‘A PM age como cachorro louco contra nós’: entrevistamos a Gaviões. Por Pedro Zambarda

Tratados na pancadaria: Kleber, da Gaviões
Tratados na pancadaria: Kleber, da Gaviões

O Corinthians venceu o Linense por quatro a zero num jogo que mostrou o técnico Tite em forma com o time titular no Campeonato Paulista dentro do estádio de Itaquera. Aquele jogo do Timão jogando em casa no sábado, 19 de março, poderia ter acabado em festa, mas teve pancadaria da Polícia Militar na Gaviões da Fiel.

Munidos de cassetetes, a PM bateu numa torcida que berra “calma, não precisa disso” nos vídeos que eles mesmos gravaram naquele momento.

No dia seguinte, a torcida organizada soltou uma nota dura à imprensa, cobrando um posicionamento do próprio Corinthians sobre essa violência sem qualquer razão. “Gaviões da Fiel vem a público lamentar que em tempos de democracia, o motivo mais aparente para se suspeitar das ações policiais, seja justamente a tentativa de uma censura opressiva”, diz o comunicado.

A polícia alega que as manifestações públicas da Gaviões contra a Rede Globo e o deputado tucano Fernando Capez são ilegais dentro dos estádios. Para tentar entender melhor o que está acontecendo, o DCM foi até a sede e conversou com Kleber Miguel, um dos diretores da torcida.

Kleber falou sobre a atitude desmedida da PM nas arquibancadas, como a imprensa colabora para permitir essas agressões gratuitas e como a Gaviões apenas protesta para trazer melhorias e reivindicações de quem apenas assiste o futebol em São Paulo.

A imprensa estigmatiza normalmente as organizadas e diz sempre que vocês são bandidos. Isso contribui para piorar tudo?

Os jornalistas fazem isso toda hora. A imprensa infelizmente faz este tipo de trabalho contra a gente. Eles mostram o que é conveniente, certo? Editam e fazem acreditar que aquela é a verdade e, muitas vezes, não é bem aquilo.

Muita gente vem falar conosco com o objetivo de nos prejudicar. Ninguém fala, por exemplo, de ações que a Gaviões faz muitas vezes sem divulgar. A torcida tem muitas ações sociais com comunidades carentes que não são foco da mídia. Gaviões da Fiel faz Dia dos Pais, de Mães e até dos Namorados com os nossos associados.

Antes do sábado de Páscoa, a torcida doa ovos de chocolate para as crianças carentes aqui do Bom Retiro. A gente chega a atender quatro mil meninos por aqui. Ninguém da imprensa se importa com isso e a gente até perdeu a vontade de falar sobre. Agora se o Zezinho estiver com uma camiseta preta e der uma pedrada num ônibus, fodeu. Porque ai é sempre culpa da Gaviões. É culpa de qualquer torcida organizada, não só da nossa.

Os jornalistas denigrem completamente a nossa imagem e isso é inquestionável. Por tudo isso ai, a imprensa ajuda a PM na opressão das organizadas sim, embora a ESPN tenha criticado a polícia na última violência que fizeram contra nós. O repórter deles disse, ao vivo, que não conseguia acreditar no que um capitão da Polícia Militar estava dizendo. Foi uma das poucas vezes que vi a mídia agir de um jeito diferente conosco.

Vocês sentem que a Polícia Militar de São Paulo endureceu mais depois que a Gaviões falou abertamente sobre a Globo?

Eles endureceram e o que pega pra corporação é o fato da gente protestar. A PM diz que nossos cartazes são um material que não pode entrar no estádio. Todo jogo tem uma reunião com a polícia antes. A gente senta lá no Segundo Batalhão do Choque e eles sempre questionam como esse material acaba chegando até o jogo.

Estamos vivendo um momento político em que as pessoas estão todas na rua pedindo alguma coisa diferente. Sinceramente a gente se preocupa com a nossa área que é o futebol e ele anda muito elitizado. O ingresso é caro não só pra nós das organizadas, mas também pros torcedores. Tem setor por 180 reais o ingresso. É caro.

A PM endurece quando reclamamos, mas o governo não oferece transporte pública pra torcida enquanto a Rede Globo exibe os jogos no final da noite. Eles alegam que nossas faixas são ilegais, mas é um protesto pacífico o que fazemos. A gente não ofende pessoa alguma de graça. O que fazemos é cobrar. A gente fala da Federação Paulista e da CBF. São todos da banda podre.

A Gaviões sente um descontrole da PM nos jogos?

Os caras são treinados para ser cachorro louco, né? A gente sabe que o Choque é treinado pra isso ai. Quando rola porrada, aquele momento é o deles. O policial lava a alma dele ali e desconta em pessoas que não tem nada a ver. Se você pegar muitas das imagens que circulam por ai, tem gente que pede calma e apanha. Quando um cara tenta tirar uma criança da confusão da torcida, se bobear ele apanha da PM.

Dão tiro de borracha a torto e a direito. Creio que a ordem é essa, embora eu não acredite que o cara seja instruído a acertar o olho de ninguém. Tivemos casos em 2006 de dois torcedores cegos dentro do estádio. Você senta na reunião com eles e dizem que estamos retrocedendo na conversa. Mas acho que quem voltou mais atrás foram eles. Não vivi a ditadura, mas nunca vi uma opressão tão grande quanto agora.

Vocês protestam contra a Polícia Militar?

Não, a gente nunca protesta contra a PM, porque não queremos nada com a polícia. Para falar bem a verdade, eles não fedem e nem cheiram. Mas os caras sempre querem algo contra a gente. Os caras são cão de guarda do governador. O pessoal no jogo do último sábado já estava se retirando, cantaram algumas músicas mostrando que estão cansados da opressão e eles não aguentam nem isso. Se você reclamar que estão batendo em você, a PM vai lá e bate mais.

Vi a Gaviões anunciar que iria no protesto pela democracia com a presença de Lula numa sexta-feira. Vocês são contra o PSDB, como no caso da merenda e do Fernando Capez?

Na verdade nós não temos posicionamento político como torcida organizada. Não tomamos lado mesmo. Somos apartidários. Se o Capez fosse do PT, a gente estaria protestando igualmente, porque a gente se preocupa com a merenda da molecada. Eu pessoalmente nem saio da minha casa pra votar.

Só que tem aquele ditado, né mano? O certo é o certo. E não tem duas verdades. Se o cara tá errado, a gente vai lá e reclama. E também não impedimos as manifestações políticas de nenhum dos nossos filiados. Tem corinthiano que é petista, tem cara que é tucano. Tem todas as bandeiras na nossa torcida.