“Militares ainda se orgulham da tortura”, afirma escritor

Atualizado em 22 de dezembro de 2014 às 8:03
O coronel Ustra
O coronel Ustra

Publicado na DW.

 

Mais de cinquenta anos depois do golpe, há militares que ainda se orgulham das torturas realizadas durante o regime, disse o escritor Marcelo Godoy, em entrevista à DW Brasil.

O jornalista acaba de lançar o livro A Casa da Vovó, fruto de mais de dez anos de pesquisa sobre o DOI-Codi em São Paulo, um dos principais centros de tortura do regime. Subordinado ao Exército, o órgão de inteligência e repressão política foi criado em 1969 – a princípio com o nome Oban (Operação Bandeirantes).

Até hoje, afirma Godoy, muitos dos militares que passaram pelo DOI preferem chamar o local de “Casa da Vovó”, porque, segundo eles, “lá é que era bom”. O jornalista ouviu, para a sua pesquisa, 97 pessoas, das quais 25 agentes que trabalharam no Destacamento. Para eles, os tempos passados no DOI são “memoráveis”. Nas entrevistas, os agentes descreveram a morte de 66 pessoas, dentre as quais 39 sob tortura após a prisão.

DW Brasil: Você conversou com muitos agentes. Eles se arrependem dos seus atos?

Marcelo Godoy: Todos eles se justificam. Mas alguns ainda têm muito orgulho do que fizeram e dizem que fariam de novo. Outros, apesar de conviver com fantasmas, não buscam denunciar publicamente o que aconteceu.

Eles usavam termos como “viajar” para se referir ao assassinato de alguém. Esses eufemismos eram apenas códigos ou serviam para amenizar o que faziam?

Eles sabiam muito bem do que se tratava. Eu acho que há uma tendência desses grupos de criar uma linguagem. O vigiado era “paciente”, o torturado era “cliente”. Havia um glossário, um léxico, até como forma de identidade. O “açougue” e a “Casa da Vovó” eram o local de trabalho. Isso é extremamente revelador. Tem um grau de deboche e de normalidade burocrática nisso.

No livro você relata que foi ameaçado. A pessoa diz que “essa época” não passou, se referindo à ditadura. O que isso significa? 

O que ainda não passou é o sequestro intencional da verdade. Organizações militares se recusam a entregar documentos e a falar o que sabem, como uma forma de preservar indivíduos ou instituições. Mas essa salvaguarda de um assunto sigiloso, 40 anos depois, não me parece razoável, nem justificável.

E a violência policial?

Isso também não passou. Há práticas daquela época que permanecem até hoje: simulação de tiroteio, espancamento de presos. Só que não é mais algo publicamente incentivado pelo comando, como antes. Hoje as estruturas policiais, pelo menos em São Paulo, se modificaram. Por exemplo, a PM aqui tem uma diretoria de direitos humanos e isso faz parte da formação do oficial.

Com a divulgação do relatório da Comissão Nacional da Verdade, muitos militares reclamaram que o documento não abordou “os crimes do outro lado”… 

Só para deixar claro, no outro lado as pessoas foram presas, torturadas, mortas, exiladas ou banidas do país. Esses crimes foram investigados pelo governo na época. Existem processos na Justiça Militar, os autores foram condenados ou absolvidos. Isso do ponto de vista legal. Do ponto de vista histórico, a violência política de um lado era estatal, é de uma qualidade diversa. Do outro lado, buscava se legitimar a violência diante da luta contra a tirania. Essa discussão sobre os dois lados e essa disputa pela memória ainda permanecem.

Recentemente, têm ocorrido muitos protestos a favor do golpe. Quais são os riscos de uma intervenção militar?

Apesar das manifestações, acho pouco crível um golpe de estado hoje. Houve uma relativa profissionalização das forças armadas e uma retirada delas da política. Isso não quer dizer que tenham feito uma reflexão profunda do seu papel no período. Eu não acho que os oficiais de hoje pensam de forma diferente dos militares daquela época. Mas algumas modificações resolveram em parte esse clima de indisciplina militar, que marcou profundamente a República brasileira desde o seu nascimento até 1985.