Blackstar, de David Bowie, não é uma canção de despedida. É um chamado. Por Emir Ruivo

A bênção com o livro da estrela negra?
A bênção com o livro da estrela negra?

David Bowie foi tão influente na minha vida que eu até agora não consegui terminar o texto que comecei a escrever em sua homenagem. Nada parece digno. No meio tempo, tenho lido muito sobre ele, e ouvido muito suas músicas, em especial as de seu último grande ato, o álbum Blackstar.

Algo, no entanto, me tem chamado a atenção, pela ausência em tudo que tenho lido: ninguém notou, nem na imprensa internacional, que a música Blackstar não é exatamente uma despedida. É um chamado.

“No dia em que ele morreu
O espírito se elevou um metro e se afastou
Outra pessoa tomou seu lugar
E bravamente chorou ‘eu sou uma estrela-negra’”

Quer dizer, ele estava dizendo que quando ele morresse alguém teria que tomar seu lugar. Apenas a poesia já seria suficientemente clara, mas ela é ainda amplificada pela imagem de Bowie com um livro com uma estrela negra na capa fazendo uma espécie de bênção em todos nós.

Qual é este lugar não é claro. Como artista? Como esteta? Como mentor de um pensamento libertário? Como ser humano, pai, pessoa que vai à padaria comprar pão? Todas as anteriores?

Quem é a estrela-negra, ou quem são, também não.

Blackstar, para a astronomia, é um homônimo ou uma versão do buraco negro. Uma estrela tão densa, e portanto com a gravidade tão forte, que excede a velocidade da luz. A explicação pode estar aí.

Blackstar para os judeus antigos era Saturno. É também uma nave-espacial da força aérea americana. Qualquer dessas explicações poderia ter lógica quando se trata de David Bowie. Ou talvez um pouco de todas tenham.

Minha impressão pessoal é que o blackstar tem algo de black sheep, ovelha negra. Alguma alusão à rebeldia construtiva que pautou Bowie durante sua vida.

De qualquer forma, estrela-negra, é bom se manter atento, quem quer que seja, sejam ou sejamos. O chamado está lá.