Marta, Cristovam e a geração perdida de velhos do Brasil. Por Kiko Nogueira

Uma cena antológica

Marta Suplicy, 72 anos. Fernando Henrique Cardoso, 84. Cristovam Buarque, 73. Fernando Gabeira, 74. Et caterva.

Em comum, além das cãs e das rugas, a raiva, a disseminação e a dissimulação da raiva.

Idosos estão estimulando outros idosos a odiar num grau como eu aposto que você não se lembra de ter testemunhado antes.

Dois casos recentes com amigos meus:

1) Tiago Mendes Tadeu, nosso programador, foi a uma festa de aniversário em Monte Verde (MG). O padrasto da aniversariante, levemente alcoolizado, ao saber que ele morava em São Paulo, solta a seguinte frase: “Ainda bem que se livraram do Haddad, aquele comunista”.

Em seguida, saca o celular e mostra o Decálogo de Lênin. “Assim eles vão tomar o poder”. Fica frenético. Tadeu pede licença e se retira, antes que a situação perdesse o controle.

2) José Marcos Castanho, assessor de imprensa, num casamento. O tio da noiva, um “velhote simpático”, começa de repente a vociferar contra o “bolivarianismo” e a invasão de agentes cubanos, e como Bolsonaro ia salvar o país. José tenta argumentar que vivemos numa democracia e o PT saiu do poder. O homem o expulsa da festa.

Estamos perdendo uma geração para o ressentimento. Foram-se o decoro, a educação, o verniz social, até mesmo a hipocrisia.

A regra é ser grosso, inconveniente e insultuoso, de preferência em lugares públicos. Se, antigamente, já era complicado falar de religião ou política em encontros de família, agora tornou-se arriscado fisicamente.

Nelson Rodrigues era um cultor da velhice. Declarava-se uma “múmia, com todos os achaques das múmias”. Recomendava aos jovens: “envelheçam”.

O que diria agora o gênio Nelson? As ruas foram tomadas por senhorinhas de cabelos azuis carregando cartazes pedindo “intervenção militar” enquanto  suas coleguinhas indagam “por que não mataram todos em 64?”

Com o enorme auxílio das redes sociais, septuagenários que poderiam estar pensando numa aposentadoria feliz se dedicam a compartilhar memes estúpidos e ofensivos. A necessidade de estar ativos, um daqueles clichês da gerontologia, se traduziu em emular os revoltados on line.

Não era assim. Você se recorda de sua madrinha querida.

Conservadora, sim — mas discreta. Ela comentava, por exemplo, que Lula não sabia falar direito. “Não que eu tenha preconceito contra nordestino, nada disso, por favor! Mas ele devia ter feito uma faculdade”.

Isso era, de certa maneira, o limite. Uma barreira psicológica acendia uma luz amarela. Opa. Não é de bom tom ir adiante. O que os vizinhos vão pensar?

Essa barreira foi rompida coletivamente nos últimos anos. O normal é chamar Lula de “lularápio com nove dedos”, Dilma de “presidanta”, o Bolsa Família de “esmola de vagabundo” e por aí afora.

Enquanto ninguém olha, eles são intoxicados com uma dieta de rancor e desinformação desde a hora em que acordam. No rádio, Sardenberg e Míriam Leitão e os imbecis histéricos da Jovem Pan. Na TV, denúncias seletivas de corrupção. No Facebook, aquele costumeiro festival de imbecilidades.

Avós passaram a ser um perigo para seus netos. Mães ensinaram crianças a mandar Dilma tomar no cu em manifestações. Isso ganhou o status de aceitável. Como explicar a seu menino o ditado segundo o qual é preciso respeitar os mais velhos?

FCH, Marta, Cristovam e os velhotes de Temer são a face mais conhecida de uma tragédia nacional, os garotos propaganda de uma geração perdida para a paranoia ultradireitista.

Em “Um Conto de Natal”, a história da redenção de um ancião mesquinho visitado por três fantasmas, Charles Dickens escreve que “a escuridão era barata, por isso Scrooge gostava dela”.

Os velhos brasileiros precisavam de luz e calor, hoje vivem de trevas.