E agora deram para compartilhar tortura no WhatsApp

Hostel

Esta é apenas uma cena ilustrativa do filme “Albergue”; as postagens reais do app são pesadas demais

A polícia precisa criar uma divisão especializada em WhatsApp. Não bastasse o péssimo hábito que certos homens têm de filmar momentos sexuais com suas parceiras (e postá-las, sem autorização, no aplicativo de chat mais popular do Brasil, o que resulta numa exposição viral e humilhante) agora existe uma nova moda: cenas de tortura. E não pense você que estamos falando de tortura psicológica, o vulgo bullying. Apesar de condenável, ele não se compara ao ato de cortar todos os dedos de um homem – ou obrigá-lo a decepar seu próprio pênis, sob a mira de um revólver.

Fiquei sabendo desta nova onda ontem, quando reuni alguns amigos para assistir à luta do UFC em casa. O sangue jorrando de um lutador mexicano fez um deles lembrar-se de dois vídeos que recebera poucos dias antes num grupo do WhatsApp. Admito, faltou coragem a mim para assisti-los, apesar da insistência do meu amigo. Vi apenas o snapshot inicial no seu celular e isso já foi o suficiente para me causar repulsa. Não consegui escapar, porém, do relato que ele decidiu fazer das cenas.

“O cara estava com a mão em cima de uma mesa e tinham vários doidos apontando uma arma para ele”, contou. “Então chegou um maluco com uma machadinha e sapecou dois dedos. O cara saiu pulando, mas os caras mandaram ele colocar a mão de volta, porque ainda faltavam os outros.” Brutal é apelido. Mas ainda é fraco quando comparado ao segundo, com um homem (não o mesmo) decepando o seu próprio pênis. A gravação não mostra ninguém o obrigando a fazê-lo, sob a mira de um revólver. “Mas só podia ter, né? Ninguém se capa de vontade própria”, disse meu amigo.

Há espaço para interpretação se o homem foi obrigado ou não a fazer aquilo. Mas não cabe a nós buscar respostas, ainda mais porque não poderíamos fazer nada quanto a isso – e, sim, à polícia. O jornal carioca Extra criou, poucos meses atrás, um perfil no WhatsApp em que leitores podem mandar denúncias a eles. Em 100 dias, o diário recebeu mais de 50 mil mensagens e 3 mil fotos, com todo tipo de  acusações. Por que a polícia brasileira não se inspira neste projeto?

Isso não apenas a ajudaria a lidar com os crimes que vêm sendo compartilhados no WhatsApp (segundo uma rápida pesquisa que fiz no Google, é possível rastrear a origem de um arquivo com certa facilidade), mas também possibilitaria às pessoas fazerem denúncias com mais agilidade do que ligando no 190, com o bônus das fotos e vídeos. Os bandidos já aderiram à tecnologia. Está na hora da polícia fazer o mesmo.

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Editor-chefe do portal masculino El Hombre, Pedro Nogueira é louco por esportes -- especialmente pôquer e sinuca, segundo ele "as modalidades mais honestas e emocionantes do atletismo".

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