Edir Macedo e o tráfico de crianças: a Bíblia interpretada como manual de má conduta. Por Joaquim de Carvalho

Atualizado em 12 de dezembro de 2017 às 15:45
Edir Macedo

Um jornalista da TV Globo, com muitos anos de casa, teve um problema com a direção da emissora anos atrás e pensou em sair da empresa, buscar um lugar em outra emissora. “Mas, quando olhei para o mercado, e vi o que havia,  a qualidade das concorrentes, pensei: vai ser aqui mesmo. Nas outras emissoras, o ambiente é pior”, pensou.

A declaração desse jornalista vem à memória depois de assistir ao primeiro episódio da série da TVI, emissora de Portugal, sobre um estranho esquema de adoção de crianças mantido pela Igreja Universal do Reino de Deus naquele país. “É ilegal”, diz a reportagem, com base em entrevistas de um juiz.

Sem a Universal, não existiria a Rede Record de Televisão, vice-líder de audiência ao lado do SBT. E não é possível entender a Record sem conhecer a Universal, seus propósitos e sua prática. Nesse sentido, ganha importância a declaração que ouvi de um membro da igreja que conheci quando trabalhei na TV Record, entre 2005 e 2006.

“Eu estava no culto quando o pastor perguntou se havia algum membro da igreja interessado em ser obreiro. Eu levantei a mão e, ao final do culto, outra pessoa nos informou que deveríamos estar na igreja no dia seguinte, às 5 da manhã. Fui para lá, estava frio. Ninguém nos atendeu até as 8. Nesse horário, apareceu uma pessoa na janela e disse que a reunião estava cancelada, deveríamos voltar no dia seguinte, às 5 da manhã. No dia seguinte, voltei e, mais uma vez, a reunião foi cancelada. Isso é uma maneira da igreja ver o quanto você está mesmo disposto a participar da obra, ver se você resiste”, afirmou.

Obreiro é o membro da igreja que ajuda nas tarefas necessárias para a realização do culto, como ajudar na coleta de dízimos e ofertas, servir suco de uva e pedaço de pão na principal cerimônia, a Santa Ceia, cuidar de crianças na creche, entre outras. Não se recebe por isso. Mas, nas empresas ligada à igreja, o obreiro tem preferência na contratação.

Na TV, os assistentes de cinegrafistas são quase todos obreiros da igreja, e são vistos por demais membros da equipe, que em geral não são dos quadros da Universal, com  reservas —dizia-se que eram informantes da alta direção da emissora, ocupada quase exclusivamente por membros da Igreja, como o vice-presidente Douglas Tavolaro, responsável pela área de jornalismo. Há algund dias, ele se casou pela segunda vez e quem celebrou o casamento foi o chefe e líder da Igreja, Edir Macedo.

Tavolaro assina a primeira versão da biografia do seu pastor, Nada a perder, mas em diversas comunicações internas deu demonstrações de que não tem familiaridade com a língua portuguesa. Atropelava a sintaxe e maltratava a ortografia. No entanto, sempre teve prestígio, e não havia segredo para ninguém de onde vinha o poder: é filho do contador de Edir Macedo, e ambos pertencem à Universal.

Interceptações telefônicas autorizadas pela Justiça em números do senador Aécio Neves mostram como Tavolaro conduz o jornalismo da emissora e protege os interesses de Edir Macedo. Em abril deste ano, Aécio tenta emplacar entrevista de Michel Temer na emissora. Tavolaro diz que só poderia atender ao pedido se houvesse contrapartida: publicidade da Caixa Econômica Federal.

“Só tem um jeito de sair. Se tiver uma coisa, entendeu?”, diz Tavolaro. Aécio entendeu e, num telefonema seguinte, cobrou de Moreira Franco, ministro de Temer, que atendesse a condição.

Dinheiro. É disso que se trata. E não houve só este caso.

Em 2005, a Record fez uma série de reportagens favoráveis ao governo de Geraldo Alckmin em troca de anúncios da Sabesp. O profissional que conduziu essa negociação, em nome do Palácio do Planalto, funcionário da Secretaria de Comunicação, acabou recompensado com um emprego na emissora do bispo.

Edir Macedo celebra o casamento do discípulo Tavolaro

Poder e recompensa.

Ao se envolver na vida privada de seus pastores, a ponto de tirar-lhe a capacidade reprodutora e, depois, obrigá-los a adotar crianças, Edir Macedo não inova. Repete o padrão secular imposto pela Igreja Católica — com a diferença de que seus sacerdotes podem se casar (só para registro: católico significa universal).

A série da TV portuguesa divulga uma gravação em que um pastor, com voz cavernosa, com pausa de estilo medieval (nunca vi, mas imagino que fosse assim, com suspense e gravidade) transmite aos demais sacerdotes uma determinação de Edir Macedo:

— Por ordem do senhor bispo Macedo, a partir de hoje, o pastor, ele só vai gerar filhos no espírito… A partir dessa data, não é mais para pastor ter filhos… Vocês entenderam?

E ouve-se um coro:

— Sim…

A partir dali, segundo contam testemunhas, os pastores faziam fila em clínicas de vasectomia.

Ao achacar o poder público, o bispo da Universal também não inovou. Segue o roteiro da Rede Globo, cujo fundador, Roberto Marinho, é citado nas memórias do general Ernesto Geisel, como credor de favores especiais do regime militar, onde a emissora se consolidou como grande empresa.

Edir Macedo mergulhou de cabeça no negócio da comunicação certamente porque sabe que é nos veículos de mídia que se trava efetivamente a luta pelo poder. Primeiro, ele comprava horários em emissoras, depois montou a própria rede.

Para convencer os fiéis a dar dinheiro extra, dizia que faria algo diferente da Globo, prometia uma emissora comprometida com que apresentava como valores da família.

Logo, passou a copiar a Globo, na forma e no conteúdo, o que surpreendeu os membros da Universal, e disse então que manteria a rede UHF, na época chamada Rede Mulher, fiel aos princípios religiosos. Logo, mudou também o projeto da rede UHF e criou o canal de notícias Record News.

O negócio de Edir Macedo é poder, religião é só um veículo. A reportagem da TVI sobre o esquema de adoção conta que Edir Macedo se encantou com duas crianças portuguesas e se movimentou para levá-las para casa e transformá-las em suas netas, para desespero da mãe biológica.

Comportamentos desse tipo são o auge do exercício de poder — dispor como bem entende da vida alheia — e até nisso há um precedente bíblico que incomoda quem faz do livro judaico-cristão manual de conduta.

O rei Davi, cobiçando um mulher casada — sabendo que era casada — a atraiu para o palácio e a engravidou. Para evitar problema com um dos seus principais generais, marido da amante, ele arquitetou a morte dele em campo de batalha.

Davi acabou desgraçado com a violência dentro de casa, com assassinatos e estupro entre os filhos.

O escritor português José Saramago, sem entrar no valor metafísico da religião, dizia que a Bíblia é um manual de maus costumes. Lida no seu sentido literal, não há como negar, e Edir Macedo, que conhece bem o texto, está aí como prova viva.