A França quer um ombudsman para internet. Por José Eduardo Mendonça

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Logo depois de Facebook e Twitter afirmarem que não vão ajudar o presidente eleito a criar um registro de muçulmanos, Google, Apple e até mesmo Uber disseram que não vão colaborar com tal esforço.

“Em relação à hipotese de um dia sermos requisitados, não fomos perguntados, não faríamos e estamos felizes pelo fato que, pelo que ouvimos, a proposta não está em questão”,  disse na sexta-feira um porta-voz do Google.

Um porta-voz da Apple também notou que a empresa “pensa que as pessoas devem ser tratadas da mesma maneira, não importa como veneram, como se parecem, e a quem amam. Não fomos perguntados e nos oporíamos”.

No dia 4 de dezembro, o site de notícias Intercept, baseado nos EUA, informou que dos nove mais importantes gigantes da tecnologia, incluindo Facebook, Apple e Google, apenas o Twitter declinara.

Quase dez dias depois, o Facebook quebrou o silêncio e disse que não colaboraria. “Ninguém nos perguntou, e é claro que não faríamos”.

A resposta da Microsoft foi: ” Não vamos falar de hipóteses neste momento. Nos opomos à discriminação e não faríamos qualquer trabalho para registrar muçulmanos americanos”, afirmou o diretor de relações públicas da companhias, informa o Indian Express.

Notícias falsas: Facebook foca no “pior do pior”

Um sujeito entra uma pizzaria com um rifle automático para “investigar” uma teoria da conspiração descoberta na internet, segundo a qual haveria ali uma rede de prostituição de crianças. Uma desgraça poderia ter ocorrido. E, obviamente o gesto deixou muita gente alarmada.

Um novo estudo do Pew Research Center mostra que 2 entre 3 adultos americanos dizem que histórias fabricadas causam “grande confusão sobre os fatos básicos de temas e eventos correntes.”  A sensação é partilhada por diferentes níveis de renda, escolaridade, filiação política e muitas outras características demográficas.

Recentemente, o papa Francisco comparou o consumo de notícias falsas ao ato de comer excremento.  (Uma matéria muito disseminada dissera que ele apoiava Donald Trump para presidente.) Obama também falou dos perigos: “Há um envenenamento do discurso político quando há tanta desinformação ativa e ela é bem apresentada”.

O Facebook, que inicialmente relutou em entrar na questão, disse estar agora focando seus esforços “no pior do pior”, segundo seu vice-presidente Adam Mosseri informou ao Washington Post.

Estes esforços incluem o teste de meios para usuários denunciarem o que suspeitam sejam falsas notícias e trabalhar com a Rede Internacional de Checagem de Fatos do Instituto Poynter para dar a usuários informações verificadas sobre matérias controvertidas.

A ideia é desacelerar a disseminação de notícias falsas sem transformar o Facebook em um censor mundial.

É um começo promissor, dado o papel do Facebook como fornecedor de notícias falsas a seus quase 2 bilhões de usuários.

E certamente bate uma das ideias surgidas da pesquisa da Pew – de que o governo ou políticos deveriam estar envolvidos no esforço. Os respondentes deram igual peso a eles que as empresas de tecnologia no caso de a quem caberia interferir.

Péssima ideia. Iria colocar a questão do que constitui notícias reais ou falsas nas mãos daqueles que podem ser mais afetados por elas. Pior ainda, com o hábito de Trump de espalhar mentiras regularmente.

França quer ombudsman para internet

A França considera nomear um ombudsman oficial de internet para regular queixa sobre material na rede, impedir censura excessiva e preservar a liberdade de opinião.

Foi apresentado ao senado francês na semana passada um “procedimento de avaliação de qualificação de conteúdo” e a iniciativa foi debatida em encontro de alto nível no qual estavam presentes senadores, juízes e responsáveis por políticas de Google e Twitter.

O objetivo, diz o Guardian, é fornecer um procedimento simples para empresas que operam online e não estão certas de suas responsabilidades legais, e impedir a remoção excessiva ou a censura de material meramente por ser objeto de uma queixa. Isto poderá ser copiado por outras jurisdições européias.

Dan Shefets, advogado dinamarquês que trabalha em Paris, acredita que um ombudsman na internet ajudaria empresas menores que não têm grandes departamentos legais a avaliar o risco do material que colocam online. “Isto as ajudará a competir com as grandes, que já tem enormes departamentos legais e acesso a advogados, sem qualquer dificuldade financeira”, explicou.

“Se não criarmos alguma espécie de mecanismo que proteja a liberdade de opinião e ao mesmo tempo aumente a responsabilidade, vai ser fácil demais justificar regimes repressivos”, afirmou.