Jeremy Corbyn, o triunfo da igualdade, o “regresso ao futuro” e o caminho para a esquerda

Jeremy Corbyn

Do Público, de Portugal.

POR JOÃO ALBUQUERQUE

 

Os resultados ainda estão a ser analisados no Reino Unido, mas o contexto destas eleições foi marcado por dois grandes acontecimentos. Por um lado, no seguimento de um conturbado e muito disputado Referendo, o Reino Unido acionou o Artigo 50º do Tratado de Lisboa, lançando ambas as uniões para um abismo de incerteza. Parece indiscutível que, destas duas, é a Europeia que possui todos os trunfos e que será o Reino Unido a ter de se reconfigurar num quadro em que perderá o acesso privilegiado ao Mercado Comum Europeu. Por outro, os recentes ataques terroristas no país marcaram indelevelmente toda a retórica destas eleições. Com a ameaça de uma maior contenção da participação americana na NATO e na ONU, e fora da UE, o cenário para a consolidação do poder do Partido Conservador parecia mais do que certo. Assente numa retórica fortemente nacionalista – de afirmação do orgulho britânico –, e apostando numa abordagem de reforço do discurso securitário e de combate ao terrorismo, o que levou a este surpreendente resultado?

A resposta mais evidente e simples é Jeremy Corbyn. Sendo esta uma resposta, naturalmente, redutora, vale, pois, a pena explorar o que significou Jeremy Corbyn para o Partido Trabalhista. Na senda do que vem acontecendo com vários partidos da esquerda europeia, os partidos socialistas, sociais democratas e trabalhistas estão, nova e finalmente, a enveredar pelo que se pode considerar um “regresso ao futuro”. De uma forma muito resumida, isto significa um regresso à sua matriz ideológica e aos seus princípios fundadores, mas adequados ao mundo global do século XXI. De uma forma genérica, que princípios são estes?

1. O modelo de sociedade e a economia. Depois de várias décadas a discutir economia nos moldes impostos pela teoria neoliberal dominante – ou seja, privatizações, flexibilização do mercado laboral, desregulação e reformas estruturais –, a esquerda reapropriou-se das suas ideias e recentrou o debate. A economia tem de servir as pessoas, não o contrário. A privatização da educação, da saúde, dos transportes, das comunicações e de vários serviços públicos não serviram a cidadã e o cidadão comuns. Pelo contrário, representaram uma deterioração dos serviços públicos para a maioria da população, aumentaram os custos para as/os utilizadores e, ainda, não representaram um ganho significativo para o Estado, que se vê obrigado a permanentes acordos com os privados de forma a fazer cumprir os serviços públicos universais mínimos. Ao trazer de volta para o centro do debate o modelo de sociedade que queremos construir coletivamente enquanto comunidade, a esquerda reafirmou a aposta nos serviços públicos de qualidade – educação e saúde à cabeça – mas, também, na garantia de proteção social e da eliminação da pobreza e das desigualdades sistémicas.

2. A transformação do mundo do trabalho. A rápida e acentuada digitalização da economia tem vindo a provocar alterações profundas às dinâmicas tradicionais do trabalho, com a substituição de vários postos de trabalho por robots. À semelhança do que havia acontecido em França, com Hamon, também Corbyn e o Partido Trabalhista voltou à sua origem sindical e abordou de forma frontal estas questões. Entre outras medidas, a ideia de aposta na educação e na requalificação, bem como em condições de trabalho dignas. De entre as medidas apresentadas, destacam-se o aumento do salário mínimo, a garantia de não aumento de impostos para as classes de menores rendimentos e a eliminação das propinas no ensino superior. Para além disso, propôs a eliminação dos contratos de 0 (zero) horas e dos estágios não-remunerados, bem como medidas de reforço dos sindicatos e de negociações coletivas de trabalho.

3. A questão do mundo global e da Europa. A situação no Reino Unido é particular, no que diz respeito ao entendimento europeu, dado que as recentes sondagens demonstram que cerca de 80% da população inglesa é, agora, apoiante da ideia de secessão da União Europeia, na base de que os resultados do Referendo devem ser respeitados e cumpridos. Ainda assim, o Labour acabou por ter maiores vantagens em locais onde a votação a favor do “Remain” havia sido maior. Apesar de este fator ser específico do Reino Unido, mesmo o próprio Labour apresentou uma plataforma e uma agenda global que visam contrariar, por um lado, as tendências isolacionistas e protecionistas de alguma esquerda e, por outro, um conjunto alargado de propostas que reconhecem a necessidade de uma maior cooperação internacional a nível das políticas de defesa e segurança, mas também de combate às alterações climáticas, no respeito pelos direitos humanos e por uma economia mundial sustentável e inclusiva.

Com o cenário de indefinição quanto à potencial formação do novo Governo, e com a possibilidade de demissão de Theresa May, a principal surpresa destas eleições foi, sem sombra de dúvida o extraordinário e inesperado resultado de Jeremy Corbyn. E, com muito ainda por apurar, o que parece ser inequívoco é que, o facto do líder Trabalhista ter conduzido o partido de volta à esquerda e ao espectro da social democracia, provou a tendência que se tem verificado por todo o continente. Tal como em Portugal, sempre que os partidos socialistas europeus apostam em políticas de esquerda, que rejeitam a visão neoliberal e a austeridade, a adesão às suas propostas aumenta. E, mais importante ainda, a esquerda volta a ser a preferência do eleitorado jovem. Esta é a verdadeira lição a retirar e a principal mensagem de esperança para o futuro: é pela justiça social e pela igualdade que a esquerda triunfa. Tem de ser este o caminho.