A morte do reitor revela o que é a imprensa no Brasil: o porrete das autoridades irresponsáveis. Por Joaquim de Carvalho

Eles no papel deles

O pai da moderna ciência social, Max Weber, escreveu, nos primórdios da complexa civilização urbana (entre 1900 e 1920), que o mundo é como uma arena em que os deuses lutam, o tempo todo.

Ora um vence, ora outro.

Quem decide a contenda é a sociedade, optando por um ou outro deus e sua respectiva esfera de valor.

Nesse sentido, não tem o certo e o errado.

Cada um tem, em si, uma lógica que precisa ser compreendida.

Essa é a desgraça que o Brasil enfrenta hoje: a falta de integridade.

Digo isso a respeito do jornalismo, a minha esfera de valor.

A ombudsman da Folha critica a cobertura do jornal a respeito da investigação na Universidade Federal de Santa Catarina, que produziu uma tragédia: o suicídio do reitor Luiz Carlos Cancellier de Olivo.

Elio Gaspari vai pelo mesmo assunto e Marcos Losekann, repórter da Globo, tenta um caminho parecido no Conjur, sem ser específico.

A verdade é que a vontade de punir é o que move uma delegada de polícia louca para aparecer ou um procurador que se acha dotado de uma missão superior.

Acusar, buscar a punição, escrachar, tudo isso é o trabalho deles.

É a natureza do que fazem. Nesse sentido, são íntegros.

Falta integridade a juízes, Sergio Moro à frente, que desprezam o compromisso profissional com a magistratura para se comportar como parte.

Falta, sobretudo, integridade à imprensa, que perdeu muito de seu sentido de narradora independente da história para se tornar serviçal de autoridades doentes para ficar sob holofotes, na condição de estrelas.

Quem leu a história do The New York Times, o Reino e o Poder, de Gay Talese, sabe que os jornais mantinham, no centro de Manhattan, apartamentos alugados em frente ao quartel-general do Departamento de Polícia.

Uma das atividades dos jornalistas era ficar olhando pela janela para ver se havia alguma atividade digna de ser noticiada.

E por que faziam isso?

Era a época em que os jornais trabalham com setoristas, mas também era uma forma de não depender das versões oficiais da polícia e para verificar quem entrava e saía da central e, em seguida, ouvir os personagens.

Alugar o apartamento, permanecer fora das dependências policiais, era um ato que significava independência.

Hoje não é assim.

Os profissionais permanecem em grupos de WhatsApp à espera de que o assessor de imprensa divulgue algo liberado pela autoridade.

Os mais experientes têm contato direto com a autoridade e vivem de vazamentos. No Brasil, hoje, não existe nenhuma independência jornalística.

É subserviência na veia.

A esse respeito, interessante destacar uma passagem narrada por Fernando Henrique Cardoso em suas memórias da presidência — Fernando Henrique que é um marco na transformação da imprensa. Escreveu ele:

“Estive com Roberto Irineu Marinho, que fez um stop aqui na volta dos Estados Unidos para me explicar que eles não têm nada contra mim ou contra o governo, que estão de acordo, (o que houve) foi um erro da Globo, isso tudo em função da reclamação que o Sérgio Motta fez a ele. Eu disse que entendia que não tinham nada contra, mas que haviam ido além dos limites, tinham inventado (a história de Jequié). Ele se desculpou e disse que eles não são como a Abril, onde o Civita diz que não manda, que quem manda é a redação. No caso da Globo, disse que eles mandam, e que essa não era a orientação, que foi um acidente de percurso.”

Uma sinceridade que merece elogio e que revela muito do é a imprensa.

Fernando Henrique estava irritado porque o Jornal Nacional havia destacado uma manifestação em Jequié (não houve invenção).

Sérgio Motta, ministro das comunicações, senhor das concessões de TV e das privatizações da telefonia, das quais a Globo participou, reclamou, e Roberto Irineu foi até lá para defender seus interesses.

Eis aí a chave para entender a indigência jornalística, que Losekann, na sua inocência, vaidade ou malícia, não observa no artigo do Conjur: notícia deixou de ser a matéria-prima das grandes organizações de mídia.

É meio, não é fim.

Como ter a notícia como fim se, numa narração independente da história, teria que ser contado, necessariamente, o envolvimento da família Marinho com a sonegação de impostos e o envolvimento nos escândalos de lavagem internacional de dinheiro, o Panamá Papers?

Corrupção que é notícia só a dos outros, e isso é dado em altas doses, em cores sensacionalistas.

Os delegados e procuradores entenderam a regra e fazem o jogo.

Em vez de provas, frases marcantes contra inimigos comuns (da imprensa e da investigação), como a jovem procuradora que mandou para a cadeia o homem que liderou o movimento para trazer ao Brasil as Olimpíadas, com a quais a Globo ganhou muito dinheiro.

— Enquanto os medalhistas olímpicos buscam a sua tão sonhada medalha de ouro, dirigentes do Comitê Olímpico guardavam o seu ouro na Suíça — disse Fabiana Schneider.

Alvo certeiro. Globo na veia. Horário nobre. E as provas?

Antônio Palocci, em sua carta e no seu depoimento, conhece o meio.

Garante manchetes com expressões como “PT é uma seita”, “Lula e Emílio fizeram pacto de sangue”. Horário nobre garantido. Mas… cadê as provas?

Cada um está no seu papel.

Palocci quer se livrar da cadeia, a procuradora quer colocar seus alvos na cadeia e ser reconhecida por isso, tornar-se uma celebridade.

Mas onde está a imprensa para fazer a narrativa independente, que sobreviva aos interesses parciais? Onde está a imprensa que deveria cobrar das autoridades ou fontes provas das graves acusações que fazem?

Voltando ao The New York Times, no seu tempo glorioso. O publisher Adolf Ochs realizou um concurso para escolher um novo slogan para o jornal. Ele queria trocar a frase “Todas as notícias dignas de publicar” por outra.

A frase vencedora foi  “Todas as notícias do mundo, mas não uma escola de escândalos”.

O jornal pagou 100 dólares ao autor, mas Ochs continuou com o slogan original.

A imprensa não precisa mais do que notícias dignas para tocar seu negócio.

Mas, quando a notícia deixou de ser o negócio, o melhor a fazer é abrir uma “escola de escândalos”.