A criação literária e o conto segundo Julio Cortázar. Por Camila Nogueira

Cortázar (1914 - 1984)
Cortázar (1914 – 1984)

Em 1963, o escritor argentino Julio Cortázar proferiu uma palestra em Cuba. O assunto era o conto – seus temas, suas características, seus principais aspectos.

É sobre isso que falaremos nessa Conversa com Escritores Mortos.

É possível tecer generalizações relativas a gêneros literários?

Tenho a certeza de que existem certas constantes, certos valores que se aplicam a todos os contos, fantásticos ou realistas, dramáticos ou humorísticos. E acredito que talvez seja possível mostrar aqui esses elementos invariáveis que dão a um bom conto a atmosfera peculiar e a qualidade de obra de arte.

Há portanto leis que determinam como escrever um bom conto?

Ninguém pode entender que só se devam escrever contos após serem conhecidas as suas leis. Em primeiro lugar, não há tais leis. No máximo cabe falar de constantes, de pontos de vista que dão uma estrutura a esse gênero tão pouco classificável.

Comecemos com o conto. Quais as suas características? O que há de único e especial nele? Como distingui-lo de outros gêneros?

Para se entender o caráter peculiar do conto, costuma-se compará-lo com o romance, um gênero muito mais popular, sobre o qual abundam as preceptísticas. Assinala-se que, por se desenvolver no papel, o tempo de leitura do romance não tem outros limites além do esgotamento da matéria romanceado; por sua vez, o conto parte da noção de limite e, em primeiro lugar, de limite físico, de tal modo que, na França, quando um conto ultrapassa as vinte páginas, toma já o nome de nouvelle, gênero entre o conto e o romance. Podemos comparar, nesse sentido, o romance e o conto com o cinema e a fotografia, na medida em que um filme é em princípio uma “ordem aberta”, romanesca, enquanto uma fotografia bem realizada pressupõe uma justa limitação prévia, imposta pelo reduzido campo que a câmara abrange e pela forma com que o fotógrafo utiliza esteticamente essa limitação.

O conto guarda semelhanças com a fotografia, então?

Ao ouvir um fotógrafo profissional falar da sua própria arte, sempre me surpreende que se expresse tal como poderia fazê-lo um contista em muitos aspectos. Muitos fotógrafos, como Cartier-Bresson ou Brassai, definem sua arte como um aparente paradoxo – o de recortar um fragmento da realidade, fixando-lhe determinados limites, mas de tal modo que esse recorte atue como uma explosão que abra de par em par uma realidade muito mais ampla, tal como uma visão dinâmica que transcende espiritualmente o campo que a câmara abrange. Enquanto no cinema e no romance a captação dessa realidade ampla e multiforme é alcançada mediante o desenvolvimento de elementos parciais, como que acumulativos, que não excluem, por certo, uma síntese que dê o “clímax” da obra, numa fotografia ou num conto de qualidade se procede inversamente – isto é, o fotógrafo ou o contista sentem necessidade de escolher e limitar uma imagem ou acontecimento de fato significativos, que não só valham por si mesmos, mas também sejam capazes de atuar no espectador ou no leitor como uma espécie de fermento que projete a sensibilidade e a inteligência em direção a algo que vai bem além do argumento visual ou literário contido na foto ou no conto.

Hmmm…

Um escritor argentino, muito amigo do boxe, dizia-me que nesse combate que se trava entre um texto apaixonante e o leitor, o romance ganha sempre por pontos, enquanto o conto deve ganhar por knock-out. Na medida em que o romance acumula pouco a pouco seus efeitos no leitor, o bom conto é incisivo, mordente e sem trégua desde as primeiras frases. Tomem os senhores qualquer grande conto que seja de sua preferência e analisem a primeira página. Surpreender-me-ia se encontrassem elementos gratuitos, meramente decorativos.

O que faz com que um conto seja admirável e significativo?

Um conto é significativo quando quebra seus próprios limites com a explosão de energia espiritual que ilumina bruscamente algo que vai além da pequena história que conta. Os temas de bons contos são sempre excepcionais, mas com isso não quero dizer que o tema deve ser extraordinário, fora do comum, misterioso ou insólito. É justamente o contrário, podendo transformar-se de uma história perfeitamente cotidiana e trivial.

O que faz, então, com que um conto não seja bom?

Um conto é ruim quando é escrito sem a tensão que deve se manifestar desde a primeira página, desde as primeiras palavras ou primeiras cenas. Ele não é ruim pelo tema, já que, em literatura, não há temas bons nem temas ruins, há somente um tratamento que é bom ou ruim do tema.

Quais os seus contos preferidos?

William Wilson, de Edgar Allan Poe; Bola de Sebo, de Guy de Maupassant; Fifty Grand, de Hemingway; Uma Lembrança de Natal, de Truman Capote; Um Sonho Realizado, de Juan Carlos Onetti; Tlön, Uqbar, Orbis, Tertius, de Jorge Luís Borges; A Morte de Ivan Ilitch, de Tolstói e Os Sonhadores, de Isak Dinesen.

O que esses contos têm de especial? O que faz com que sejam inesquecíveis?

Pense nos contos que não puderam esquecer e verão que todos têm algo em comum: são aglutinantes de uma realidade infinitamente mais vasta que a do seu mero argumento, e por isso influíram em nós com uma força que nos faria suspeitar da suposta modéstia de seu conteúdo e da brevidade de seu texto. Os contos perduráveis são como a semente de uma árvore gigantesca. Essa semente irá crescer em nós, inscrevendo seu nome em nossa memória.