“O cachorro gostou do filme?”: o dia em que o grupo Direita São Paulo ocupou a Assembleia Legislativa de SP

No último dia de maio, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo abriu espaço para a exibição de um documentário chamado “Desarmados”.

Produzido e dirigido por Lion Andreassa, ele é apresentado pelo ator e modelo Taiguara Nazareth. O convite partiu do deputado Coronel Camilo (PSD-SP).

A questão está na organização co-patrocinadora: o grupo Direita São Paulo, organização que se agrupa no extremo espectro da algazarra política dos últimos tempos, chegando até mesmo a confrontar imigrantes em plena avenida Paulista.

Com a proposta de ser a primeira de uma série de palestras, formou-se uma pequenina turba de personagens com pensamentos afins, ou ainda mais pro lado de lá. No todo, não mais que 30 pessoas.

Na entrada do prédio, uma cena inusitada: dois jovens conversavam, um deles vestindo um casaco em tons pastéis, imitando o uniforme de campanha americano para o deserto, outro calça jeans, rabo-de-cavalo em um cabelo loiro, ornado por um quipá azul com detalhes dourados, junto deles um jovem cão, sem raça definida.

Ao entrarem no edifício o cachorro foi junto, e se instalaram todos no auditório Paulo Kobayashi, onde a deputada Célia Leão (PSDB-SP) propagava a intenção de erradicar a fome do Brasil, começando pelo estado de São Paulo.

O rapaz de rabo de cavalo se vira para outro visitante: “Legal ela. É petralha? É petralha?” Diante da negativa, se afunda um pouco mais na cadeira, algo aliviado.

Terminado o evento anterior, a mesa é composta: Edson Salomão, presidente do Direita São Paulo, Coronel Camilo e Lion Andreassa.

Edson começa citando as polêmicas relacionadas aos atos da Direita São Paulo contra a Lei da Migração, dizendo que houve espetacularização por parte da mídia.

“Estaremos trabalhando pelas causas conservadoras, defendendo aquilo que acreditamos”, diz.

Recebe a palavra o deputado, membro da bancada da bala: “Bem-vindos á essa casa de leis. Essa é uma casa que é o parlamento, que é o melhor lugar para essa discussão, para ouvir todos os lados. Estou aqui abrindo um espaço pro Direita São Paulo. Não concordo com todas as posições do Direita São Paulo, mas defendo a família, os valores, a cidadania e também a proteção aos cidadãos brasileiros. Não tenha dúvida nenhuma que eu tenho que tratar todos de forma igual, que vem de fora, etc. Mas se eu tiver que dar preferência, eu tenho que dar preferência para o povo brasileiro.”

Sessão do documentário “Desarmados” na Assembleia Legislativa do Estado de SP

Depois de usar o Japão como modelo de desarmamento, passa a palavra para o produtor, e se retira.

“Desarmados não é um documentário que fala sobre armas, não é uma apologia sobre armas. Não é um documentário que fala sobre violência, mas ele fala sobre direitos, fala sobre liberdade, fala sobre democracia, e sobretudo o direito á vida”, declara Lion.

“Vocês vão perceber isso muito claramente, a gente conseguiu abordar essa questão do desarmamento sem mostrar nenhum caso de morte, sem dar um tiro sequer.”

Iniciado o filme, aparece na tela um letreiro com os dizeres “Chefe da polícia de Berlim anuncia desarmamento de judeus” – The New York Times (08/11/1938).

Logo depois, o ator Taiguara Nazareth justifica que poderia estar fora do Brasil, mas que resolveu voltar porque, em suas palavras: “Aqui é o meu lugar, mas um lugar que é um lugar em que vivemos com medo de assaltos, com medo de bandidos, com medo de morrer. Onde foi que erramos? Fui atrás dessa resposta.”

O documentário continua por penosos 79 minutos, entremeados por bordões na linha de propaganda ideológica: “Não são as armas que matam, mas sim as pessoas”.

Tendo entrado em vigor em dezembro de 2003, o Estatuto do Desarmamento sofreu desde então mais de 20 alterações em seu texto inicial.

Alterações essas que enfraqueceram seu caráter restritivo e regulatório das questões relacionadas ao porte, posse e uso de armas de fogo no território nacional. 

Microfone Aberto

O produtor retorna para a mesa: “A ideia básica foi transformar o Brasil. Porque a gente sabe pelo que está havendo, se do jeito continuar, o país vai virar a Venezuela.”

Pede a palavra um membro da audiência, Reinaldo Bueno: “Quando um governo não quer, ou ele está no mínimo de má intenção, ele desarma a população. E é isso que aconteceu. Então, hoje no Brasil, não existe solução política. Então a solução tem que partir de nós, o povo brasileiro. Porque todo poder emana do povo, e por ele deve ser exercido.”

Vaticina, omitindo em sua fala os termos “…que o exerce por meio de representantes eleitos…” e “nos termos desta Constituição.”, presentes na constituinte de 1988, para depois indagar sobre detalhes da produção do documentário.

Vítor, outro presente, assume o microfone: “Com 14 anos ganhei um 38 do meu avô, com 14 anos todo mundo da minha rua tinha arma.”

Depois, rimando, declara seu pesar com a proibição do porte de armas: “Quando entrou essa lei, eu quase enfartei.” Considera a possibilidade de um projeto de lei de iniciativa popular ser o instrumento da reforma que traria as armas de volta, no que é interrompido por outro participante: “Eu penso que agora seria arriscado, eles são muito mais organizados que a gente. Os vermelhos, né?”

