De Berkeley a Itapuã de bicleta e berimbau

A jornada extraordinária de Mestre Acordeon, brasileiro que ensina capoeira para os americanos há 35 anos.

Mestre Acordeon com sua bicicleta em Berkeley, São Francisco
Mestre Acordeon com sua bicicleta em Berkeley, São Francisco

Mestre Acordeon ensina capoeira há 35 anos em Berkeley, São Francisco, Califórnia.

Ele pretende comemorar 70 anos de idade e 55 de capoeira daqui a um ano, no Terreiro de Jesus em Salvador, junto de sua família, amigos e alunos do Kirimurê, projeto de apoio às crianças que ele mantém em Itapuã.

Mestre Acordeon criou o projeto B2B-Joga Capoeira, que vai levá-lo de Berkeley à Bahia de bicicleta e berimbau.

Por que a bicicleta? Para conhecer profundamente os países que irá visitar.

Antes mesmo de chegar à fronteira do México, Acordeon terá visitado outros nove mestres californianos: Papiba, Mariano, Chin, Guatambu, Batata, Amen, Boneco, Paulo Batuta e Mindinho.

A partir daí ele pretende saber mais sobre a influência da capoeira na vida das pessoas em outros países, e como isso influencia a própria capoeira.

A experiência será convertida num documentário sobre o ensino da capoeira nas Américas e em mais um livro de técnicas escrito por ele.

Acordeon é casado com mestra Suelly, a primeira mestre de capoeira americana.

Em 2008, a cidade de Berkeley denominou o dia 18 de outubro como o Dia de Mestre Acordeon, como reconhecimento aos seus trinta anos de dedicação à educação local.

O Diário entrevistou Mestre Acordeon enquanto ele recolhe doações e equipa sua velha bicicleta para a travessia:

Diário – Onde, como e porque o senhor começou a jogar capoeira? Quem foram seus mestres?

Nasci e me criei na Bahia, terra onde a capoeira estava nas praças públicas nos domingos e dias de festa. Um certo dia, jogando bola, dois meninos brigaram. O que apanhou disse que iria treinar judô. Alguém gritou: “Vá aprender capoeira porquê é tão bom quanto judô e é mais barato”. Fui procurar um mestre, Mestre Bimba. Mestre Bimba foi meu único mestre, mentor e a quem eu devo tudo que sei a respeito da capoeira.

Diário – Quando e por que resolveu morar nos EUA?

Em 1963 criei o Grupo Folclórico da Bahia. Em 1968 abri uma academia em São Paulo, a Associação K-poeira. Em 1970 voltei para a Bahia e me candidatei para apresentar um show em Dallas junto com um ex-aluno. Fomos aprovados, passamos três meses lá. Depois mudei para a baía de São Francisco, onde estou até hoje.

Diário – Como foi o início? Por que os americanos gostaram da capoeira?

Sempre fomos bem sucedidos, fazendo as demonstrações de capoeira e tocando música. Tínhamos um grupo muito bom, a galera gostava muito.

Acho que os estrangeiros em geral gostam da capoeira porque ela tem qualidades universais, que atendem as necessidades existenciais do ser humano: sociabilidade, autoafirmação, desafio pessoal, musicalidade, ritmo, saúde, beleza…

Diário – Como a capoeira se espalhou pelo mundo? Foram os turistas ou os mestres que levaram?

A capoeira ganhou o mundo com os capoeiristas que partiram com um berimbau nas costas e sem nenhuma ajuda do governo. Hoje somos os maiores promotores da língua portuguesa e embaixadores da cultura brasileira. Existem milhares de capoeiristas no mundo e acho que esta migração ajudou a muita gente.

Mestre Acordeon
Mestre Acordeon

Diário – Qual o papel social da capoeira no Brasil e no mundo de hoje? Ainda há preconceito contra a capoeira no Brasil? E fora?

Capoeira é uma forma de arte e disciplina que ajuda de uma maneira extraordinária a formação das crianças e adolescentes. Além disso, um trabalho de apoio social se torna mais fácil com a capoeira, porque os jovens se sentem atraídos por ela.

