O caso do Pânico na Band e a metáfora literal entre mulheres e pedaços de carne. Por Nathalí Macedo

As panicats

Fui surpreendida pela notícia de que o Pânico na Band ainda está no ar. Depois de tantas gafes, pensei que já nem existisse, mesmo porque ninguém mais fala nisso.

Agora o programa voltou a ser assunto por uma razão da qual seus roteiristas não deveriam – mas certamente não se importam – se orgulhar: propuseram às panicats – aquelas mulheres que eles colocam, seminuas, dançando no palco como bibelôs sexuais – que usassem uma lingerie de carne bovina que seria comida por moradores de rua. O quadro de gosto duvidoso – genial! – se chamará churrascaria. Para entretenimento.

Sim, o mais estarrecedor é pensar que há pessoas que se entretém com esse tipo de vergonha televisiva lamentável, mas há gosto pra tudo – especialmente no pânico, onde fazem com que alguém passe uma espécie de lixa industrial elétrica na sola do pé, filmam e riem ao vivo e em cores.

No caso da lingerie de carne, além da canalhice misógina de péssimo gosto, a metáfora óbvia: mulheres são pedaços de carne a serem devorados por quem tem fome.

A ideia foi (mais) um apelo da emissora, dizem, considerada a baixa audiência do “programa”: Acertaram na mosca. Público misógino e sádico é o que não falta no Brasil, tanto que existem os seguidores de Bolsonaro.

A pergunta que não quer calar, entretanto, não foi e não será respondida: O que pensam as panicats, a mulheres que deveriam estar – estão? – mais ofendidas com a situação, porque são o principal alvo do insulto?

Ninguém sabe, porque a gente sabe o que acontece com mulher que não faz boca de siri quando o assunto é assédio/desrespeito no trabalho: demissão ou geladeira.

Ou, quem sabe – mais uma vez – humilhação pública, como aconteceu com Sheherezade, que foi constrangida pelo patrão Silvio Santos ao vivo e ainda precisou se desculpar no Tweeter: Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

O mesmo, parece, valeu para Maísa, que cresceu trabalhando no SBT e saiu no meio da gravação do programa depois de ter ouvido de Dudu Camargo – um molecote pseudoapresentador de quem até ontem eu jamais ouvira falar – que ele a convidaria para dormir com ele. Detalhe: ela tem quinze anos.

A penalidade do garoto foi ganhar do patrão controverso um programa na emissora, que deve ir ao ar em breve – costumamos chamar carinhosamente de clube do homem.

Quanto ao caso das panicats, a única coisa que se diz, extra-oficialmente, nos bastidores, é que elas “não estariam satisfeitas com a ideia.”

Jura? Acho que qualquer mulher ficaria satisfeita com a ideia de ter moradores de rua devorando carne em suas genitálias. Como deve ter ficado satisfeitíssima a panicat Babi Rossi quando teve o cabelo raspado ao vivo em mais um ridículo apelo da Band por audiência, ou a mulher que teve as genitálias apalpadas pelo mesmo Dudu Camargo, que precisava desesperadamente provar ao Brasil que é heterossexual (já entendemos, amor).

Lembrei que li outro dia, estupefata, a notícia de que sites estão contratando “leitores sensíveis” para analisarem textos antes da publicação a fim de se certificarem de que não há nada ofensivo para as minorias: uma espécie patrulha, diriam alguns, um exagero engraçado mas talvez necessário diante de tantos acontecimentos absurdos tratados como normais e aceitáveis pela maioria.

E é triste que seja, em algum ponto, necessário.

É inevitável constatar: estamos bambeando na linha tênue entre patrulha e barbárie.