Judiciário e imprensa se alimentam um do outro para inflamar a população

O bilhete de suicida do reitor

Do Conjur.

Por César Rezende

Fiquei surpreso com a notícia do suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina. Fui tomado por grande tristeza e puro desespero. Aliado a isso, foi noticiada que uma mãe foi agredida por pessoas em espaço público por considerarem a mãe e a filha um casal, o MAM foi censurado por apresentar uma peça artística com um homem nu, um pai agrediu seriamente a filha por ter perdido a virgindade, entre outras noticias assustadoras.

Tudo isso aconteceu e absolutamente ninguém, nenhuma instituição, nenhum órgão de imprensa, nenhuma entidade não governamental, nenhuma misera pessoa foi a publico pedir desculpas. O Poder Judiciário que para muitos é a Justiça, na fala do ministro Alexandre de Moraes e ex-ministro Ayres Brito, ao contrário de uma instituição pacificadora que se espera no Judiciário, manifestaram no mesmo sentido violento e estéril. Seria o Poder Judiciário um deus infalível, detentor da ultima palavra sobre todo e qualquer assunto.

A sociedade, e, principalmente, o brasileiro, talvez, tenha atingido o que a filosofia chamou de pós-história, um estado animal, perdemos a capacidade da linguagem — esse discurso foi observado na segunda guerra mundial diante da capacidade do humano agir pior do que animais sedentos por comida.

Eu denomino de animalesco, não somos apenas animais, somos animais que desejam a miséria do próximo publicada em todos os meios possíveis e inimagináveis. O discurso se completa se o próximo for alguém de raça diferente (péssima classificação), de ideologia oposta, de orientação sexual (homossexual, panssexual, bissexual), de opção políticas (PT ou PSDB) ou religião diversa, ou seja, qualquer classificação que nos tira a característica humana.

A capacidade do diálogo, a capacidade de amar ao próximo, a capacidade de altruísmo vem sendo retirada da sociedade. Basta uma seta no carro equivocada para passar a agir como um animal, entrando em um embate bélico com intenção de extinguir o adverso.

O estado animal é observado de tempos em tempos na historia humana, mas, ultimamente, esse estado que tende a ser extinto, como foi nas ditaduras do século XX, no absolutismo do século XV e XVI, ganhou nesse início de século XXI um ingrediente assustador. A mídia.

A imprensa com a sua capacidade de difusão absurda, em progressão geométrica está ocupada por homens que também são animais, a verborragia tomou conta da imprensa, a sociedade do espetáculo se inaugurou.

O processo foi iniciado no fim do século passado, pelo menos no Brasil, os programas que tratavam investigação criminal como um espetáculo capaz de ser valorizado pelo capital foram paulatinamente assumindo os horários da televisão já não mais tão aberta como no fim dos anos oitenta do século passado.

As certezas dos jornalistas e comentaristas passam a ser fato incontroverso. Lembre-se que o Juiz que preside os processos da Lava Jato, em Curitiba, utilizou duas ou três reportagens para fundamentar uma sentença.

A explosão do acesso à rede mundial de computadores passou a demonstrar todo o autoritarismo que o indivíduo exerce e se alimenta do jornalismo. As verdades passaram a serem chamadas de pós-verdade, isto é, o discurso passou a constituir os fatos. Havendo uma inversão doentia da capacidade de se solidarizar.

Basta uma crítica ao senso comum para ser classificado, assim como nos regimes absolutistas e fascistas. Somos todos classificados, não há mais conversa, mesmo que conflituosa, há apenas a guerra. Imputação. Dedos apontados. Rebaixamentos.

E tudo isso é assistido passivamente pelos que poderiam demonstrar a humanidade, se é que temos isso ainda, basta comparecer a um culto evangélico ou uma igreja. Vá a uma reunião do Iasp na comissão de direitos humanos, compareça uma reunião do Conselho da OAB, veja as notas de instituições de direitos humanos. O poder animalesco tomou conta do ser ex-humano.

O estado animal, violento, que deseja exercer o seu poder a qualquer custo ganhou nas vozes da imprensa impulso, agem como válvulas que potencializam a besta feroz que reside no nosso ser.

O discurso indica que apenas a guerra é o caminho. Colocam-se como Jesus Cristo. A imprensa defende que somente eles possuem o discurso da verdade, somente esse discurso autoritário é capaz de levar-nos ao segundo Éden, pois são enviados por Deus para sanar os males de uma sociedade que há 5778 anos não conseguiu entender a mensagem de Deus de paz e amor entre os humanos.

Estes são os responsáveis pela morte da Dona Marisa Leticia, pelo suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, pela agressão a mãe e filha, são responsáveis pelas mortes no confronto das favelas do Rio de Janeiro, são responsáveis pela censura ao MAM de São Paulo, a agressão sofrida pela filha do pai que a julgou pela perda da virgindade e todos os demais atos violentos seja do Estado, seja da sociedade contra a sociedade.

Este jornalismo messiânico, sem amor, é responsável por dar voz a besta feroz que reside no nosso ser. Motivadores e incentivadores desta besta, de nos colocar no estado de barbárie. São agentes utilizados ou que usam o Poder Judiciário para disseminar o seu autoritarismo e a sua santidade secular.

E pouco importa se o inicio do processo animalesco se inicia no Poder Judiciário ou nesta imprensa irresponsável. O fato é que um outorga suporte ao outro com o fim exclusivo de tomar o Poder e se perpetrar como um deus mundano, aplicando o sentido que bem entender aos ditames legais.

Por isso, desculpas, por não ter meios ou capacidade de confrontar tais medidas assustadoras e que pretendem estabelecer a selva animalesca assustadora dos seus discursos vazios de amor e solidariedade. Mesmo porque, estes animais, pretendem que o adverso aja de maneira animal e irracional como eles, tudo para justificar o discurso vazio de sentido que diariamente propalam.

Mesmo sem a resposta animal que desejam, estes jornalistas e membros do Poder Judiciário, são incansáveis, estimulam, incansavelmente, que a sociedade dê voz a besta voraz que em cada um dos indivíduos habita. Procurarei me manter em sanidade para combater a irracionalidade e a besta feroz que habita em mim e não lamentar como vejo alguns se manifestando, mas, sim, desculpar-me, pela incapacidade de possuir ferramentas suficientes para por fim ao estado animalesco que nos encontramos.