O bordão de Ciro de que Lula “racha o país em bases odientas” é música para a direita. Por Kiko Nogueira

Ciro e Lula

É duvidoso que a cantilena de Ciro Gomes contra Lula lhe renda votos de petistas em 2018 caso o ex-presidente seja inviabilizado — mas é certo que municia bonito a direita.

Ciro tem insistido no bordão de que Lula é “o grande responsável por este momento político trágico que o Brasil está vivendo”.

Segundo o pré-candidato do PDT, Lula “passionaliza imediatamente o ambiente, radicaliza uma divisão entre brasileiros simpatizantes do Lula e brasileiros que o odeiam”.

Lula “racha o país em bases odientas, rancorosas, violentas, como nós estamos assistindo aos lulistas e antilulistas. E o país não tem ambiente para discutir seu futuro.”

A candidatura de Lula, enfim, “é um desserviço”.

Ciro é um político experiente, sem escândalos de corrupção, um homem articulado, inteligente e preparado. Seu ponto fraco é o gênio destemperado, como se sabe, e o personalismo. 

O argumento de que Lula é culpado pela cisão que vivemos, pela polarização, é cultivada pela direita com carinho. É central, aliás.

Para ficar apenas num exemplo entre tantos, Rachel Sheherazade vive a repetir essa tese. “É típico do PT instigar o ódio entre as pessoas: mulheres contra homens, gays contra heteros, liberais contra conservadores, negros contra brancos, empregados contra patrões”, falou na Jovem Pan.

“Dividindo o país pelo ódio, o partido de Lula e Dilma nos enfraquece como nação”.

Ciro não é Rachel, evidentemente, uma indigente mental extremista que sobrevive graças, exatamente, ao horror ao PT.

O substrato da conversa, no entanto, é o mesmo.

O que Lula deveria fazer diante do massacre diuturno? Renunciar a qualquer pretensão em 2018 e ir para a Itália? Enquanto uma caçada judicial é empreendida, com apoio da mídia, deveria pedir desculpas a Sergio Moro e aos donos da Globo, cobrir a cabeça de cinzas e se encaminhar para a cana clamando pela paz mundial?

Já sobre Jair Bolsonaro, curiosamente, Ciro é paternal. “Ele fala com franqueza, com um certo caráter tosco, essas coisas. Ele cumpre um papel, na minha opinião, importante, porque ele aclara, ele tira o véu”, opinou na mesma entrevista à BBC.

O personalismo de Ciro impede que ele enxergue, às vezes, o big picture. Ele só será candidato se Lula não for. Até aí, ok.

Mas emprestar sua inteligência para a direita não tem nada a ver com “pautar o debate em relação à compreensão dos problemas brasileiros”, como ele mesmo prega.

Tem a ver com o Ciro.