A saída que encontrei para lidar com o assédio sexual. Por Nathalí Macedo

A autora
A autora

Me dei conta de uma coisa que talvez fosse melhor que eu jamais me desse conta: Não me lembro de ter vivido um dia inteiro sem sofrer nenhum tipo de assédio – talvez esse dia sequer tenha existido – e não há nada que eu possa fazer a respeito.

Sair de casa é garantia de ser assediada, e permanecer em casa não é garantia de não sê-lo.

Lembro, por exemplo, de um cidadão que vivia com os olhos pregados na minha varanda – pasmem – esperando que eu olhasse pra ele para sorrir e piscar. Um dia eu ameacei chamar a polícia e ele não voltou a olhar para a minha varanda.

Há também os assédios virtuais, que não são incomuns na vida das mulheres, e são menos incomuns ainda na vida das mulheres que escrevem sobre sexo. Vi aproximadamente vinte paus desconhecidos e não solicitados quando resolvi escrever contos eróticos sem pseudônimo – as fotos simplesmente pularam na minha caixa de mensagens do facebook, porque, se uma mulher fala sobre sexo, ela evidentemente quer fazer sexo com qualquer homem que lhe envie uma foto do próprio pau.

Encontrei uma saída reconfortante, quase divertida, para sobreviver em um país em que desrespeitar mulheres desconhecidas é uma maneira de afirmar a própria virilidade: uso minha imaginação para criar finais trágicos dos mais diversos para os homens que me assediam – e ninguém pode me julgar por isso, a não ser quem atura assédios todos os dias.

Imagino se cada homem que me assediasse sumisse, num piscar de olhos, em combustão espontânea.

“Ôh, lá em casa…” – sumiu.

Ou se uma mão gigante descesse do céu e disparasse um cascudo, imediatamente, em cada assediador. Ou se eu pudesse me transformar no Incrível Hulk a cada vez em que fosse assediada, para fazer com que cada assediador acovardado molhasse as calças.

São devaneios – e é triste precisar de devaneios para tentar viver em paz – mas há uma coisa que certamente melhoraria a minha vida, acaso o Brasil fosse um país menos machista: uma lei anti-assédio, como a que foi aprovada recentemente em Buenos Aires: quem assediar mulheres na Argentina será punido com multa de até mil pesos.

Imagino o dilema desesperador ao qual estão expostos, agora mesmo, os assediadores argentinos: demonstrações desrespeitosas de virilidade e misoginia ou minha carteira a salvo? (Esse dilema, aliás, é música para os meus ouvidos.)

Se existisse uma lei anti-assédio no Brasil, eu poderia tomar sol na praia sem que homens olhassem fixamente para a minha vagina sob o biquíni e fizessem comentários desrespeitosos em voz alta. Eu poderia escolher as minhas roupas baseada unicamente na minha vontade, e não nos olhos masculinos. Eu poderia sentar sozinha num bar a qualquer hora do dia ou da noite sem ser importunada. Eu não precisaria atravessar a rua para não passar por um grupo de homens. Eu poderia sair de casa sem precisar vestir uma máscara de poucos amigos na tentativa inútil de ser respeitada. Eu poderia até mesmo me divertir no carnaval sem correr o risco de ser puxada pelo braço contra a minha vontade. Eu poderia – pasmem – viver em paz.

Mas, em um país em que uma figura como Bolsonaro é aceita, em que um golpe machista não indigna boa parte da sociedade, em que uma menina é estuprada por trinta e três homens e o delegado lhe pergunta se ela tentou fechar as pernas, temo que uma lei como esta esteja longe – muito longe – de ser aprovada. Nós vamos precisar continuar usando a imaginação.

Além da carteira, há outro lugar no qual os homens – especialmente os machos-alfa – sentem dor: no ego.

Para ir além dos devaneios, tenho uma tática anti-assédio para continuar vivendo enquanto a lei anti-assédio – o sonho de 10 em 10 mulheres – não chega ao Brasil: fazer com que eles se sintam feridos no ego, mesmo que, para isso, eu precise ser meio grossa de vez em quando – convenhamos, não há nada mais grosseiro do que assediar mulheres na rua, há?

As possibilidades, mulheres, são inúmeras: dizer ao assediador que jamais transaria com ele é a melhor de todas. Ou que ninguém jamais transaria com ele (essa é ainda melhor) ou cuspir no chão num gesto de revolta enojada – bem, cada um se vira como pode.

O importante é que o contra-insulto – porque, sim, todo assédio é um insulto e toda ação gera uma reação – seja dito e teatralizado em alto e bom som, porque a coisa que mais incomoda aos homens é que outros homens pensem que eles não são tão homens assim. (A segunda coisa que mais os incomoda são multas de mil pesos.)

Reagindo ou não, você, mulher, provavelmente será assediada de novo, e de novo, e de novo – o que significa que reagir certamente não resolve nada, mas, eu posso garantir, por experiência própria: lava a alma.

Vai demorar para que assédios doam no bolso dos homens por aqui. Enquanto isso, eles doerão no ego.