O “erro” de datas ligando a Odebrecht ao Instituto Lula obedece a um padrão da Lava Jato. Por Kiko Nogueira

Atualizado em 23 de fevereiro de 2016 às 11:53
Lava Jato
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A Polícia Federal está produzindo, na Lava Jato, um arsenal de ilações e acusações que, com freqüência cada vez maior, atropelam os fatos. Um relatório da nova fase, cujo ápice foi a prisão do marqueteiro João Santana e da mulher, diz que Lula deve ser investigado por causa do “possível envolvimento em práticas criminosas”.

Quais práticas? A Odebrecht teria financiado a “construção e o planejamento” da sede do Instituto Lula no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Foi recolhida uma planilha de uma mulher que mantinha “vínculo empregatício” com a empreiteira, denominada ”Posição Programa Especial Italiano”.

Ali está a anotação “Prédio (IL)” e um número (12.422.000). No relatório policial, lê-se que “pode ser uma alusão ao Instituto Lula”. Mais: no celular de Marcelo Odebrecht havia uma menção a “prédio novo” em 22 de outubro de 2010.

O delegado Filipe Hille Pace aponta no documento que “é importante que seja mencionado que a investigação policial não se presta a buscar a condenação e a prisão de ‘A’ ou ‘B’. O ponto inicial do trabalho investigativo é o de buscar a reprodução dos fatos.”

Na verdade, o objetivo é outro e, se os fatos não estiverem de acordo, que sejam distorcidos. Em 2010, o Instituto Lula não existia. Foi fundado em 2011 no lugar onde ficava um certo Instituto Cidadania. O sobrado é de 1991.

A equipe de vazamentos da Lava Jato sabe que contar com a mídia amiga é fundamental. Não é preciso muito esforço para provocar o efeito desejado. Basta juntar as palavras Odebrecht e Lula para fazer as manchetes. Inclua uma cifra, ou algo que pareça uma cifra, e uma vontade irrefreável de aparecer, e o serviço está pronto.

Não foi a primeira vez e não será a última em que coisas simples como datas não batem. Você precisa ser muito inocente para acreditar que é um erro casual. A ideia é fazer caber na narrativa que Moro está criando, com a ajuda dos suspeitos de sempre.

Há poucos meses, o pedido do Ministério Público Federal na operação que resultou na prisão do pecuarista José Carlos Bumlai declarava, textualmente, o seguinte:

“Em 3/02/2005, pouco tempo depois de BUMLAI auxiliar na obtenção de empréstimo em favor do Partido dos Trabalhadores, quando ainda estava inativa, a SÃO FERNANDO AÇUCAR E ALCOOL LTDA (CNPJ Nº 05.894.060/0001-19) recebeu R$ 64.664.000,00 de crédito do BNDES . A empresa voltaria a obter créditos do BNDES em 12/12/2008, quando recebeu investimentos de aproximadamente R$ 388.079.767.”

Trocando em miúdos, fala-se de um empréstimo em 2005, pouco tempo depois de Bumlai dar dinheiro ao PT.

Acontece que os 64 milhões são de 2009. Por que o “deslize” de situar o caso em 2005? Para fazer caber na história de que Lula estava por trás das maracutaias no auge do mensalão.

“Os personagens são basicamente os mesmos do mensalão, José Dirceu e Pedro Correa. E agora temos essa tipologia de concessão de empréstimos que jamais são quitados”, disse o procurador Diogo Castor de Mattos na tradicional coletiva.

Os dados estavam disponíveis no site do BNDES, neste link. Por que ninguém checou?

Porque não se trata de checar nada, mas de juntar peças de um quebra cabeça que, frequentemente, não se encaixam. O importante é que se forme, no final das contas, o monstro de duas cabeças chamado Lula e Dilma.