Impunidade de Temer e Aécio é parte da tragédia que ameaça conquistas sociais. Por Joaquim de Carvalho

A absolvição de Temer na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados é mais um evento para a galeria de nossos vexames mundiais.

Ontem, o Senado salvou Aécio Neves, flagrado negociando vantagens com um empresário, e hoje a Comissão da Câmara rejeitou, pela segunda vez, uma denúncia criminal contra Michel Temer.

Ambos tiveram prepostos presos por carregarem a mala com dinheiro de propina.

Faz pouco mais de um ano que a Câmara e o Senado, com anuência do Supremo Tribunal Federal, casaram a presidente Dilma Rousseff por pedaladas fiscais.

Ela que, ao contrário de Aécio e Temer, não apresenta sinal —nem sequer vestígio — de enriquecimento.

Nada disso ocorreria sem a cumplicidade dos batedores de panela, e é preciso que se repita sempre, para não se esquecer de quem legitimou a infâmia.

O Brasil se tornou um país indefensável.

Alguém poderá argumentar que houve melhora nos índices do mercado financeiro e no mercado de capitais.

Poderá argumentar que começamos a inverter a curva da economia.

Quem diz isso finge ignorar — ou ignora mesmo — que há quatro anos o Brasil vivia uma situação de pleno emprego.

A discussão era como estender para os empregados domésticos os direitos dos demais trabalhadores.

Por que caímos tanto em tão pouco tempo?

Alguém suspeitaria que jogar o país e seus ativos para baixo talvez tenha sido vantajoso para alguns?

Ganhou muito dinheiro quem comprou ações da Petrobras ou da Vale, por exemplo, na época em que eram vendidas na bacia das almas, quando a velha mídia mostrava o Brasil como se não houvesse dia seguinte.

Se alguém ganhou muito, outros perderam muito. Esta é a regra do mercado.

Hoje, depois da redução de direitos, o debate é sobre um decreto que dificulta o combate ao trabalho escravo.

Em apenas quatro anos, o Brasil deixou a antessala do mundo civilizado para voltar ao porão do subdesenvolvimento.

No mês passado, quando fiz a reportagem sobre o filho traficante da desembargadora, estive em Ribas do Rio Pardo, no Mato Grosso do Sul, por onde o filho traficante da desembargadora passou.

A cidade estava muito diferente de 20 anos atrás, quando estive com o fotógrafo Cláudio Rossi (autor da foto que abre este artigo) para fazer uma reportagem sobre o trabalho infantil, irmão siamês do trabalho escravo.

As carvoarias de Ribas do Rio Pardo não empregam mais crianças.

Vinte anos antes, elas eram trazidas de Minas Gerais com os pais e trabalhavam com eles no meio de plantações de eucalipto.

Em Ribas, não existem mais crianças fora da escola.

Foi o resultado de um trabalho que começou no governo de Fernando Henrique Cardoso e foi intensificado nos governos de Lula e Dilma.

Michel Temer, com o decreto que afrouxa o combate ao trabalho escravo, coloca em risco estes vinte anos de esforço civilizatório.

O golpe que derrubou Dilma, a impunidade da quadrilha que une Temer e Aécio e o avanço sobre conquistas sociais não são eventos desconexos.

É a mesma onda, que arrasta o Brasil para lugares mais distantes da periferia do mundo, impulsionada pelos brasileiros que gritaram contra a corrupção, mas que, no fundo, não queriam (e não querem) outra coisa senão manter de pé o muro que os separa dos mais pobres.

O muro tinha começado a cair — apenas começado — quando os mais pobres se tornaram menos pobres e passaram a ser vistos em aeroportos e universidade, locais que os batedores de panela consideram exclusivos.

O Brasil se tornou um país indefensável.

Racista, ignorante, injusto, cheio de ódio e conivente com os verdadeiros corruptos.