A morte dos heróis da Chape e o nascimento da esperança no futebol brasileiro

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Publicado no El Hombre

A divisão do estádio entre as grandes torcidas era responsável por enorme parcela da magia de ir ao campo assistir a um jogo de futebol. Ver aquele anel superior do Morumbi dividido em duas cores: meio verde, meio preto; meio tricolor, meio alvinegro.

A reação imediata de tampar os ouvidos após o gol adversário porque você sabia que em questão de milésimos os gritos eufóricos da torcida rival alcançaria o seu canto do estádio. Ninguém quer ouvir o rival festejar um gol.

O êxtase de soltar a plenos pulmões uma boa provocação e saber que os caras iriam ouvir. Ah, eles iriam ouvir. E se falassem alguma baboseira em resposta, em poucos minutos improvisaríamos uma tréplica, nem que fosse uma vaia básica.

Nunca mais. A magia nunca mais.

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Quando eu era moleque, as mães já aconselhavam os filhos a não irem ao estádio em dia de clássico. A violência entre as grandes torcidas já era uma realidade. Episódios como a guerra campal entre as torcidas do Palmeiras e São Paulo na final da Copa São Paulo de 1995, cada vez mais recorrentes, iam deixando suas marcas trágicas na maneira em que os brasileiros enxergavam futebol.

Esse cenário levou as autoridades paulistas a tomarem medidas lamentáveis para o espetáculo que eram os clássicos. Primeiro foi a imposição de cotas de ingressos para visitantes: 10% para a torcida adversária. Dez por cento! E de um dia para o outro o rival sumiu – e com ele boa parte da graça.

Se não bastasse, algum tempo depois a lei proibiria por completo a presença do rival nos estádios em dia de clássico, na esperança de diminuir a violência no futebol. Nunca vi uma esperança nascer tão morta.

Lembro de ter concluído outro dia mesmo, ao refletir sobre esse assunto num mix de nostalgia e tristeza — que recorrentemente se acompanham — que jamais veríamos os estádios divididos novamente. Utilizando toda a minha capacidade criativa não conseguia imaginar um cenário razoável que culminasse no compartilhamento das arquibancadas mais uma vez.

Que autoridade ousaria defender a ideia se não há o menor sinal de interesse das torcidas organizadas de cultivarem a paz? E a minha capacidade lógica jamais se permitira considerar uma iniciativa promovida pelas próprias organizadas para esse fim, com promessas de convivência razoável.

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Mas quando foi que você viu clubes do mundo inteiro realizando um minuto de silêncio durante o treino por um mesmo motivo?

Quando você viu outros esportes, do basquete ao futebol americano, reservarem um minuto de suas partidas para homenagear uma única equipe?

Quando você viu um clube europeu jogando com o escudo de um time brasileiro?

Quando você viu uma torcida encher um estádio e os seus arredores para entoar o grito de outro time em uma noite sem futebol?

O acidente envolvendo o clube da Chapecoense mudou o mundo. O acidente uniu o mundo, na verdade. Uniu rivais na Itália, uniu rivais na Espanha, uniu rivais na Inglaterra e uniu rivais no Brasil.

No domingo aconteceu algo inédito e inimaginável na capital paulista: as torcidas organizadas dos quatro grandes clubes de São Paulo se uniram em clima de paz para prestar solidariedade ao ocorrido e todos os seus envolvidos. O cenário não poderia ser outro: o Pacaembú, palco de tantas batalhas entre essas organizadas.

Eu nunca imaginei que veria isso. É de arrepiar ver as quatro cantando juntas com um mesmo objetivo. Tocando juntas, balançando suas bandeiras juntas. Mancha Verde, Gaviões, Independente e Jovem unidas por um mesmo motivo.

Isso não é mais loucura – é realidade.

O que vai ser daqui para frente? Eu não sei. Mas eu sei que nunca mais vou acreditar no discurso de quem não deposita esperança na humanidade. Não depois de tudo isso que estamos vendo.

O que eu era incapaz de imaginar aconteceu. Agora eu tenho esperança de que um dia voltarei a dividir estádio com o meu rival.

E essa, ah, essa não é uma esperança que nasce morta.

#forçachape