Tenho muita cautela com o chamado “preconceito contra a capoeira”. A capoeira sempre teve muitos adeptos, muitos admiradores e, até certo ponto, muito respeito no Brasil. Se uma parte da sociedade economicamente privilegiada não gosta dela, é o ponto de vista de uma minoria elitista que, atualmente, não pode influenciar negativamente a trajetória dela.  A capoeira é muito respeitada fora do Brasil. Mas, com certeza, existe muita gente que prefere jogar futebol, ou cricket…

Diário – Foi por isso que nasceu o projeto Kirimurê? Para estimular a capoeira entre os jovens?

O Kirimurê – que significa “grande mar interior”, como os indígenas chamavam a Baía de Todos os Santos – foi criado para apoiar as crianças fragilizadas de 4 a 15 anos de Itapuã, em Salvador. O projeto vai completar sete anos e os fundos gerados pela venda dos produtos da viagem – aulas, documentários e livros – serão destinados a ele.

Diário –  O senhor também é ciclista? Já fez outras viagens de bicicleta? Por que escolheu a bicicleta como veículo dessa viagem?

Tenho bicicleta há muitos anos e costumo usá-la como meio de transporte. Geralmente vou para a academia na bicicleta, e isso dá cerca de 25 km por dia. Às vezes pedalo nos domingos e feriados e faço viagens curtas para participar de workshops. A maior distância que já percorri continuamente foi 170 km, para dar uma aula, e voltei no dia seguinte.

Escolhi a bicicleta para mergulhar gradualmente nas culturas que irei conhecer. Não quero comer um hamburguer no aeroporto de São Francisco, entrar num avião e algumas horas depois comer um acarajé em Salvador. Quero sentir devagarinho as nuances culturais que encontrarei no caminho, para saboreá-las melhor… A bicicleta é ideal para isso eu vou viajar com a minha velha bicicleta de todos os dias!

Diário – Que culturas serão essas que irá conhecer?

A espinha dorsal do trajeto será a rodovia Pan Americana. A visita às áreas adjacentes ocorrerá ao sabor dos ventos.  Vou encontrar muitos capoeiristas e vou recolher muita informação sobre eles no caminho, suas escolas e suas músicas. Isso tudo será convertido no documentário e no livro que vou publicar. Minha grande motivação é realizar essa pesquisa.

Diário – O senhor vai atravessar a Amazônia. A capoeira está na floresta também, além das grandes cidades?

Entrarei no Brasil em Roraima, vindo da Venezuela, e irei até Manaus, passando por algumas reservas indígenas.  De Manaus irei de barco até Belém.  Há um mestre de capoeira numa aldeia do norte do Brasil que é muito fechada para as demais culturas. Mas a capoeira eles aceitaram bem. Espero visitar esta tribo e ver o relacionamento que ela tem com a capoeira. Tenho certeza que esta viagem me apresentará muitas surpresas.

Diário – Como será a chegada a Salvador e o que irá acontecer lá?

Pretendo chegar num saveiro vindo de Santo Amaro ou Cachoeira. Quero saltar no cais na Cidade Baixa ou na Boa Viagem, subir a Ladeira da Montanha ou a do Contorno e seguir até o Terreiro de Jesus, talvez até o Forte de Santo Antônio. De lá, irei para Itapuã e ficarei na casa dos meninos do Projeto Kirimurê.

Diário – Como é possível contribuir para o projeto B2B-Joga Capoeira ou para o Kirimurê?

A campanha de arrecadação para O B2B-Joga Capoeira está no site americano Indiegogo:
http://www.indiegogo.com/projects/b2b-joga-capoeira.

O prazo para apoiar o projeto vai até sábado, dia 27, até as 11:59 em São Francisco.

O Kirimurê é mantido pela Capoeira Art Foundation, que eu fundei nos EUA para apoiar a capoeira. Para saber mais sobre o projeto, o endereço é

http://projetokirimure.blogspot.com.br/p/projeto-kirimure.html.