A falta de sentido de Marina e das “celebridades” na reação à extinção da Renca na Amazônia. Por Bruno Verson

POR BRUNO VERSON, jornalista com passagens por Estadão, Folha, iG, O Globo e Abril. Atualmente cursa mestrado na área de Ciências Ambientais na Universidade Federal de São Carlos.

Até agora a extinção da Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca) faz menos sentido que a reação das celebridades-ambientalistas.

Ou, para ficar num exemplo mais claro, faz menos sentido que uma ex-ministra do meio ambiente chamar a Renca de “reserva ambiental”.

Renca nunca foi e nem vai ser uma “Reserva Ambiental”. Primeiro porque o termo não se refere a uma Unidade de Conservação nos termos da lei 9.985/2000, que cria o Sistema Nacional de Unidade de Conservação (SNUC).

Segundo, a história da criação da Reserva em 1984 não tem nada a ver com a “mãe terra” ou “sustentabilidade” ou qualquer outro termo usado pelas celebridades para fazer média nas redes sociais.

A Renca foi criada no final do governo Figueiredo para garantir a exploração dos recursos minerais da área pela União via Vale do Rio Doce.

Naquele tempo, “proteger a mãe terra”, como definiu a modelo Gisele Bündchen ao cobrar compromisso de Temer, não fazia o menor sentido. Os militares queriam apenas garantir que apenas eles teriam acesso a enorme quantidade de metais como ouro, cobre e titânio que há na área.

O que não fecha nessa história toda é o motivo da grita, se a extinção da Renca representa a possibilidade de mineração de uma pequena faixa de terra perdida entre Unidades de Conservação que proíbem até a entrada de turistas (imaginem de mineradoras).

Explico: entre 1984 e hoje, foram instituídas 6 Unidades de Conservação dentro da área da Renca. Quatro dessas Unidades são de Uso Sustentável e outras duas de Proteção Integral, além de duas Terras Indígenas.

Do jeito em que as leis estão hoje, na teoria, é possível explorar mineração nas quatro áreas de Uso Sustentável e nas duas Terras Indígenas. Mas isso na teoria.

Na prática, uma das UCs proíbe em seu plano de manejo a mineração; outra permite, mas numa área muito restrita. E outras duas não tem plano de manejo, o que inviabiliza praticamente tudo. De estudos sobre fauna e flora, passando por turismo e mineração.

Ainda sim, se aprovado um coeficiente legal para exploração de minério em Terras Indígenas, que a lei prevê possível mas ainda não é regulamentado, menos 20% da Renca podem ser explorados por mineração.

Ou o governo Temer extinguiu Renca após uma promessa a investidores numa feira de Mineração no Canadá, como admitiu o Ministério de Minas e Energia, e acabou criando um monstro interno as custas de se jactar para gringos.

E as reações da celebridades-ambientalistas são desproporcionais. Ou Temer planeja alterar a lei que regulamenta as Unidades de Conservação e as Terras Indígenas.

No primeiro caso o governo foi tolo. Tentou uma medida simpática ao mercado, mas que não trará resultados a menos que ele revogue todo o sistema de leis ambientais do País. Na segunda hipótese, as celebridades-ambientalistas deveriam guardar chumbo.

Acabar com as Unidades de Conservação; ou apenas flexibilizar suas regras, significa terra arrasada de norte a sul do país. Unidades de Conservação não protegem só a Amazônia ou a Mata Atlântica. Muitas delas são áreas de mananciais, vida silvestre, paisagens naturais de rara beleza. Mangues, e sistemas costeiros inteiros.

Nos dois casos, Marina Silva perdeu a viagem mais uma vez. Se comportou como celebridade-ambientalista e colocou uma Reserva Nacional no mesmo patamar das Unidades de Conservação. No dever de alertar que o fim da Renca pode significar o afrouxamento ou fim das políticas ambientais no País, preferiu os flashs e holofotes.