Lion retoma a palavra, medindo as possibilidades: “Não sou especialista pra falar, não sou da área jurídica, política, nem nada, atuo com cinema. Mas pelo pouco conhecimento que eu tenho é que eles poderiam conseguir as assinaturas, de um projeto ainda pior, muito mais rápido.” A maioria dos presentes concorda silenciosamente.

Surge outra pergunta: “Notei um clérigo muçulmano no filme?”

Lion sorri e responde: “O pessoal fala ‘Poxa, mas colocaram um xeique, caramba. Esses caras são terroristas!’. Mas foi estrategicamente pensado isso. A esquerda de um modo geral, eles defendem as minorias, né? Defendem o Islã, defendem os homossexuais, os negros…. Eles se apoderam dessas minorias pra poder ganhar votos, né? Então, não sei se vocês repararam, mas a gente tem (no documentário) uma mulher, a gente tem um negro, um professor de filosofia negro, que também é gay, um homossexual, um árabe. A gente já é criticado sem ver (sic), então a gente utilizou desses subterfúgios pra poder desarmar o pessoal que critica. Então assim, poxa, um gay falando que nós devemos estar armados, uma mulher falando que devemos estar armados, até um muçulmano, que eles (a esquerda) defendem, dizendo que nós temos direito á legítima defesa… Então assim: Arte da Guerra, gente! Eu li esse livro três vezes! ‘A esperança da guerra é quando você derrota o inimigo sem necessidade de combate.’ Foi pensando nisso que a gente utilizou esse pessoal todo…”

Ele prossegue em outras searas ideológico-literárias: “A médio e longo prazo, cada um de nós tem a obrigação moral de brasileiros, de fazer Gramsci às avessas, falar com o filho, com os parentes, com o vizinho, com o papagaio, com o cachorro… Inclusive tinha um cachorro assistindo… Ele gostou? A gente tem a obrigação de fazer esse Gramsci ás avessas, porque funcionou com eles. Os caras são bons, filhos da mãe, são gênios do mal!”

Risos da plateia. A essa altura o ambiente descontrai, ganhando um tom quase confessional.

Pede a palavra o jovem de casaco militar, inicia sua fala com forte sotaque carioca: “Eu passei por uma situação muito problemática no Rio de Janeiro; meus pais moram no Flamengo, eu morei lá, estou aqui faz pouco tempo. A gente começou a ter uma onda de assaltos, mas os bandidos não usavam arma de fogo, era espancamento e as pessoas eram esfaqueadas. A gente então começou á pedir policiamento mas não fomos atendidos. Teve a avó de um amigo nosso que foi desmaiada no soco (sic) no ponto de ônibus, a coisa saiu do controle, não tinha o que fazer. Aí nós começamos a se defender (sic), a gente não tinha mais, era o ultimo recurso, reuniu nossos amigos e começamos á defender o bairro. Só que a coisa saiu do controle, e uma maluco que assaltava foi parar pelado num poste com uma correia de bicicleta. Eu não tava, não tenho nada á ver com isso. Mas a questão é a seguinte: Diante do teor que teve esse caso, eu comecei á ver que, não o povo, mas a elite intelectual, criticava oque aconteceu. Você não acha que, culturalmente existe, a nossa intelligentsia, esse pessoa da esquerda, não tem um negócio de deixar os nossos… A nossa juventude mais afrescalhada, mais boba? Você não entende, não vê isso? Um movimento cultural para que o homem seja frouxo mesmo,  bunda-mole, tem que tomar tapa na cara, ser esculhambado, você não vê isso, o movimento?”

Lion Andreassa, produtor e diretor, Coronel Camilo, deputado estadual pelo PSD-SP, e Edson Romão, presidente da organização Direita São Paulo

Lion assume a palavra: “Ah, têm. Têm, têm, têm. A liberdade sem responsabilidade vira libertinagem. Geração Mimimi.” Alguém grita no auditório: “Ai, tá me oprimindo!” Gargalhadas gerais na plateia.

Na audiência, um homem de cabelos grisalhos pede a palavra:

“Sou Marcelo, sou veterano do GATE, fundador do Esquadrão Antibombas, e sou instrutor da SWAT pela ACADEPOL-SP. Eu tinha três portes, dois federais e um estadual. No dia em que Renan Calheiros e Fernando Henrique Cardoso acabaram com isso, eu chorava olhando meus três portes, porque a gente perdeu um direito fantástico.”

Continuou: “Eu não vou fazer uma pergunta pro senhor, só quero colocar alguns exemplo sobre a manipulação e articulação com quem (sic) nós estamos lidando. O cara lá da ‘cabeça da cobra’, vocês sabem o nome dele, aquela frase histórica recente dele, do passado não muito distante, ‘Eles não sabem do que somos capazes!’, então vamos lá, José Genoíno, alguém lembra quem é, né?”

Ponto onde recebe apupos da audiência, para continuar: “Esse demônio vinha descendo a Anhanguera no KM 360, mais ou menos, junto com esse cara vinha uma (caminhonete) Captiva, com 4 caras com porte federal, não eram VSPP. Então, quatro sujeitos com porte de armas, escoltando o Genoíno. E faz quantos anos que perdemos o porte? Doze? Nossa, faz tempo.”

Ao que Lion retoma, para encerrar: “É… Amigos do Rei, né?” Sendo aplaudido copiosamente.

Na saída, no leve frio do início da noite paulistana, os três personagens que chegaram juntos, juntos saem caminhando. Um deles se distrai com um motoqueiro que passava em velocidade baixa, e sai em desabalada carreira atrás.

Outro pergunta: “Será que o motoboy é imigrante?” Todos riem. Aquele vestido com casaco militar, dá a voz de comando: “VEM, INTERVENCIONISTA!”

Ao que é atendido, um tanto distraidamente, pelo fiel companheiro de quatro patas.