Mereceu a vitória desde a entrada: o que as músicas-tema de Ronda e Bethe dizem sobre as duas lutadoras

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Ronda vence a luta

 

 

As músicas que nós gostamos dizem muito sobre nós. Quem acompanha o UFC sabe que os lutadores escolhem uma música-tema para suas entradas no ringue, ou octógono. São músicas que, de uma forma ou de outra, resumem os lutadores ou, no mínimo, os inspiram.

Os temas escolhidos pelas lutadoras desta noite, Ronda Rousey e Bethe Correia, expõem uma diferença de atitude monstruosa.

Bethe entrou ao som de “Beijinho no Ombro”, da Valesca Popozuda. Muito embora eu ache que a cantora tem seus méritos, esta música é o estandarte maior da imbecilidade. Resume basicamente tudo que há de pior na humanidade.

“Desejo a todas inimigas vida longa
Pra que elas vejam cada dia mais nossa vitória
Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba
Aqui dois papos não se cria e não faz história

Acredito em Deus faço ele de escudo
Late mais alto que daqui eu não te escuto
Do camarote quase não dá pra te ver
Tá rachando a cara, tá querendo aparecer

Não sou covarde, já tô pronta pro combate
Keep Calm e deixa de recalque
O meu sensor de periguete explodiu
Pega sua Inveja e vai pra…

Beijinho no ombro pro recalque passar longe
Beijinho no ombro só pras invejosas de plantão
Beijinho no ombro só quem fecha com o bonde
Beijinho no ombro só quem tem disposição”

Fala de inimiga, fala de inveja, mistura religião no balaio, cobra padrão de comportamento da pobre da inimiga e, pior, trata quem está no camarote como alguém melhor. Traduzindo, quem tem dinheiro é melhor.

Ronda, entrou com “Bad Reputation”, de Joan Jett. É muito interessante como a sabedoria simples da cultura punk embutida na letra é quase uma resposta à “Beijinho no Ombro”.

“Eu não dou a mínima para a minha reputação
Você está vivendo no passado, esta é uma nova geração
Uma menina pode fazer o que quiser, e é isso que eu vou fazer
E não dou a mínima para a minha má reputação

Não dou a mínima para a minha reputação
Nunca disse que queria aumentar o meu status
Eu só estou fazendo o bem quando estou me divertindo
E não preciso agradar ninguém
E não dou a mínima para a minha má reputação”

É quase a resposta da menina lá de baixo, da pista, à chata do camarote – a invejosa que acha que é invejada.

Pela atitude de cada uma, expressas nas músicas, Ronda mereceu a vitória já na entrada. Fora a raiva da Bethe. De onde pode ter vindo? O que a Ronda fez pra ela? Parece que o mesmo tipo de projeção (no sentido freudiano da palavra) de inveja que Valesca Popozuda faz à “inimiga”, Bethe faz a Ronda. Só não se sabe o que ela projeta na Ronda.

De onde pode vir tanta raiva de alguém que você nem conhece?

Eu torci para Ronda, embora francamente gostaria que Bethe tivesse tido uma luta mais longa, mais competitiva, também para ela se sentir mais motivada no futuro.

Talvez Bethe não pense sobre o significado de “Beijinho no Ombro”, ou talvez não tenha a leitura crítica da letra. Mas acho que ela deve melhorar pelo menos a atitude se começar a ouvir Joan Jett (ou qualquer coisa com o mínimo de sabedoria, ainda que sabedoria espontânea ou tosca como “Bad Reputation”) e aposentar o disco da Valesca Popozuda.