Como extremistas estão faturando com a pseudo indicação de Lula ao Nobel. Por Kiko Nogueira

Atualizado em 14 de julho de 2015 às 7:29
"Que Nobel, companheiro?"
“Que Nobel, companheiro?”

 

A paranoia antipetista e antibolivariana pode ser, além de um problema clínico, fonte de recursos. PT Barnum, o inventor do circo moderno (e um rematado picareta) dizia que nasce um otário a cada minuto. Os organizadores de um negócio chamado Conclave de Oslo têm certeza disso.

Trata-se, como sugere o nome, de uma reunião na capital da Noruega com o objetivo declarado de “discutir a liberdade, a democracia e as eleições no Brasil”. A ideia é “expor a fraude dos processos eleitorais das passadas ‘eleições’ de 2014”.

Por que Oslo? Para entregar aos responsáveis pelo Nobel um dossiê desmascarando Lula. O ex-presidente não merece a indicação ao prêmio, na opinião do pessoal.

O organizador é Dalmo Accorsini, brasileiro residente em Miami, profissão indefinida, ativista de direita. Accorsini abriu pelo menos duas contas para colher fundos para a missão.

Na primeira, na ferramenta de crowdfunding Kickante, levantaram 43 380 reais. A meta é 150 mil. Faltam 14 dias. Na segunda, no Vakinha, conseguiu 7 851 reais dos 30 mil desejados. O prazo é 15 de julho.

Em ambos os casos, os prazos foram esticados para ver se se chegava ao total. E aí começa a confusão. Apesar dos pedidos de grana ainda estarem em aberto, Dalmo já foi e voltou de Oslo, juntamente com um empresário e procurador da Fazenda Hugo César Hoeschl. De acordo com um vídeo da trupe, eles protocolaram o dossiê antilulista.

Quem é Hoeschl? Além de campeão da causa, ele foi, de acordo com uma matéria da Folha de 2009, alvo de um processo administrativo aberto pela corregedoria da Advocacia Geral da União. Teria atuado, ao mesmo tempo, em Oscips (organizações da sociedade civil de interesse público) que mantêm contratos com o poder público e em empresas contratadas. O esquema envolvia o montante de 38 milhões de reais. Ele montou um blog para se defender.

Dalmo fala com certa dificuldade e se vende como empreendedor nos EUA. Há cinco anos, se gabou de “desenvolver um método eficiente e seguro para a produção de produtos orgânicos”. Sua “fazenda modelo” na Flórida atraía “muita atenção de universidades e outros empreendedores”. Em seu currículo, declara que é um “profissional de marketing, criador do spray anti ácido Stomacin-U e da revista Nutricula”.

O projeto Oslo teve o aval de gente como Lobão, Olavo de Carvalho e Danilo Gentili, que ofereceram brindes incríveis de acordo com a doação do cidadão. Lobão, há algumas semanas, acabou pulando fora, não se sabe bem por quê (leia mais aqui).

O material de divulgação mencionava uma espécie de trem da alegria dos sonhos direitistas (vou manter a grafia): “Vamos levar do Brasil um grupo de pessoas notáveis que já estamos contactando, entre elas esta o ex ministro Joaquim Barbosa, Dr Romeu Tuma Jr, Rachel Sheherazade, Danilo Gentili, Ives Gandra, Lobão, Felipe Moura Brasil etc”.

Mais tarde, um adendo: aguardava-se “a confirmação dos jornalistas Diogo Mainardi e Augusto Nunes”. O blogueiro Claudio Tognolli, biógrafo de Lobão, e o ex-roqueiro Ciro Pessoa, um dos 75 autores de “Sonífera Ilha”, dos Titãs, já estavam na jogada.

Não é a primeira vez que Accorsini faz algo desse gênero. Em março, ele conseguiu realizar o “Conclave de Washington”. As pessoas doaram 15 mil dólares para um evento que “denunciou” a empresa venezuelana Smartmatic, que fabrica urnas na Nicarágua, Bolívia, El Salvador, Equador e Brasil.

Os convidados, anunciados com destaque, eram o ex-primeiro ministro da Espanha José Maria Aznar, o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, o ex-presidente do México Vicente Fox, além de Jeb Bush e do senador republicano Marco Rubio.

Claro que nenhum deles deu as caras. O único palestrante foi o velho Olavo, com a repercussão esperada fora das rodas de malucos. Aliás, saiu apenas num lugar: no Yahoo, mais exatamente no blog de Tognolli, que mentiu ao escrever que, com o convescote, “os EUA passam a endossar, justamente nestes tempos bicudos, a tese de que o Brasil pode ter sofrido um golpe eletrônico chavista.” (!!?)

A questão fulcral da farsa na Noruega, no final das contas, é mais prosaica: não há nenhuma indicação de Lula ao Nobel. Zero. Niente. Nada. Os nomes serão divulgados somente em outubro.

Há bolsas de apostas baseadas em listas compiladas por especialistas. Nenhuma delas inclui Lula (que foi indicado em 2003). Fala-se, por exemplo, em Edward Snowden, o papa Francisco, o padre Mussie Zerai, que vive na Itália, por seu papel com os imigrantes, entre outros.

Isso não importa para os conclavistas. O que vale é pôr em prática aquela máxima do papa Dionésio Terceiro, responsável por livrar a Eritreia do comunismo, do lulopetismo, da malária e dos discos de Djavan: ninguém nunca perdeu dinheiro por subestimar a inteligência do público.