Conversas com Escritores Mortos: Cícero sobre a felicidade. Por Camila Nogueira

Marco Túlio Cícero
Marco Túlio Cícero

As frases abaixo foram retiradas de um dos mais famosos tratados escritos pelo filósofo, orador e político romano Marco Túlio Cícero (106 a.C. – 43 a.C.), “A Virtude e a Felicidade”, que faz parte das Disputas Tusculanas.

Qual é o objeto de estudo da filosofia, e qual é o seu objetivo?

O primeiro dos homens que se dedicaram à filosofia estudaram principalmente a arte de ser feliz, e não foi senão a esperança de alcançar a felicidade o que os levou a fazer tantas investigações.

Assim sendo, por que motivo a filosofia é importante para nós – isto é, em nossa vida diária?

Uma vez que a natureza dotou-nos de um corpo enfermiço, sujeito a doenças e a sofrimentos, deve-se levar em conta a possibilidade de que nossa alma também tenha as suas próprias enfermidades e as suas próprias dores.

O que é, para você, uma “vida feliz”?

Uma vida feliz é o quinhão de uma alma tranquila, na qual não irrompem movimentos impetuosos que desordenam a razão. Pode ser feliz um homem que teme a dor ou a morte, uma vez que amiúde experimentamos a primeira e que continuamente estamos ameaçados pela segunda? E se o mesmo homem, como é comum, teme ainda a pobreza, o desprezo, a ignomínia; se teme ficar paralítico ou cego; se teme a servidão, infelicidade que amiúde acontece até a nações poderosas?

Pobre homem…

Mas encontras mais feliz aquele outro que vemos engolfado nas suas paixões; que deseja tudo com furor; que quer invadir tudo, e a quem nada pode saciar? E que dizer desses espíritos ligeiros que se entregam aos transportes de uma alegria frívola, e que estão sempre satisfeitos consigo mesmos?

Nesse caso, quem é feliz?!

É feliz aquele que não é abalado por nenhum terror, que não corrói nenhum desgosto, que nunca se deixa inflamar por uma cupidez, que não transporta nenhuma desvairada alegria e que não permite que nenhuma voluptuosidade o enlaguesça. Julga-se que o mar está calmo quando a sua superfície não está agitada sequer pelo menor vento; e igualmente se julga que a alma está tranquila quando a sua paz não é agitada por nenhuma perturbação.

Resumindo, ser feliz é jamais se deixar perturbar? Apesar de ser difícil, isso é mesmo realmente desejável.

Isso mesmo. Ser feliz é viver sem medo, sem tristeza, sem desejo, sem tresloucada alegria.

Qual é a importância de Sócrates para a filosofia?

Até Sócrates, a filosofia antiga contentava-se com ensinar a ciência dos números, os princípios do movimento e as fontes da geração e da corrupção de todos os seres. Foi Sócrates quem primeiro fez descer a verdadeira filosofia do céu, para introduzi-la nas cidades e nas casas, levando toda a gente a discorrer acerca do que pode servir para regular a vida e distinguir entre o que é o bem e o que é o mal.

Para Sócrates, como podemos alcançar a felicidade?

“Parece-me”, disse Sócrates, “tomar a via mais segura para ser feliz aquele que busca encontrar em seu próprio âmago tudo quanto o pode fazer tal, sem depender da sorte nem do capricho de outros. Um homem que age assim é moderado; é corajoso; é sábio, e na adversidade como na prosperidade obedece ao antigo preceito que nos protege de nunca entregar-nos demasiadamente à alegria nem à tristeza.

Portanto, é preciso que não dependamos de nada que amamos ou possuímos?

Alguém pode estar segundo de uma saúde ou de uma fortuna duradoura?

Não…

Nada do que pode escapar de nós deve ser incluído no rol das coisas necessárias para ser feliz, uma vez que não é possível ser feliz se se teme perder o que nos serve para tornar-nos tal.

Agora que falamos bastante sobre a felicidade, falemos da virtude. Para você, qual é a virtude mais essencial?

A coragem.

O que você entende por coragem?

A coragem é, para mim, uma disposição da alma que nos impede de sucumbir ante os trabalhos ou a dor, e que nos fortalece contra todo e qualquer perigo.

Por que devemos ser, acima de qualquer coisa, corajosos?

Devemos almejar obter a coragem e a temperança. De um lado, a coragem faz-nos jubjugar o temor e a tristeza, não nos deixando conhecer a penúria, a carência e o obstáculo; de outro, a temperança aplaca a cupidez e refreia os ímpetos de uma alegria excessiva.

E o autoconhecimento? Ele também é importante?

O conhecimento de si mesmo e da sua afinidade com o espírito divino é extremamente desejável, já que dele brota uma alegria sempre renascente.

De maneira prática e objetiva, você poderia nos dizer o que fazer – em nosso dia a dia – para conquistarmos a felicidade?

No que diz respeito às necessidades ordinárias da vida, suprima-se o luxo e a opulência da mesa, já que a natureza se contenta com pouco. A sobriedade torna o corpo ágil, mantendo-o saudável – e o que torna a mesa deliciosa não é o empanzinar-se nela, mas o ser levado a ela pelo apetite.

Ah, faz sentido.

Contam que Dionísio, o tirano, encontrando-se em uma das refeições públicas dos lacedemônio e tendo querido provar uma iguaria muito negra que era o prato principal, achou-a detestável. Disse-lhe o cozinheiro: “Eu não me assombro, pois falta aí o melhor tempero: a fadiga da caça, o exercício da corrida às margens dos Eurotas, a fome, a sede”.

Alguma consideração final?

Eu não acabaria hoje se quisesse advogar a causa da frugalidade e, se não o faço, é só porque ela se defende por si mesma, e porque a própria natureza por ensina todos os dias que um número muito pequeno de coisas, e até das mais ordinárias, é suficiente para satisfazer as nossas necessidades.