Esse estado que não é nação: como Renato Russo resume perfeitamente o Brasil. Por Emir Ruivo

Ele

Publicado no Atroz.

“Nosso Estado que não é nação”. Pensei nessa frase de “Perfeição”, da Legião Urbana, hoje, quando Cassio me pediu para escrever algo sobre o 7 de setembro.

O que mais dizer? O Brasil já não é Brasil. Talvez nunca tenha sido e, finalmente, as redes sociais deixaram isso claro. Não sei. Mas sei que o Brasil não é Brasil. É um emaranhado de pessoas que se odeiam e querem ver os outros se afogarem, mesmo que isso custe seu próprio afogamento.

O que posso, diante disso, falar sobre o dia da independência? Deixamos de ser explorados por Portugal para sermos explorados pelos EUA? Pelo mundo? Por nós mesmos? Não quero ser negativo, mas francamente não vejo nada de extraordinário na independência do Brasil. Too little, too late.

Tenho para mim que o grande problema do Brasil é sua extensão. Grande demais, diverso demais. Sempre nos foi vendido que essa diversidade é mó legal, mas não é. Gera conflitos. Imagine os parisienses tendo que tolerar os londrinos numa eleição. Não dá. Só pode dar ruim.

O Brasil é o único país de seu tamanho no seu modelo. Austrália, Canadá e Rússia têm grandes territórios, mas com população concentrada em locais específicos. A Índia, embora mais populosa, é mais compacta e tem muito mais unidade.

Igual ao Brasil, só a China e os EUA. A China tem um modelo político bastante duro, e os EUA têm unidades federativas independentes. Assim, se o Oregon proíbe festa depois da meia noite, a Califórnia não tem nada a ver com isso.

No Brasil, uma bancada ruralista impõe leis a mim, um paulistano que prefere acreditar que palmito nasce em árvore naqueles potes. Uma bancada cristã impõe leis a mim, um ateu que sente queimar quando o padre joga água benta.

Como isso pode dar certo?

Vladimir Safatle disse recentemente que nós não somos um país, apenas dividimos um território. Daí a lembrança da música.

Renato Russo é um dos maiores poetas do Brasil, e geralmente é um prazer lembrar suas passagens literárias. Não hoje, não por este motivo. Eis a letra:

Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos
Covardes, estupradores e ladrões
Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso Estado, que não é nação
Celebrar a juventude sem escola
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade.
Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais
Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda hipocrisia e toda afetação
Todo roubo e toda a indiferença
Vamos celebrar epidemias:
É a festa da torcida campeã.
Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar um coração
Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo o que é gratuito e feio
Tudo que é normal
Vamos cantar juntos o Hino Nacional
(A lágrima é verdadeira)
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão.
Vamos festejar a inveja
A intolerância e a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isso – com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou esta canção.
Venha, meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão.
Venha, o amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera –
Nosso futuro recomeça:
Venha, que o que vem é perfeição

Pior ainda do que as constatações da poesia é que elas continuam atuais, perfeitas, sem tirar nem pôr, mais de vinte anos depois. O único trecho que Renato errou foi no final, em que coloca uma gota de esperança na boca de quem ouve.

A única esperança do Brasil é torná-lo independente de si mesmo. Ou damos autonomia aos estados como nos EUA, ou dividimos o território como na Europa. Fora isso, pode esquecer. Seremos sempre um “Estado que não é nação”.

Assista ao vídeo de “Perfeição” abaixo. E fique envergonhado. Ou não… É dia de festa, feriado prolongado. Como cantou Legião, “vamos comemorar como idiotas…”