade se livrasse do nazismo.

 

CARTA A STALINGRADO

Stalingrado…
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.

Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!

A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.

[*] Extraído do livro A Rosa do Povo (poemas escritos entre 1943 e 1945). Rio de Janeiro: Record, 1987

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Cultura & EntretenimentoHistória
Paulo Nogueira

O jornalista Paulo Nogueira é fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do Mundo.
  • Clovis Pacheco Filho

    Foi, de fato, o ponto de virada dos acontecimentos. De lá em diante o Adolf começou a cambalear.

  • GELSON NETTO

    Belíssima lembrança!

    Para mim, hoje em dia, é impossível deixar de acompanhar o DCM. A melhor referência brasileira na Internet de jornalismo, cultura e pensamento crítico.

    Parabéns a todos!

    Abração…

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      Grato, GN!

  • Mauricio Andreoli

    PN,
    O esforço de milícias civis no intuito de conter o avanço nazista é algo espantoso, mas ao mesmo tempo admirável e digno de respeito.
    Há relatos de milícias femininas sem treinamento militar utilizando baterias antiaereas na tentativa de frear a quarta divisão Panzer (tanques) e de operários tripulando tanques que acabavam de produzir.
    De uma maneira intrigante, Hitler desprezou concentrar as ações para derrubar Moscou, o que era mais factível, para desviar a ação para Stlingrado, onde havia petróleo e fábricas bélicas, mas uma resistência altamente feroz, pois Stálin decretou a famosa ordem “Nenhum passo para trás” na qual quem desertasse seria executado.
    Acho que ele não imaginava o quanto o ser humano pode ser selvagem quando não há mais esperança.
    Abs.

  • Junin Marques

    Como era grande a ganancia Alemã, inegável que a Alemanha na época tinha o melhor exercito, melhores armas etc, a Russia derrubou Alexandre, derrubou Napoleão, e ali foi onde Adolf começou sua derrocada. Os alemães pretendiam ser rápidos na tomada de Stalingrado, mais a resistência Russa foi precisa a distancia para obtenção de suprimentos, e o rigorosíssimo. Hitler teve a batalha na mão, mais fatores geográficos e climáticos foram determinantes para a virada, os alemães enfraqueceram e recuaram, e os Russos partiram para Berlin.

    • Clovis Pacheco Filho

      Que Alexandre a Rússia derrubou?

  • André Borges Lopes

    “As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio. Débeis em face do teu pavoroso poder, mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados, as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta, aprendem contigo o gesto de fogo.”

    A bela Paris nunca tomou tamanho tapa na cara de um brasileiro.

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      Merecido, aliás, ABL …

      • Clovis Pacheco Filho

        Tapa na cara Paris levou em 1940, quando os nazistas entraram lá e desfilaram sob o Arco do Triunfo, apesar de Franca estar melhor armada que os alemães…
        Não fosse o general Charles de Gaulle… coberto de razão, mas desouvido pelo stablishment!
        O resto é só decorrência!

  • Paulo

    Segundo Napoleão, História é um monte de mentiras nas quais as pessoas concordaram.
    Oliver Stone na sua excelente série “Untold History of the United States” fala que foram os russos que venceram a 2ª Grande Guerra. Na batalha e Stalingrado dos 3 milhões de soldados nazistas, apenas 9 mil retornaram à Alemanha após o fim da Guerra.
    Enquanto os americanos e ingleses lutavam contra duas dezenas de divisões alemães, os soviético enfrentaram centenas de divisões.
    Mais interessante é como Oliver Stone mostra que Truman partiu para o belicismo que vemos hoje.
    Em outro capítulo, Oliver Stone mostra o rascunho do acordo que Churchill propôs a Stalin. Stalin guardou o papel onde Churchill dividiu a Europa entre o Império Britânico e a União Soviética. Está lá escrito com a caligrafia de Churchill.

    • Elvys

      Esse rascunho o próprio Churchill fala em seu livro “Memórias da Segunda Guerra”

  • Mauricio Freitas

    Além desse povo guerreiro e unidos., o exército alemão sucumbiu-se aà fome e ao frio.

  • Luís Fernando

    Importante frisar que não foram os russos. Foram os SOVIÉTICOS.

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