A polêmica sobre a 1.a página da Folha. Por Paulo Nogueira

 

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A discussão está animada nas redes sociais em relação à primeira página da Folha de hoje.

O tema é a delação de Cerveró.

O que provocou polêmica é a ordem dos fatos na Folha.

Os editores parecem não ter achado 100 milhões de dólares em propina o bastante para colocar FHC na manchete. É o quanto Cerveró disse ter dado em propinas para o “governo FHC” num negócio da Petrobras.

Importante: em valores de hoje, é muito mais que 100 milhões de dólares.

Para comparações, o total do Mensalão gira em torno de 100 milhões de reais. Repito: reais.

Em vez de FHC, a manchete foi para o suspeito de sempre: Lula. Cifra por cifra, é uma covardia: 100 milhões de dólares versus 12 milhões de reais.

Numa explicação desanimadoramente confusa, a Folha diz que Cerveró afirmou que ganhou um cargo público de Lula por haver contribuído para quitar uma dívida daquele valor, 12 milhões de reais.

É muito diz-que-disse, mas no universo dos vazamentos as prioridades da imprensa claramente se concentram no campo do antipetismo.

Entre 100 milhões de dólares e 12 milhões de reais, a Folha fez a opção óbvia pela notícia menor, mas mais favorável a seus interesses.

Não é surpresa.

Faz tempo que a mídia desistiu de fingir isenção e imparcialidade. A Folha mesma costumava provar isso com canhestras estatísticas à base de centimetragens do jornal. Elas demonstrariam que o jornal não favorece ninguém.

Pausa para rir.

Bem, não por coincidência, aquelas estatísticas sumiram quando se tornou impossível publicá-las sem vexame.

Uma interpretação que defenderia a Folha, no caso dos 100 milhões, é que Lula é mais importante que FHC, e então deve-se dar prioridade a ele.

Mas é difícil levar a sério isso.

Se fosse secundário, FHC não estaria o tempo inteiro não apenas na Folha, mas em toda a mídia. Você vê, ouve, lê FHC ininterruptamente.

Claro: tudo nele é contra o PT e, consequentemente, alinhado com os anseios da imprensa. FHC é, hoje, um instrumento da plutocracia, cuja voz é a mídia.

O vazamento de Cerveró, para além da tentativa de esconder a menção milionária ao PSDB, traz um fato que merece reflexão.

A Lava Jato, se nasceu para pegar o PT, vai-se tornando um constrangimento para seus idealizadores. Houve, aparentemente, um brutal erro de cálculo: o esperado era que as delações não alcançassem a oposição, sobretudo o PSDB.

Só que o dinheiro do Petrolão jorrou em quantidades industriais para todos os partidos, excetuado o PSOL.

Isso porque o PSOL é o único partido que não aceita doações por entender, acertadamente, que se trata de empréstimos que serão cobrados.

Se há pecado no dinheiro das doações, todos os partidos são pecadores, com a exceção já citada. Não adianta Aécio tentar explicar que o dinheiro para ele era diferente do dinheiro para os petistas.

Quem acredita na pureza das cédulas que chegaram a Aécio, para lembrar Wellington, acredita em tudo.

Para a imprensa, resta fingir que 12 valem mais que 100.

Mas, a essa altura, quem leva a sério?