Dezenas de países usam “exércitos digitais” para manipular eleições, revela relatório

Postado em 14 de novembro de 2017 às 1:11 pm

Do Publico:

Aceder e publicar o conteúdo que se quer na Internet, sem preocupações de ter autoridades governamentais à espreita, tornou-se mais difícil pelo sétimo ano consecutivo. Há novas leis que autorizam a monitorização do conteúdo, e dezenas de países que utilizam “exércitos de influenciadores” para vigiar o debate público e espalhar a versão oficial dos respectivos governos nas redes sociais.

A informação surge no relatório de 2017 da Freedom House, uma organização não-governamental com sede em Washington, EUA, que avalia anualmente o estado da Internet. A China volta a ganhar o título de “país com a pior liberdade online”, pelo terceiro ano consecutivo, acima de países como o Irão e a Síria. Os “ziganwu” (jovens voluntários do Partido Comunista Chinês) são uma das estratégias chinesa para transformar “os teclados em armas” e “defender a pátria online”.

Este ano, porém, despontaram intervenientes de mais nacionalidades. “Foram encontrados comentadores pró-governamentais em 30 dos 65 países que analisámos neste estudo”, lê-se no relatório da ONG, publicado esta terça-feira. São mais sete do que em 2016. “Nesses países, há relatos credíveis de que o governo emprega pessoas, ou paga a empreiteiros para manipular discussões online sem anunciar a natureza do conteúdo.”

Nas Filipinas, por exemplo, o trabalho do “exército de teclado” do Presidente Rodrigo Duterte, rende dez dólares (cerca de 8,5 euros) por dia. Segundo a Freedom House, este tipo de manipulação de informação influenciou as eleições de pelo menos 18 países ao longo do último ano. As conclusões são baseadas no trabalho de mais de 80 investigadores em todo o mundo, que avaliaram o estado da Internet nos países em estudo com base em observação, novas leis, notícias publicadas, e entrevistas realizadas entre 1 de Junho de 2016 e 31 de Maio de 2017. Os países foram escolhidos como “uma amostra representativa dos diferentes tipos de sociedade e ambientes”. Este ano, Portugal não faz parte da lista.

Os objectivos dos novos “exércitos de influenciadores”, são criar a ideia que existe mais apoio aos governos, e afastar as conversas online de temas controversos. “[Isto] estraga a capacidade dos cidadãos escolherem os seus líderes baseando-se em notícias factuais e debates genuínos”, criticam os investigadores. Embora alguns governos – como a Rússia – tenham tentado utilizar esta estratégia para influenciar as eleições de outros países, na maioria dos casos o objectivo é controlar o “poder no interior das fronteiras”.

“Esta manipulação é mais difícil de detectar e de combater do que, por exemplo, sites que são bloqueados”, alerta a directora da Freedom House, Sanja Kelly, em comunicado. “É dispersa, e há um enorme número de humanos e programas de computador envolvidos.” Na Tailândia, mais de 120 mil alunos são treinados como “ciber escuteiros” para monitorizar e denunciar comportamento online considerado como uma ameaça para a segurança nacional.

A influência governamental online, porém, vai muito além destes “exércitos”. Dos 65 países avaliados pela Freedom House, apenas sete (Austrália, Canadá, Colômbia, Estónia, Islândia, Japão e África do Sul) não registaram um aumento das restrições online. “Os governos em todo o mundo têm aumentado dramaticamente os seus esforços para manipular a comunicação nas redes sociais”, lê-se nas conclusões do relatório. “Os regimes da Rússia e da China foram pioneiros neste tipo de estratégias furtivas mas têm-se tornado globais.” Para os investigadores, é uma ameaça “à noção da Internet como uma tecnologia libertadora.”

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