Ex-Pantera Negra é libertado depois de 43 anos numa solitária

Postado em 20 de fevereiro de 2016 às 9:20 am

Do Público:

Um tribunal norte-americano ordenou a libertação imediata do prisioneiro que esteve mais anos em regime de isolamento nos EUA. Albert Woodfox, antigo membro dos Panteras Negras e um dos homens do grupo conhecido como os “Três de Angola”, passou grande parte dos últimos 43 anos fechado numa pequena cela, 23 horas por dia.

Woodfox, actualmente com 68 anos, foi posto em regime de isolamento no dia 18 Abril de 1972, juntamente com os seus companheiros Robert Hillary King e Herman Wallace, depois da morte de um guarda num motim.

Os três homens tinham sido condenados um ano antes, em 1971, por assalto à mão armada, e foram cumprir a pena no Estabelecimento Prisional do estado do Luisiana – a maior prisão de alta segurança dos EUA, conhecida como “Alcatraz do Sul” e “A Quinta”, mas principalmente como “Angola”, numa referência a uma antiga plantação com o mesmo nome para onde os escravos eram levados no século XIX.

 

Poucos meses depois de terem começado a cumprir a pena por assalto à mão armada, Albert Woodfox e Herman Wallace foram acusados, julgados e condenados pelo homicídio do guarda prisional Brent Miller e enviados para a solitária. Robert Hillary King foi acusado pela administração da cadeia de estar implicado na morte do guarda, mas nunca chegou a ser julgado; foi condenado pela morte de um outro presidiário.

Os três homens, que faziam parte de um grupo ligado aos Panteras Negras e lutavam pela melhoria das condições de vida na prisão do Luisiana, foram afastados dos restantes presidiários e colocados em isolamento.

Woodfox foi julgado e condenado duas vezes pela morte do guarda prisional e acabou por ver essas duas condenações revogadas por tribunais de recurso, embora tenha continuado preso – o Ministério Público do Luisiana queria acusá-lo uma terceira vez, mas o juiz que ordenou agora a sua libertação imediata também ordenou aos procuradores que desistam do caso, argumentando que Woodfox nunca será julgado com imparcialidade no estado do Luisiana.

Apesar da decisão do juiz James Brady, um porta-voz do procurador-geral do Luisiana, Buddy Caldwell, disse que o seu gabinete “vai fazer tudo para garantir que o assassino permaneça na prisão e que continue a pagar pelas suas acções”.

Ao ditar a libertação imediata de Albert Woodfox, o juiz James Brady alegou várias “circunstâncias excepcionais”: a falta de confiança no estado do Luisiana para realizar um julgamento imparcial; o número de anos que Woodfox esteve em isolamento; a sua idade e o seu estado de saúde; e “o facto de o sr. Woodfox já ter sido julgado duas vezes e de se arriscar a enfrentar um terceiro julgamento por um crime ocorrido há mais de 40 anos”.

Os três homens sempre negaram o seu envolvimento nas mortes de que foram acusados e mantinham que foram postos em isolamento porque incitaram outros presidiários a lutar pela melhoria das condições de vida na prisão. No documentário In The Land of the Free, de 2010, a viúva do guarda prisional morto em 1972, Teenie Rogers, disse que acredita na inocência dos “Três de Angola”, uma declaração que repetiu em 2014, em declarações à Amnistia Internacional. “Acredito que os ‘Três de Angola’ estão inocentes. Li todas as provas e ninguém me convence do contrário: eles estão inocentes.”

Robert Hillary King foi libertado em 2001, ao fim de 29 anos na solitária, depois de a sua condenação ter sido revogada (durante uma passagem pelo Porto, em 2011, num programa dedicado aos Panteras Negras pelo Museu de Serralves, King disse que na prisão do Luisiana continua a praticar-se “escravatura legal”); Herman Wallace foi libertado em Outubro de 2013 e morreu poucos dias depois, de cancro no fígado – passara a maior parte dos últimos 41 anos numa cela de 1,82 metros por 2,70 metros, de onde saía apenas uma hora por dia, e nem sequer todos os dias da semana. Durante o tempo que permaneceu vivo fora da prisão, o procurador-geral do estado do Luisiana estava a preparar uma nova acusação contra ele.

No documentário Herman’s House, de 2012, Herman Wallace descreveu a cela onde passou quatro décadas da sua vida: “Consigo dar uns quatro passos para a frente antes de chegar à porta. Se virar a cara, bato em alguma coisa. Já estou habituado, e isso é uma das coisas más desta situação.”

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