Na desocupação do Fernão Dias, uma montanha de material escolar abandonado. Por Mauro Donato

Os alunos do Fernão desocupam a moita
Os alunos do Fernão desocupam a moita

 

Depois de quase 60 dias, a mais antiga ocupação da capital se desfez. Pouco depois das 19:00 desta segunda todas as chaves da E.E. Fernão Dias foram entregues a um dirigente de ensino que representava a Secretaria de Educação.

Lá dentro, tudo limpo e organizado exceto por um labirinto construído com livros e materiais didáticos no corredor que leva à sala da diretoria para que as autoridades tenham que atravessar aquilo bem pausadamente, obrigando-se a um caminho tortuoso através de materiais não entregues aos alunos.

A denúncia foi feita em primeira mão aqui no DCM há poucos dias. Questionada, a Secretaria de Educação respondeu que as escolas já tinham começado a receber os livros didáticos do ano letivo de 2016 e que as fotos enviadas não permitiam definir se os livros eram deste ano ou do próximo.

Complementava: “Importante ressaltar que não houve registro de alunos sem receber o livro ou o material didático deste ano, por isso, caso as imagens façam referência a livros deste ano pode se tratar da reserva técnica, ou seja, alguns exemplares são enviados a mais para que em caso de esquecimento de material, perda de livro ou entrada de um aluno ao longo do ano, haja material a ser entregue.”

Vamos lá, por partes.

De fato, na Fernão havia lotes de livros para 2016 mas também tinha de 2012, 2013, 2014 e 2015 intactos. Ou seja, algo que nunca foi entregue e que obrigava alunos a dividirem materiais como, por exemplo, uma mesma apostila para duas pessoas.

Os comentários sobre a matéria feitos por muitos professores e profissionais ligados a educação – tanto aqui no site como nas redes sociais – dão conta de que isso é corriqueiro e prática antiga. Uma fonte afirmou ainda que alunos do período médio noturno muitas vezes não recebem material pois a direção considera alto o potencial de evasão escolar desses estudantes e prefere reter.

A assessoria de comunicação da Secretaria de Educação alegou também não haver registro de alunos sem receber livro ou o material didático. A informação contradiz todos os depoimentos coletados pela reportagem desde o início dos protestos em outubro.

“É tudo muito precário, muito complicado, é preciso copiar da apostila do amigo e no fundo estava tudo aí”, disse Luiz Paulo Baravelli, artista plástico e pai de uma aluna do Fernão.

A insatisfação de pais e alunos a respeito é histórica e a situação da não entrega de materiais esteve tão crítica no primeiro semestre deste ano que o governador Geraldo Alckmin chegou a analisar a possibilidade de repassar recursos para a compra do material escolar diretamente para as famílias dos estudantes através da adoção de um cartão com o objetivo de eliminar entraves e fraudes nas licitações.

De resto, em sua resposta a Secretaria ateve-se ao preciosismo a respeito de qual ano seriam os livros ou ainda uma possível ‘reserva técnica’ mas a reportagem fotografou um armário repleto de cadernos (e aí tanto faz de que ano sejam) e que os alunos disseram ter sido privados durante o ano.

Material não distribuído ocupa os corredores
Material não distribuído ocupa os corredores

 

Também não respondeu o que tantos materiais novos estavam fazendo guardados sem proporcionar bem estar ao estudantes. Por que equipamentos esportivos e instrumentos musicais novos trancados? Por que utensílios de química fechados e vencidos desde 2012? Material escolar não se resume a livros.

A Fernão Dias foi mais uma das escolas em que estudantes encontraram livros, mochilas, uniformes esportivos, computadores. Tudo o que lhes foi censurado. “Recentemente pedimos mochilas e a diretora disse que não tinha. Tinha mais de uma caixa”, disse Heudes de Oliveira.

Não importa aqui nem mesmo o montante em valor. Encontrar uma única caixa com 50 canetas bic já é um insulto para quem não tem nada, para quem passou o ano ouvindo que não havia material.

A Fernão Dias é também mais uma das escolas a não fugir da regra de ter a biblioteca trancada, vetada aos alunos. Em outras unidades em que estive, elas haviam se transformadao em depósito e mais uma vez depoimentos de professores atestam ser uma praxe.

Visitei escolas onde chove dentro, onde não há ventilação mínima nas salas de aula, e então vem o governo de São Paulo informar que as ocupações causaram prejuízo de R$ 1 milhão. O valor corresponderia a “danos causados por furtos e depredações”. Ora, senhor governador, todos sabemos em que situações ocorreram esses danos.

Sempre após alguma invasão ou reintegração feita na base da força, não autorizada judicialmente, sem a presença de testemunhas e que depois, misteriosamente aparece tudo depredado. Em Osasco, a E. E. Coronel Antônio Paiva de Sampaio foi desocupada durante uma noite em que a polícia já estava na porta ameaçando entrar. No dia seguinte bem cedo qual equipe de reportagem entrou com exclusividade para mostrar a depredação? Não preciso responder, preciso?

Mas se é para contabilizar, o governo precisará também considerar o quanto economizou nas escolas que recebeu de volta com as paredes pintadas, limpas como nunca foram, organizadas, com chuveiros instalados, assentos nos vasos sanitários que estão equipados com papel higiênico (que luxo hein).

Quem depredou a escola durante as últimas décadas ao ponto em que chegou não foram os alunos, pode ter certeza.