“É incabível alguém de ultradireita no PSDB”, afirma líder de ala “esquerdista” do partido. Por José Cássio

Matarazzo, Doria e Tripoli
Matarazzo, Doria e Tripoli

 

A primeira semana oficial da corrida pela escolha do candidato a prefeito de São Paulo pelo PSDB mostrou o quanto a democracia interna ainda é vista com desconfiança pelos principais líderes do partido.

O primeiro a demonstrar contrariedade foi Fernando Henrique Cardoso, seguido do ex-governador Alberto Goldman. O temor é que a disputa interna invés de fortalecer divida ainda mais o PSDB. Pedro Tobias, presidente estadual do partido, foi taxativo: “Um (pré-candidato) fica acusando o outro. Virou guerra. Quem ganhar (a prévia) ficará sozinho.”

Não é o que pensam os quase 20 mil filiados na capital e também os três concorrentes. Cada um a seu modo, Andrea Matarazzo, João Dória Júnior e Ricardo Trípoli estão correndo atrás de apoios e a disputa, com votação em primeiro turno em 28 de fevereiro, começa a gerar conflitos e debate de ideias.

João Dória e Andrea Matarazzo marcaram pontos neste fim de semana. O publicitário reuniu 600 apoiadores no Teatro Brigadeiro, com a presença de Bruna Lombardi e Carlos Alberto Riccelli. Andrea por sua vez conquistou o apoio de uma das principais correntes internas do partido, o Movimento PSDB Esquerda Pra Valer.

Por incrível que possa parecer, o estatuto tucano defende princípios de justiça social de dar ojeriza em qualquer “revoltado on line”. O PSDB Esquerda Pra Valer tem consciência disso e expressa sua preocupação no documento tirado a partir do seu Encontro Nacional, que ocorreu em Itanhaém entre os dias 22 e 25 de janeiro. Está lá, com todas as letras.

“… uma armadilha. Setores conservadores, escorados no PSDB não por serem tucanos, mas sim anti-petistas, tentam direcionar o partido para uma postura liberal conservadora. Mais perigoso ainda é o fato de que parte do próprio partido tem sido seduzida a desempenhar este papel”.

Em entrevista ao DCM, o coordenador do PSDB Esquerda Pra Valer, o cientista político Fernando Guiramães, explica os motivos que levaram o movimento a optar pela candidatura de Andrea Matarazzo.

 

DCM – Que tipo de ideal de esquerda o movimento vê em Andrea Matarazzo?

Fernando Guimarães – Para ser de esquerda é preciso ter sensibilidade social, capacidade de se indignar frente às injustiças e compreensão do papel do Estado na redução das desigualdades. Isso é muito perceptível na nossa convivência com o Andrea Matarazzo. O compromisso da candidatura dele é de governar a Cidade de São Paulo com total prioridade para a periferia e as questões sociais.

Ao invés de grandes obras, um conjunto de pequenas intervenções na cidade com capacidade de melhorar a vida de quem mais precisa da ação do poder público. Andrea Matarazzo traz ainda uma sólida visão de caráter humanista. Nós tucanos temos a oportunidade e o dever de oferecer para São Paulo um social-democrata com todas as credenciais de representar o legado tucano. Tem ampla experiência na vida pública e conhece os desafios de cada bairro, por mais distante que seja.

DCM – O PSDB está aceitando a filiação, com a garantia de vaga para concorrer nas eleições, de representante de movimentos de ultradireita como o MBL e o Vem Pra Rua: o PSDB Esquerda Pra Valer defende essas filiações?

FG – Não temos conhecimento dessas conversas com o PSDB. De toda forma seria incabível a filiação de alguém com posição de ultradireita, pois somos um partido de centro-esquerda que rechaça com veemência em seus documentos programáticos a tese do estado mínimo.

DCM – Qual a sua opinião, do ponto de vista ideológico, sobre o programa Mais Médicos, do Governo Federal?

FG – A minha opinião é que esse programa, se visto como uma ação emergencial, de caráter humanitário, tem o seu papel. Mas não adianta levar médicos para as regiões mais longinquas e não oferecer condições adequadas para o exercício da medicina. Agora, o mais médicos deve ser antes de tudo o reconhecimento da necessidade de uma política pública de saúde que não deixe o país na dependência de profissionais de outros países para atender toda nossa população em todo nosso território.

DCM – O movimento PSDB Esquerda Pra Valer participa na avenida Paulista dos protestos contra a corrupção e pelo Impeachment da Dilma?

FG – Não. O Movimento PSDB Esquerda Pra Valer aprovou uma resolução onde entende que a defesa do impeachment não deve ser uma bandeira do partido. Contudo somos severos críticos desse governo e do mar de lama que tem devastado nosso país.

DCM – Qual sua opinião sobre os investimentos que o governo federal, através do BNDS, realizou no porto de Mariel, em Cuba?

FG – Considerando a falta de infraestrutura em nosso território e o impacto disso no “Custo Brasil”, não faz sentido que nossa capacidade de investimento seja deslocada para fora do país. Especialmente quando isso é feito sem o debate e a transparência necessária.

DCM – O prefeito Fernando Haddad vai concorrer à reeleição como um candidato da esquerda. Em que Andrea Matarazzo é melhor que ele sob esse aspecto?

Andrea vai governar para a periferia, enfrentar a questão fundiária da nossa cidade. O que o Haddad fez que o credencia a ser de esquerda? Em que ele melhorou a vida de quem mora na periferia? Aliás o atual prefeito não tem credenciais para ser de esquerda, de centro ou de direita. Ele simplesmente não cumpriu o seu programa de governo, não governou. A cidade está abandonada. A marca da gestão dele são as ciclovias, o que de fato é positivo. Mas até nisso feito sem planejamento. Na periferia que é onde há maior necessidade de deslocamento por bicicleta, ou a pé, as ciclovias chegam de forma tímida. Quando chegam parecem pistas de rally – e a verdade é que muitas vezes não ha sequer calçadas para os pedestres.

DCM – Qual sua opinião sobre João Dória e Ricardo Trípoli?

FG – Eu nem sabia que João Dória era filiado ao PSDB. Quanto ao Ricardo Trípoli ele é um tucano histórico, com trajetória de vida pública.

 

O coordenador do PSDB Esquerda Pra Valer, Fernando Guiramães
O coordenador do PSDB Esquerda Pra Valer, Fernando Guiramães