O Dia Internacional da Mulher e a literatura. Por Luísa Gadelha

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Dê uma olhada na sua estante e nas obras que leu recentemente. Quantas foram escritas por mulheres? Quantas escritoras você conhece? Quantas foram laureadas com o prêmio Nobel de literatura?

O Dia Internacional da Mulher não é um dia a ser comemorado e sim um lembrete de que há, ainda, um longo caminho pela frente. Mulheres ainda ganham menos que os homens, ainda são menos representadas na política, nas artes e nas ciências, ainda sofrem violência. O machismo mata. Todos os dias.

Na literatura, as mulheres ainda são minoria. Fala-se em uma suposta literatura feminina, como se as mulheres escrevessem de maneira própria, diferente dos homens, ou tivessem como público-alvo apenas outros mulheres. Por esse motivo, preferimos utilizar a expressão literatura escrita por mulheres, e não literatura feminina.

Voltando à pergunta feita acima, apenas 12 mulheres receberam o Prêmio Nobel, de um total de 112 distribuídos ao longo dos séculos XX e XXI – esse número não chega nem a 10% dos vencedores! Foram elas: Sigrid Undset, Grazia Deledda, Selma Lagerlöf, Pearl S. Buck, Gabriela Mistral, Nelly Sachs, Toni Morrison, Wisława Szymborska, Elfriede Jelinek, Doris Lessing, Alice Munro e Svetlana Alexijevich, laureada em 2015.

No Brasil, alguns esforços têm sido feitos para mudar a situação. O projeto Leia Mulheres foi criado em 2014 pela escritora britânica Joanna Walsh e hoje está presente em mais de 20 cidades brasileiras. O projeto propõe um clube de leitura, aberto para pessoas de todos os gêneros, mas restrito a ler escritoras mulheres, numa maneira de divulgá-las e também de abrir os olhos do mercado editorial. Nos quadrinhos, outro mercado em que o homem é predominante, o projeto Inverna pretende dar visibilidade à ficção gráfica em geral feita por mulheres brasileiras.

A Editora Boitempo, em homenagem ao dia da mulher, lançou uma promoção de livros de temática feminista. Outra novidade da editora são obras feministas que finalmente serão publicadas, ou reeditadas, em português. Um dos destaques é o livro Reivindicação dos direitos da mulher, de Mary Wollstonecraft, escrito no século XVIII.

Recentemente, em 2014, a adolescente paquistanesa Malala Yousafzai recebeu o prêmio Nobel da Paz por sua luta para que as crianças paquistanesas tenham acesso à escola. Por causa do seu ativismo, Malala levou um tiro em 2012, ficou meses em estado grave a atualmente mora na Inglaterra. A sua história é contada no livro Eu sou Malala. No ano passado, Eu sou Malala ganhou uma versão infantil, ilustrada, publicada pela Companhia das Letrinhas.

Outra escritora que esteve em evidência no final do ano passado foi a filósofa francesa Simone de Beauvoir, devido a uma questão do ENEM com uma de suas mais famosas citações: “não se nasce mulher; torna-se”. A questão gerou polêmica por causa de interpretações errôneas da autora de O Segundo Sexo. O que Simone quis realmente dizer é que o destino da mulher, de opressão, não é determinado biologicamente, e sim culturalmente, pela sociedade patriarcal.

Ainda no ano passado, a escritora brasileira Maria Valéria Rezende ganhou o prêmio Jabuti por seu romance Quarenta Dias. A própria Maria Valéria reclamou do fato de que, apesar de uma mulher ter ganhado o prêmio, as manchetes falaram dos escritores homens que o haviam perdido, a exemplo de Chico Buarque e Cristóvão Tezza. Aliás, a editora Alfaguara acabou de lançar o novo romance de Maria Valéria Rezende, Outros Cantos, que é baseado em sua atuação contra a ditadura.

Esses pequenos exemplos mostram que algo está sendo feito. Mas ainda é pouco. Ainda é preciso que estejamos em pé de igualdade com os homens. A luta continua. E a literatura é um meio pelo qual podemos fazer parte dela. Leiamos mais, e, principalmente, mais escritoras.