A prisão de Aécio é uma chance de o Judiciário se redimir da ancestral blindagem dos tucanos. Por Donato

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Amanhã (20 de junho), a 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal analisará o pedido de prisão do senador Aécio Neves.

O presidente ‘licenciado’ do PSDB teve sua prisão pedida logo após o vazamento de uma gravação feita por Joesley Batista, na qual Aécio requisitava R$ 2 milhões.

Mineiramente, o senador envolveu um primo como receptador e a bufunfa foi entregue. Mas foi também filmada pela Polícia Federal. A casa então caiu para o tucano.

De início, o ministro Edson Fachin (Supremo Tribunal Federal) negou o pedido. Depois disso, Rodrigo Janot (Procurador Geral da República) tocou em frente e deferiu-o. O pedido de cadeia enfim avançou.

Está aí uma chance, mínima que seja, do Judiciário redimir-se das últimas patacoadas – como a mais recente e inesquecível amarelada de Gilmar Mendes – e também dar uma resposta ao procurador da Lava Jato Carlos Fernando dos Santos Lima, que num momento de sincericídio extremo deixou escapar: “Sempre soubemos o tamanho das forças contrárias que enfrentaríamos. Nunca fomos ingênuos a esse respeito (…) Infelizmente, entretanto, algumas das pessoas que nos apoiavam o fizeram por motivos mesquinhos ou ingênuos. Os primeiros queriam apenas substituir um partido pelo seu próprio partido, sem qualquer pretensão de buscar o bem comum. Já os segundos acreditavam que todo mal estava no governo do PT. Ledo engano”.

E só os muito ‘ingênuos’ não viram que Aécio está entre os que ‘queriam apenas substituir um partido pelo seu próprio partido, sem qualquer pretensão de buscar o bem comum’.

Uma das principais vozes a pedir o impeachment de Dilma Rousseff desde o dia seguinte à eleição da qual saíra derrotado, usando e abusando dos termos, ‘esquerdopatas’, ‘lulopetistas’, ‘bolivarianos’, Aécio não ficou só nos R$ 2 milhões.

Ainda segundo a delação de Joesley, o senador recebeu outros R$ 60 milhões da JBS para subornar e obter apoio de políticos na disputa pela presidência da República.

Aécio finalmente será preso? O Judiciário irá mostrar ao país que os tempos nos quais ‘nada pegava’ para os tucanos passou?

Causará o constrangimento mais que necessário para aqueles que engavetam o ‘mensalão mineiro’ há mais de uma década e que fez um publicitário pagar o pato sozinho?

Para atualizar o leitor: Marcos Valério é até hoje o único sentenciado e preso. Foi condenado a 20 anos de cadeia e responsabilizado como ‘arquiteto’ dos desvios das obras públicas para financiar campanhas.

Algo tão risível como se hoje toda a culpa fosse colocada nas costas do marqueteiro João Santana. Mas, na época, passou. Alguém hoje em dia teria dúvidas sobre quem eram os beneficiários maiores e realmente os cabeças do esquema?

Aécio coleciona menções nas delações da Lava Jato.

Sérgio Machado, ex-presidente da Transpetro, disse participou de um esforço de captação de recursos ilícitos (cerca de R$ 7 milhões) para bancar a eleição de Aécio Neves à presidência da Câmara dos Deputados; 

Delcídio do Amaral afirmou em sua delação que Aécio recebeu propina de Furnas (e o doleiro Alberto Youssef confirmou);

Benedicto Junior, ex-presidente da Odebrecht Infraestrutura, disse que o tucano recebia da construtora para atendider a interesses da empresa em obras como a da Cidade Administrativa (MG) e que o dinheiro teria sido depositado em uma conta bancária em Nova York, operada pela irmã de Aécio, Andréa Neves;

Marcelo Odebrecht declarou em depoimento ao Tribunal Superior Eleitoral que Aécio pediu R$ 15 milhões na campanha eleitoral de 2014 e que o valor fosse depositado em contas de seus aliados políticos;

Pedro Corrêa, ex-deputado federal, afirmou que foi Aécio quem indicou uma pessoa para a Diretoria de Serviços da Petrobras e que essa pessoa (Irany Varella) era a responsável por arrecadar propinas.

E ainda tem o escândalo do aeroporto de Cláudio, para quem estiver achando pouco. Com tudo isso, Aécio Neves deveria estar solto?