O bispo de Aparecida não pecou apenas por incitar o ódio, mas pela dissimulação. Por Kiko Nogueira

Dom Darci, que pediu para pisar na jararaca, com verdadeiros homens de Deus
Dom Darci, que pediu para “pisar na jararaca”, entre homens de Deus

 

O bispo auxiliar de Aparecida, em São Paulo, deve ter achado que estava prestando um serviço importante aos fieis no domingo, dia 6, incitando o ódio entre eles.

Numa basílica lotada — a capacidade é de 45 mil pessoas —, Dom Darci Nicioli não ofereceu uma palavra de conforto, de sabedoria, de calma, de reflexão num momento delicado do Brasil.

Preferiu, montado provavelmente no que considera uma espécie de ira divina, sugerir que suas ovelhas partam para a ignorância, citando Lula indiretamente.

“Peça, meu irmão e minha irmã, a graça de pisar a cabeça da serpente, de todas as víboras que insistem e persistem em nossa vida, daqueles que se autodenominam jararacas”, falou em sua homilia. “Pisar a cabeça da serpente. Vencer o mal pelo bem. Por Cristo, Nosso Senhor” etc etc.

(Caso você tenha estado em coma nos últimos dias, Lula se referiu a si mesmo como jararaca na coletiva depois da operação da Polícia Federal na sexta feira.)

Dom Darci, evidentemente, pode achar o que quiser de qualquer coisa. Mas deveria, ao menos, assumir sua posição e lidar com isso. Preferiu cometer outro pecado, o do cinismo, ao comentar o sermão.

Diante da repercussão do vídeo com suas palavras, afirmou que se referia à necessidade de “expurgar todo o mal” e que não há relação do discurso com as investigações sobre o ex-presidente.

“Não era a intenção, mas não ficou ruim. Poderia ter sido uma jiboia, uma jararacuçu, por acaso saiu jararaca”, declarou, piadista. “A Operação Lava Jato, no meu entender, demonstra que as instituições estão funcionando. E, no jogo democrático, todos devemos ganhar com isso. Ninguém pode viver ao arrepio da lei.”

Ninguém, sem dúvida, inclusive e principalmente os sacerdotes brasileiros pedófilos sobre os quais ele, seus colegas e chefes jamais se manifestaram.

Em Franca, a alguns quilômetros de onde fica o indignado Darci, o padre José Afonso Dé foi acusado de abusar de quatro adolescentes em 2010. Aos 82 anos, o fauno de tapete foi condenado a 60 anos de prisão. Está livre, leve, solto e pregando com suas mãos peludas.

Como seus piores rivais evangélicos, Darci demoniza apenas um grupo. Em 2015, no feriado de 12 de outubro, na presença de mais de 100 mil almas, entre as quais a de Geraldo Alckmin, pediu “seriedade” a Dilma.

“Fala-se que o Brasil está em crise e está mesmo. Crise política, crise econômica financeira. Certamente na base desta crise está uma grande crise moral, uma crise de valores”, criticou.“Não falta dinheiro, falta seriedade no uso do dinheiro”.

Dante Alighieri colocou os semeadores de discórdias no oitavo círculo do inferno. Eles se dividem em três tipos, sendo que um deles é o dos instigadores de conflitos sociais. Trespassados pela espada de um demônio, alguns têm as orelhas, o nariz e a língua cortados.

Mas Dom Darci prefere o consumo dos jornais e da tevê à Divina Comédia e, se bobear, à Bíblia. Deus proteja o pobre rebanho de Aparecida da fúria seletiva e hipócrita do bispo Darci.