David Bowie, Chico Buarque e nós. Por Paulo Nogueira

RIP
RIP

O primeiro disco de vinil que comprei, aos 16 anos, foi The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, de David Bowie.

Ouvi este disco, às vezes mais e às vezes menos, a vida toda. Entra em qualquer lista curta dos maiores do rock.

Nem preciso dizer, assim, quanto me entristeceu a notícia da morte de Bowie, neste domingo, aos 69 anos.

Mas é sobre um aspecto paralelo que quero tratar.

As manifestações de pesar logo se multiplicaram. A primeira de impacto veio de Ricky Gervais, pouco tempo depois de ter apresentado o Globo de Ouro.

Eram muito amigos. “Perdi um verdadeiro herói”, disse Gervais no Twitter.

Muitos outros roqueiros e artistas expressaram sua dor. Mas fui ler com mais atenção as palavras da chamada voz rouca das ruas, nos comentários dos artigos sobre a morte.

Foi emocionante.

O tom geral era de agradecimento a Bowie por tantas coisas boas que ele proporcionou a todos por todos estes anos. Bowie musicou memórias de várias gerações. Se eu fosse resumir o que as pessoas diziam seria assim: “Obrigado por haver existido, David.”

E então chego ao ponto que eu queria fazer.

A diferença entre uma sociedade que cultua seus heróis e uma sociedade que os deixa expostos a agressões de vândalos.

Me veio à cabeça o ataque a Chico no Leblon, poucas semanas atrás.

É doente uma sociedade em que um playboy inútil que vive do dinheiro da família se acha no direito de dizer para Chico, à queima roupa, que ele é um “merda”.

Isso porque o playboy não concorda com as ideias políticas de Chico. Chico está com o povo e o playboy, claramente intoxicado pelo noticiário envenenado da mídia, com a plutocracia.

Num mundo menos imperfeito, o playboy aproveitaria a chance de topar com Chico na noite carioca para agradecer a ele por tantas coisas boas que ele criou. Tiraria selfies com Chico e as mostraria orgulhoso a seus pais. Certamente em algum momento eles namoraram ouvindo Chico.

Poderia até dizer que discorda das posições políticas de Chico, mas em tom civilizado, tolerante, democrático, e entre risos. Mas deixaria claro que o importante ali era reconhecer a grandeza do maior compositor da história da MPB.

Mas nosso mundo está longe de ser perfeito, e aconteceu o que todo mundo sabe.

Pensei em Bowie, nesta manhã triste, e pensei também em Chico.

E vi que nossa sociedade está doente.