O caso da babá discriminada em loja da PBKids e a falta de sentido do dia 13 de Maio. Por Sacramento

Na semana da abolição da escravatura no Brasil, a babá Noelia Vicente dos Santos foi personagem de uma história corriqueira que às vezes ganha destaque no noticiário.

Moradora de São Paulo, Noelia passou pelo constrangimento de ser seguida e abordada por um segurança da loja de brinquedos PBKids sob a suspeita do furto de um boneco, como conta à Folha.

Noelia é negra. Sentindo-se humilhada, não se conformou com os pedidos de desculpas do segurança e da gerente da loja. Denunciou o caso à polícia e prepara uma ação por danos morais. Mais que justiça pelo provável crime de injúria racial que sofreu, Noelia se mobilizou por querer “mudar o mundo”.

Esta ânsia por mudança seria desnecessária se há 129 anos a Princesa Isabel quisesse transformar o mundo ao seu redor ao assinar a Lei Áurea e formalizar o fim da escravidão no Brasil.

Apontada nos livros das escolas como uma das protagonistas da libertação dos escravos, a princesa se limitou a dar o sopro final em um castelo de cartas que estava prestes a desmoronar.

No ano de 1888 o sistema escravista brasileiro agonizava, enfraquecido por razões econômicas e pelas manifestações abolicionistas. A insurgência negra era constante. Fugas, rebeliões e a resistência composta pelos quilombos faziam da escravidão um negócio oneroso.

Em São Paulo, o advogado Luís Gama defendia negros acusados de crimes e ajudava escravos a ganhar a alforria por meios jurídicos.

A filha de D. Pedro II seria uma figura histórica respeitada pelos movimentos negros se tivesse usado o seu poder para propor ações que oferecessem aos negros libertos oportunidades dignas de integração à sociedade.

Em vez disso, a Lei 3.353 assinada por ela serviu apenas para jogar os ex-cativos ao léu, como se o Estado que os escravizou não devesse nenhuma medida de reparação pelos efeitos perversos da escravidão. Se no texto da lei houvesse a previsão de ações pela inserção social e bem estar dos negros libertos, a história poderia ser diferente.

A população negra brasileira teria o mesmo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da branca, o número de negros em postos de destaque seria maior e Rafael Braga não seria condenado a 11 anos de prisão por supostamente carregar uma quantidade ínfima de drogas.

Neste Brasil hipotético faria sentido comemorar o dia 13 de Maio e celebrar a figura da Princesa Isabel. Noelia, que talvez nem fosse babá, entraria nas lojas sem ter os seguranças ao seu encalço e não precisaria gastar sua energia na tentativa de corrigir as injustiças provocadas pela desigualdade racial.