A “blackface” no Faustão anuncia o tombo do Brasil rumo ao século 19. Por Sacramento

Nelson Freitas fantasiado de James Brown

O Domingão do Faustão, programa do qual não dá para esperar nada de bom, exibiu uma apresentação do humorista Nelson Freitas fantasiado de James Brown, durante o quadro “Show dos Famosos”.

Para ficar mais parecido com o Rei do Soul, Freitas apareceu com a cútis maquiada de marrom, artifício conhecido como “blackface”. Surgido nos Estados Unidos na época da segregação racial, foi uma forma de ridicularizar os negros em espetáculos de humor.

Hoje em dia a “blackface” é considerada manifestação racista, seja aqui ou no outro lado da linha do Equador.

Para completar a patacoada, Cláudia Raia, uma das participantes do quadro, falou que gostaria de ser “negona”.

“Eu vim só com a bunda de negona, com o resto não vim. Eu queria ser ‘nega’, eu amo a música soul, a black music”, disse.

O resultado dessa salada de mau gosto foi óbvio: as redes sociais se encheram de críticas ao programa da Rede Globo.

Reclamações coerentes e bem intencionadas, porém inócuas. A “blackface” no Faustão é um dos sinais da jornada frenética do Brasil rumo ao passado. A locomotiva deste expresso para o regresso é o panorama político surgido após 2013, que exumou ideias e comportamentos fascistas que as mentes mais esperançosas acreditavam estar sepultadas.

Em Brasília, Temer e seus sicários do Congresso querem acabar com a CLT, uma conquista dos anos 1940 que veio para colocar dignidade e justiça na relação empregado x patrão.

O próprio usurpador tem uma desconexão explícita com o momento presente. Último ser vivo a utilizar mesóclises, trocou o real pelo cruzeiro em um discurso e em pleno Dia Internacional da Mulher associou as mulheres às lidas domésticas. Recentemente, talvez querendo parecer moderno, chamou os russos de “soviéticos”.

Aécio Neves, abarrotado de citações na Lava Jato e gravado pedindo 2 milhões ao dono da JBS, continua no posto de senador, situação inconcebível em 2017 mas perfeitamente normal nos tempos dos coronéis.

Anteriores a este período, as ideias do texto do PL 6442/2016 (PL do Trabalho Rural) remetem à escravidão. De acordo com o PL, os trabalhadores rurais poderão ser pagos com comida e habitação, como antes da Lei Áurea.

Com o retrocesso fervilhando por todos os lados, não é de se espantar que a “blackface” tenha voltado a dar as caras. Inclusive, a exibida por Nelson Freitas não foi a primeira no “Show dos Famosos”.

No mês de abril a cantora Fafá de Belém foi pintada de marrom para ficar parecida com a sambista Alcione. No mesmo dia e em outra emissora o apresentador Rodrigo Faro e a cantora Joelma usaram “blackface” em uma imitação do clipe de “Thriller”, de Michael Jackson.

Ninguém poderá ficar surpreso se a Rede Globo anunciar um remake de A Cabana do Pai Tomás, novela exibida entre os períodos dos governos militares de Costa e Silva e Garrastazu Médici. Na obra, o ator Sérgio Cardoso foi maquiado e usou próteses no nariz para ficar semelhante ao protagonista negro.

Caso o salto para o passado continue neste ritmo, em breve faltará tinta preta nas lojas de maquiagem.