O elogio infeliz de Xico Sá a Roberto Marinho e Otávio Frias Filho. Por Paulo Nogueira

 

Um raro tropeço: Xico Sá
Um raro tropeço: Xico Sá

Finalmente discordo de Xico Sá.

Tenho-o em alta conta. Xico é hoje uma das vozes mais lúcidas na análise da imprensa brasileira.

Ele teve que sair da Folha para enxergá-la, e aos demais jornais e revistas do país.

Sua crítica é tanto mais vigorosa porque ele não é petista. É um progressista, simplesmente.

Minha discordância vem de alguns tuítes recentes que Xico postou a respeito de dois barões da mídia, Roberto Marinho e seu ex-patrão Otavio Frias Filho.

Xico elogiou-os por motivos vãos e errados.

Sobre Roberto Marinho, ele lembrou uma frase icônica – e patética — dele. “Dos meus comunistas cuido eu.”

Ora, ora, ora.

Meus comunistas? Isso mostra o sentimento de propriedade que Roberto Marinho alimentava sobre seus empregados.

Muitas pessoas veem, equivocadamente, um gesto de proteção a comunistas do Globo ameaçados pela ditadura militar.

Para mim, é uma tolice.

O que ele estava dizendo, no fundo, é que controlava os jornalistas de esquerda que trabalhavam no Globo. É o que acontece ainda hoje. Você pode ser esquerdista na redação do Globo, ou de outras redações da empresa, desde que profissionalmente aja como um Marinho.

Não havia razões para os generais se preocuparem, portanto.

São meus. São minha propriedade. Meus escravos. Mando neles e eles obedecem.

Como respeitar uma frase daquelas? Caso leia este texto, espero que Xico Sá reflita sobre o que escreveu.

Sobre Otavinho Xico voltou a tropeçar. Ele elogiou Otavinho como se este não tivesse nenhuma responsabilidade sobre o tipo de jornalismo que a Folha faz hoje.

Me ocorreu, imediatamente, uma antiga piada cinematográfica. Alguém foi ver um filme de um diretor cultuado. Um amigo lhe perguntou o que achara. A resposta: “O filme é uma merda, mas o diretor é um gênio!”

A linha editorial da Folha é responsabilidade de Otavio Frias Filho. No máximo, ele consulta seus irmãos.

Os jornalistas ou obedecem ou, como o próprio Xico, saem.

A contratação de Kim Kataguiri jamais seria feita sem a aprovação de Frias. Ou ele endossou ou sugeriu: não há outra hipótese.

Ficaram para trás os tempos, na mídia brasileira, em que diretores de redação de esquerda serviam de contraponto à vontade dos donos.

Hoje, os editores são uma extensão dos desejos dos proprietários. Transformam em conteúdo – reportagens, chamadas, legendas etc – as ideias de quem os emprega.

A Folha é Otavinho.

Bater palmas para ele e apupar o jornal é um contra-senso. Ou, para evocar a anedota do filme e do diretor, uma piada.

Xico é usualmente brilhante. Mas teve um mau dia ao falar de dois dos maiores responsáveis por essa imprensa iníqua que ajuda o Brasil a ser o recordista de desigualdade que é.

Nem Otavio Frias e nem Roberto Marinho merecem elogios de Xico Sá.