Nos tempos do ‘lulécio’: por que a explicação de Aécio para Furnas não cola. Por Kiko Nogueira

Nos tempos do "lulécio"
Nos tempos do “lulécio”

 

A resposta de Aécio Neves à delação do lobista Fernando Moura sobre o fatiamento de Furnas (“um terço nacional, um terço São Paulo e um terço Aécio”) carece de um problema central: é mentirosa.

“Estou sendo alvo de declarações criminosas, feitas por réus confessos e que se limitam a lançar suspeições absurdas, sem qualquer tipo de sustentação que não a afirmação de que ‘ouviu dizer'”, declarou num nota.

Num vídeo postado nas redes sociais e no WhatsApp, foi um pouco mais longe: “Agora um cidadão, um lobista, não sei nem o que fazia, mas faz parte desse esquema, vem em um dos muitos depoimentos com uma novidade: diz que o senador Aécio Neves, imaginem vocês, havia indicado para o governo do PT, o dirigente de uma empresa estatal e que havia se beneficiado de recursos dessa empresa”, reclamou.

“Isso seria algo como quase, por exemplo, o técnico do São Paulo escalasse o time do Corinthians às vésperas da final do campeonato, ou se o do Atlético fizesse o mesmo com o Cruzeiro, ou o técnico do Vasco escalasse o goleiro do Flamengo para a decisão do campeonato carioca.”

É uma história que AN vai tentar negar, mas que está fartamente registrada. Aécio fez aliança com o PT durante o primeiro mandato lulista e criou uma relação de absoluta proximidade. Em entrevista ao 247, o deputado Rogério Correia, do PT de Minas, lembra que a indicação de Toledo por Aécio “quase provocou um racha no partido”.

E ficam as fotos na parede. Entre 2002 e 2006, Minas testemunhou um fenômeno político que ficou conhecido como “lulécio”. Votava-se em Lula para presidente e Aécio para governador.

Em 2005, quando estourou o mensalão, ele frisou que “o presidente tem uma história que merece o nosso respeito. O presidente Lula não é o presidente Collor”.

Um ano mais tarde, tendo Geraldo Alckmin como candidato do PSDB, Aécio disse o seguinte: “É muito difícil você disputar a eleição não contra um candidato, mas contra um mito. O Presidente Lula tem uma história de vida pública que cala fundo no sentimento de muitos brasileiros e acho que é a força dessa sua história o instrumento mais vigoroso para que ele esteja hoje, apesar de todas as denúncias, apresentando condições de vitória.”

Em 2010, com Serra na parada, ele insistiu que Lula “é algo diferente. É um fenômeno para ser analisado no futuro. Porque ele independe do êxito do seu governo para ter uma grande avaliação por parte da população. Outro dia me perguntaram se eu faço alguma comparação por ter índices parecidos aqui em Minas. Eu dizia que é muito diferente. Porque o Lula por si só já é este fenômeno. Ele é a representação, no imaginário das pessoas, da ascensão social que qualquer cidadão gostaria de ter”.

Mais: “Eu sou amigo do Lula. Tenho uma relação com o Lula que começa muito antes de ele imaginar ser presidente. Talvez ele próprio já imaginava, mas eu não imaginava que ele seria presidente. E eu tampouco pensava em ser governador. Conheço ele deste a Constituinte. Lula era um reserva de luxo do meu time. Ele era um lateral esquerdo que só deixava entrar no segundo tempo. Tenho com ele uma relação de amizade. Lula é um sujeito que gosta da vida. Eu tenho essa afinidade com ele. É sujeito de bem.”

O que mudou? As circunstâncias. O problema é tentar editar o passado.

Para ficar nas metáforas futebolísticas, Aécio vai ter de caprichar mais um pouco para convencer sua torcida. Se ele tinha Lula como lateral esquerdo de seu time, não faz sentido alegar agora que o técnico do São Paulo estava escalando o Corinthians etc.

Furnas voltou definitivamente para lhe assombrar e pode atirá-lo na segunda divisão.