A professora que morreu tentando salvar crianças em creche na terra do Frota. Por Kiko Nogueira

Heley

Era uma vez uma professora chamada Heley de Abreu Silva Batista que vivia em Janaúba, a 547 quilômetros de Belo Horizonte.

Um dia o segurança de uma creche, Damião Soares Santos, jogou combustível sobre a garotada e em si próprio e ateou fogo.

Heley estava com os alunos no pátio e entrou numa luta corporal com o vigia. Conseguiu salvar alguns deles passando-os pela janela. Quatro meninos e uma menina pereceram.

Damião morreu. Heley um dia depois dele, com 90% do corpo queimado.

Pouco se sabe sobre ela. Tinha 43 anos, era da Pastoral Familiar, dava cursos para noivos e fazia trabalhos voluntários. Tinha três filhos, sendo o mais novo de apenas 1 ano.

Há 12 anos, um recém-nascido morreu afogado em uma piscina. Ela estava grávida na época. “Minha menina salvou tanto anjo”, disse sua mãe, Valda Terezinha de Abreu, ao jornal O Tempo.

Heley será esquecida amanhã porque a galeria de salvadores de crianças do Brasil está ocupada por gente como Alexandre Frota, os milicianos do MBL e outros.

A terra de Heley tem santarrões provocando briga, incitando a violência e tentando aparecer a qualquer custo acusando artistas de pedofilia.

São moralistas que, em nome de salvar os pequenos inocentes, querem atirar seus adversários na fogueira.

Um deputado da bancada evangélica, Sóstenes Cavalcanti, numa reunião com o ministro da Cultura Sérgio Sá Leitão, exigiu do tremelicante tecnocrata uma “nota” a favor da censura em exposições.

Ameaçou: “Nós estamos à beira de termos um problema, e gente sendo ferida, ou até morta, por falta de uma resposta ao ‘time’ da velocidade da internet. Se acontecer um problema amanhã, eu não quero ser responsável”.

Esses covardes que inventam riscos e espalham o terror seriam os primeiros a correr diante do perigo real que Heley encarou e pelo qual morreu.

Ela estava todos os dias com suas crianças. Quando o mal surgiu, defendeu-as de maneira corajosa e altiva. Não inventou um demônio para faturar com semianalfabetos.

Daqui a pouco ninguém mais se lembrará de Heley. Já os canalhas que querem salvar as crianças brasileiras continuarão sendo celebrados no Facebook até que o pior se torne inevitável.