O estuprador da Paulista e o Judiciário que vê mulheres como estatística. Por Nathalí Macedo

PMs no ônibus onde estava o estuprador: para nada

Uma mulher se distrai por alguns minutos no ônibus, em plena Avenida Paulista e, quando se dá conta, está suja de sêmen.

Percebe, em desespero, que um homem desconhecido havia ejaculado nela, porque, é claro, se uma mulher fica por aí distraída no transporte público, só pode estar pedindo gozadas grátis.

As outras mulheres presentes colaboram para que o estuprador – alô, judiciário brasileiro, nós chamamos de ESTUPRADOR – não saia do ônibus antes da chegada da Polícia Militar.

Um parêntese: grande coisa a Polícia Militar.

O estuprador, ao perceber-se descoberto, começa a gritar aos quatro ventos que é um homem casado. Um cidadão de bem que só goza em desconhecidas no ônibus de vez em quando.

Ele é levado para a delegacia, onde já tem cinco – eu disse CINCO – passagens por estupro. A despeito de tudo isso, o juiz libera o homem com base no argumento de que “não houve constrangimento ou grave ameaça.”

Se Vossa Excelência usasse transporte público em vez de o seu carro institucional blindado, e de repente se percebesse coberto pela porra nojenta de um desconhecido, talvez enxergasse o constrangimento, a grave ameaça e a incontornável e profunda agressão contida na situação.

É por isso, Excelência, que o Poder Judiciário – um homem branco, velho, rico e conservador – imprescinde de empatia, mas empatia é matéria que o senhor já não entende.

Indignada, a vítima declarou que “também não confia nesse sistema machista e conduzido por um montão de homens, mas precisa que seu caso entre nos números”.

Triste.

Também, pudera. Como confiar em um judiciário cujos delegados perguntam a vítimas de estupro se elas tentaram fechar as pernas e a vítimas de violência doméstica se os seus hematomas não são fruto de um acidente qualquer que não envolve nenhuma senhora conhecida como Maria da Penha?

Mas há ainda quem acredite que as mulheres são obrigadas a recorrerem ao único meio de “justiça”, que, para elas, frequentemente, é, na verdade, um meio de injustiça: o Poder Judiciário, homem, branco, rico e conservador.

Questionou-se, por exemplo, Clara Averbuck pela decisão de não providenciar um Boletim de Ocorrência em relação ao estupro praticado contra ela por um motorista de Uber.

Clara, que já foi estuprada antes, sabe melhor do que eu que o Poder Judiciário é homem, branco, rico e conservador.

Sabe que o exame de corpo de delito não apontaria DNA do estuprador porque não houve sêmen – o estupro foi praticado com um dedo, e, não, não é preciso que haja pênis/penetração para que haja estupro (é assim que a lei entende, já que a lei importa tanto para o conservadorismo).

Sabe que um B.O sem provas só serviria para dar ainda mais o que falar a quem tem mania de culpar vítimas de crimes sexuais.

Clara quis – e com todo o direito – evitar a fadiga, e sabe que não precisa, para isso, calar a boca nas redes sociais.

Nós não precisamos, aliás, calar a boca em momento nenhum. Nosso grito é o que nos salva, com frequência, diante da crise de legitimidade do Judiciário patriarcal perante as mulheres.

Recorrer ao Judiciário é indesejável e insuficiente porque queremos – ou deveríamos querer – fazer algo mais sobre nossa própria condição do que simplesmente engordar assustadoras estatísticas.