“Bolsonaro é um potencial estuprador”: Manuela D’Ávila fala ao DCM

Ela
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Manuela D’Ávila tem 33 anos, é jornalista pela PUC-RS e cursou ciências sociais sem concluir na Federal do Rio Grande do Sul.

Foi deputada federal pelo PCdoB por oito anos em Brasília e, após as últimas eleições, irá cumprir um mandato de deputada estadual em sua terra natal. Em seu trabalho, ela defendeu pautas inovadoras, como a aprovação do Marco Civil da Internet, uma “Constituição” digital inédita no Brasil e no mundo.

Manuela também é usuária frequente das redes sociais, espaço que ela utiliza para divulgar suas atividades políticas.

O DCM conversou com ela sobre seus planos, o uso da internet, os novos políticos que estão surgindo, a aproximação entre Cuba e EUA, além do segundo mandato de Dilma Rousseff.

O uso da internet e de redes sociais faz a diferença no seu trabalho? Vejo que você é uma usuária do Facebook…

As redes sociais são fundamentais por várias razões. Elas dão transparência ao mandato político. Também é uma forma de enfrentarmos as pautas que a grande mídia escolhe como importantes dentro da política. É a forma que temos de prestar contas do nosso mandato, já que a política só aparece no noticiário de forma negativa. É uma maneira que temos para aparecer e dar opinião. É um espaço de conversa, de interação, de diálogo com a sociedade. As redes são uma forma de colocarmos nossos ouvidos em exercício o tempo inteiro. Isso é mágico, porque nós temos uma avaliação permanente do nosso trabalho. É preciso aprender a lidar com isso.

Por que você decidiu se candidatar ao cargo de deputada estadual? 

Por uma série de questões. Primeiro foi vontade de viver no meu estado e na minha cidade, depois de oito anos vivendo longe. Também quero voltar a militar junto aos movimentos sociais. Acredito que estamos numa fase de transformação na política e estar mais próxima das pessoas é fundamental para perceber tudo o que tem mudado na nossa sociedade.

Qual balanço você faz sobre a sua trajetória de oito anos como deputada federal em Brasília? Ela contribuiu para dar novos ares ao PCdoB?

Cada deputado, a seu estilo, dá um novo ar à bancada. Eu tive a oportunidade de aprender muito porque nos meus dois mandatos as mulheres tiveram participação decisiva na bancada, um local coletivo de aprendizagem. Eu fui muito jovem fazer política em Brasília e vim de uma escola que foi a União da Juventude Socialista. Trocamos experiências e nos tornamos uma bancada ainda melhor, com a participação de todos e de todas. Foram oito anos muito produtivos. Participei do último governo do presidente Lula e do primeiro da presidenta Dilma. Acredito que ter presidido a Comissão de Direitos Humanos, sido a líder da minha bancada em um momento difícil, como o da construção do marco regulatório do pré-sal, relatado o Estatuto da Juventude e discutido o Marco Civil da Internet foram oportunidades de contribuir com o Brasil.

Você acredita que o seu partido e outros partidos, como o PSOL, estão criando novos nomes da política de esquerda no Brasil? 

Acredito que sim. Nós temos quadros novos que renovam a esquerda brasileira e dão a dimensão da atualidade da nossa luta. O Jean Wyllys, por exemplo. Temos feito isso até por fora dos movimentos tradicionais da política, representados mais fortemente pelos filhos e os netos dos políticos tradicionais. Isso é um movimento importante porque a reforma da política precisa entender que a renovação só não é maior em função dos mecanismos excludentes que temos no sistema eleitoral brasileiro.

Como avalia esse segundo mandato de Dilma? 

Esse é um governo de coalizão. Cabe ao PCdoB pressionar para que esse governo se paute por reformas estruturantes e transformadoras da sociedade brasileira. Em determinados momentos nós garantimos todo o surgimento da nova classe média com políticas que revolucionaram a educação brasileira, que realmente deram mobilidade social para diversos setores. Mas, agora, o nosso limite é a estrutura do Estado brasileiro.

Por isso que nós, do PCdoB, defendemos que esse governo deva ser o governo das grandes reformas. Para isso, devemos nos aliançar com a população brasileira, que há muito exige uma nova forma de fazer política. Ela exige, na prática da educação e da saúde públicas, ser compreendida pelo governo, exige que os tributos sejam pautados de outra maneira. A sociedade não aguenta uma carga tributária tão desigual, que não tributa aqueles que têm maior patrimônio.

Então é preciso transformar mais profundamente a sociedade brasileira. Precisamos de mais consciência social e esta é também mais uma razão porque decidi voltar para o estado do Rio Grande do Sul. Eu quero poder garantir diálogo com os movimentos sociais e a construção permanente da minha consciência e da consciência dessa juventude que pode nos ajudar a mudar o Brasil.

Como encara a reaproximação entre Cuba e Estados Unidos? É um avanço da esquerda no mundo todo?

Acho que foi um dia histórico o do anúncio da retomada das relações diplomáticas entre EUA e Cuba.  Isso representa o provável fim do bloqueio econômico e a libertação de presos. Todos os que apostam na paz mundial estão felizes. Também me deixa contente o fato dessa relação ter sido mediada pelo papa Francisco.

Qual é a sua opinião sobre as declarações recentes do deputado Jair Bolsonaro dizendo que “não estupraria” a congressista Maria do Rosário “porque ela não merece”?

O PCdoB na Câmara foi o primeiro partido  a se pronunciar contra a atitude do parlamentar e com nosso apoio foi aberto uma processo disciplinar para o deputado. Sugerimos também a alteração no regimento do Código de Ética para tratar de agressões machistas. Muitas vezes as deputadas são ofendidas no congresso. No caso de Bolsonaro, ele agride as mulheres e se empodera pelas recorrentes absolvições. Como lutar por um país sem machismo assim? Acredito que quando ele diz que Maria do Rosário não merece ser estuprada, diz sublinarmente que algumas mulheres merecem e que ele é sim um potencial estuprador.