A grandeza do Ira e o valor do esforço

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A Virada Cultural, com seu gigantismo, sempre oferece mais do que se pode aproveitar. Havia muita coisa boa, de Caetano Veloso a Jards Macalé, de Lô Borges a Emicida, de Nando Reis a GumBoot. Mas você tem que fazer opções.

Minha opção era obvia: Ira fazendo o álbum “Mudança de Comportamento” no mesmo molde que Sá, Rodrix & Guarabyra fizeram “Passado, Presente e Futuro” na primeira edição do evento, no mesmo palco do Teatro Municipal.

O Ira significa duas coisas para mim: uma que, embora eu não goste de idolatria, é o algo mais próximo de um ídolo da adolescência. Outra, e mais importante, significa ouvir com meu avô a música que, se não estou enganado, ele simplesmente tolerava e fingia que gostava.

Se o Ira não teve a mesma sorte de outras bandas e artistas no mainstream, seu cult é provavelmente o maior de todos. A intensidade dos fãs é gigantesca, algo que eu nunca vi com Los Hermanos, tidos normalmente como o maior cult do Brasil.

Me deixou feliz ver o Nasi magro novamente. Também gostei de ver os caras animados com várias músicas que eles provavelmente nunca tocaram ao vivo, aquelas do lado B.

O que de novidade me ocorreu, ouvindo o álbum agora adulto, foi o quanto aqueles caras eram esforçados, e o quanto foram recompensados por isso.

Não é, ou não parece ser, uma banda de talentos natos. Não tem um gênio da poesia como o Renato Russo, nem um cantor fantástico como o Ney Matogrosso, nem nada. O mais próximo de alguém genial é o Edgard Scandurra como guitarrista, e é muito mais pela transcendência do que por uma grande habilidade.

Mesmo assim, você pode ver o Scandurra juntando acorde com acorde, palavrinha com palavrinha, tentando fazer algum sentido. E fazendo. E muito.

O Ira é o estandarte do esforço, e talvez venha daí a minha admiração tamanha. Esforço é o talento que eu nunca tive.

E então veio o bis. Nós transformamos o corredor do Teatro Municipal em pista. Eu curti, como fã, como não fazia há anos. E voltamos para casa a espera de mais uma segunda-feira.