A liberdade de imprensa segundo 13 policiais: o relato de um fotógrafo espancado

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O fotógrafo Boechat dialoga com os PMs (foto de Gabriela Batista)

Um aumento de 172% nos casos de agressões, censura judicial e até assassinatos contra jornalistas é o que acusa o relatório para a Liberdade de Imprensa 2012-2013 da Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão). O período mensurado vai de outubro de 2012 a setembro de 2013.

Evidentemente as manifestações têm muito a ver com isso e o despreparo da polícia está registrado em centenas de vídeos na internet, com seus abusos de autoridade quase sempre acompanhados de agressão física contra repórteres, fotógrafos e cinegrafistas. Já entramos portanto no próximo período e outubro dá mostras que o relatório 2013-2014 poderá não ser muito animador.

Yan Boechat é mais um que engordará a estatística ainda a ser retratada. Parceiro de rua desde junho, encontrei Boechat novamente nesta última terça-feira, durante a manifestação pela educação. O clima estava tenso desde a saída e ainda na avenida Rebouças. Boechat me disse: “A vibe está estranha hoje.”

Pouco tempo depois a batalha campal começou e não o encontrei mais, nem mesmo na apoteose (o que não é raro, a violência se espalha pelas ruas e muitas vezes termina-se com quilometros de distância, nem todos voltam). No dia seguinte soube que seu pressentimento havia se confirmado. Boechat foi violentamente agredido. Jornalista experiente, colaborador de veículos como Valor, GQ e IstoÉ, ele fez seu relato em sua página do Facebook:

“Neste ano estive em diversos confrontos entre a população civil e as forças de segurança, em diferentes países. As mais violentas que acompanhei, inclusive, não se deram no Brasil. Quando estive na Tunísia, em fevereiro, fazendo uma reportagem sobre os dois anos do início da Primavera Árabe, o líder da oposição local, Cokri Belaid, foi assassinado. Sua morte mergulhou o país em uma semana de protestos, os mais violentos desde a queda do ditador Ben Ali. Foram dias e dias de embates ferozes pelas ruas de Túnis. Lá, como aqui, fotografei todos os acontecimentos, de perto, e nenhum policial fez, sequer, menção de me agredir.

Poucas semanas depois, já no Egito, a absolvição de policiais, que mataram dezenas de manifestantes em Alexandria um ano antes, fez com que a população voltasse às ruas para protestar contra o presidente Mursi. Foram noites e noites de confrontos extremamente violentos entre centenas de jovens e as forças de segurança nas imediações da Praça Tahrir. Em Alexandria e em outras cidades, naquela semana, mais de uma dezena de manifestantes foram mortos. Novamente, nenhum policial me agrediu.

É óbvio ser incorreto afirmar que nesses dois países que mal conhecem a democracia e não compreendem a noção que temos do Estado de Direito, a polícia não seja violenta. Ela é, e muito. Mas foi aqui, no Brasil, no meu país, onde existem leis que me protegem, em que a minha profissão é defendida por quem está no poder, onde a imprensa, em menor ou maior grau, é, sim, livre, que fui agredido por tirar uma fotografia.

Ontem fui espancado por um grupo de 13 policiais. Me agrediram com chutes, socos e cassetetes porque fotografei-os batendo de forma covarde em um dos voluntários do GAPP (Grupo de Apoio aos Protestos Populares). Foi uma agressão gratuita, que tinha como único objetivo me intimidar e impedir que eu praticasse o saudável e fundamental ato de registrar as coisas que acontecem em uma manifestação pública. Sou jornalista com mais de 15 anos de carreira. Já atuei em alguns dos principais veículos de comunicação do país. Já estive a trabalho em países que não prezam exatamente pela liberdade de imprensa, como Irã, Afeganistão ou Angola. Já fui intimidado, mas nunca espancado por forças de segurança do Estado.

Sempre pautei meu trabalho pela seriedade e pela ética que rege minha profissão. Em todas as manifestações assumo única e exclusivamente o papel de observador, de repórter, mesmo, em algumas circunstâncias, tendo a certeza de que injustiças são praticadas diante de mim, seja pelo lado da polícia, seja pelo lado dos manifestantes que, como os policiais, muitas vezes também se excedem. Seja aqui, seja em qualquer lugar do mundo. E, sim, gosto de estar perto da ação, tenho prazer em assistir ao vivo, com meus olhos, o desenrolar da história. (…). Fui agredido pela única razão de estar com uma câmera na mão diante do abuso de poder de um representante das forças de segurança. Minha carteira da Federação Nacional dos Jornalistas, que ampliei e colei em uma antiga credencial para expor ainda mais minha condição, não foi nenhum impedimento para que o soldado da Polícia Militar iniciasse a agressão. Foi tudo rápido. Ele bateu no rapaz, me viu fotografando e disse:

‘Não me fotografa, filho da puta’

Tentei mostrar minha carteira da Fenaj e gritei:

‘Estou trabalhando’

Ele levantou o cassetete e, antes de me acertar pela primeira vez, disse:

‘Eu também’ ”

Sou dos poucos que ainda saem sem máscaras contra gás (o capacete já faz parte dos acessórios básicos) mas preciso repensar isso. O futuro não parece promissor, como disse Yan Boechat, “a vibe está estranha”. Imagina na Copa.