Bibi Perigosa e a glamourização da bandidagem na Globo. Por Nathalí Macedo

Bibi Perigosa

Lá em casa são todos fãs da Bibi – a traficante da novela global das nove, interpretada pela belíssima Juliana Paes.

Sempre que vou visitar a minha mãe e irmã, eu tenho que aguentar a Bibi. Quando elas vêm me visitar, reclamam porque Rede Globo não entra aqui em casa – desculpa, mãe.

Minha sobrinha, de apenas 5 anos, sabe o horário exato em que começa a novela da Bibi.

Um dia tentei explicar pra ela que a Bibi é uma criminosa, e não uma heroína. “E daí, ela é poderosa”, respondeu a menina. E então fiz com que os pais dela a proibissem de ver a Bibi, é claro.

A Rede Globo, protetora da moral e dos bons costumes, paladina da luta contra a corrupção, preocupadíssima em proteger as crianças de qualquer pouca-vergonha, faz com que a minha sobrinha de 5 anos acredite que ser uma traficante de drogas gostosona é ser poderosa.

Não fode, plimplim.

As Bibis da vida real não são bonitas e glamorosas como a Juliana Paes. Olhemos, por exemplo, para a companheira do traficante Nem, da Rocinha, presa essa semana.

As Bibis da vida real são, em geral, como ela. São pobres esquecidas pelo Estado – como todos os moradores de favelas e subúrbios do Brasil -, que acabam presas ou mortas pelos delitos de seus companheiros.

Na Bahia, por exemplo, 92% das encarceradas são pretas, segundo pesquisou a CartaCapital.

E quantas delas estão lá por colaborarem com os delitos de seus companheiros homens, assim como a Bibi Poderosa? É impossível saber.

Suas vidas também não são tão fáceis quanto a da Bibi. Elas não têm um galã-advogado para salvá-las quando o bicho pega. Elas vão parar na cadeia, mesmo.

E uma vez na cadeia, as mulheres são privadas de tudo: desde suprimentos básicos até a assistência médica adequada.

O que há de glamouroso nisso, Rede Globo?

O desserviço da Globo é ainda mais evidente se pensarmos que o número de mulheres encarceradas aumentou mais de 100% nos últimos sete anos, segundo a mesma pesquisa.

O Brasil vai mal no quesito mulheres encarceradas. Não precisamos da Juliana Paes associando crime a empoderamento em pleno horário nobre.

Isso sim, Família Marinho, é vandalismo.