O exemplo do padre que encarou as milícias fascistas e manteve a palestra de Drauzio num colégio. Por Kiko Nogueira

Há uma cena por demais evocativa capturada por uma câmera na Alemanha hitlerista.

Em 1936, uma multidão se aglomerou em Hamburgo para assistir ao lançamento de navios de guerra. 

Enquanto milhares de pessoas executavam a saudação nazista, um homem cruzou os braços, numa solitária atitude desafiadora.

A foto circulou durante décadas até que, em 1991, ele foi identificado como August Landmesser. 

Landmesser trabalhava num estaleiro e era casado com uma judia. Segundo sua filha, ele pouco falava sobre a cena, apenas que “era o certo a fazer”. 

August Landmesser se recusa a fazer a saudação nazista na Alemanha

O padre jesuíta Carlos Alberto Contieri fez o certo.

Reitor do colégio São Luís, ele não se intimidou diante das críticas e ameaças surgidas por causa de uma palestra de Drauzio Varella marcada para sábado, dia 30.

Obscurantistas organizaram um abaixo assinado e movimentaram as redes sociais. Um site chamado “O Fiel Católico”, ligado a uma certa Fraternidade Laical São Próspero, perguntava “até quando suportaremos?”

Assinado por um certo Felipe Marques, o texto pede para “comunicar amigos e parentes sobre essa patacoada”. 

“O palestrante não é o Padre Paulo Ricardo, o Padre José Eduardo ou algum outro sacerdote ou leigo fiel à Sã Doutrina, e nem algum médico integrante da AMD, que combatem o engodo da ideologia de gênero”.

“Com um grande número de pessoas contrárias ao evento e que demonstrem sua insatisfação com o Colégio por promover tamanha desgraça, é possível que essa palhaçada seja cancelada”, escreve Marques. 

Segundo o Estadão, uma petição online foi endereçada à Rede Jesuíta de Educação e à Comissão de Cultura e Educação da CNBB.

Contieri tomou o caminho oposto ao da direção do Santander que se dobrou aos fascistas do MBL. Oposto ao dos vagabundos do governo Temer que silenciam diante de um general golpista.

Oposto ao dos juízes do STF que agasalharam o golpe. Oposto à comunidade jurídica que assiste silente aos desmandos de Sergio Moro.

Contieri manteve a apresentação de Drauzio.

Em carta aos pais dos alunos, disse que “todos sabemos que os humanos são uma espécie que se divide apenas em dois gêneros, por razões genéticas. Portanto, a palestra não tratará de ideologia de gênero, apenas de questões que afetam a vida humana, especialmente os jovens, relacionadas à sexualidade”.

Condenou “o ataque rancoroso, agressivo e ofensivo oriundo de um grupo ‘sem rosto’ que talvez pretenda uma religião sem Deus e a fé cristã sem o Evangelho da Misericórdia.”

São “cibermilícias católicas” formadas por “pessoas que não falam a verdade e não são capazes de mostrar o rosto nem sua verdadeira identidade”.

O padre Carlos Alberto Contieri (Foto: Sérgio Castro / Estadão)

Paulista de Valinhos, Contieri foi ordenado em 1993 e rumou para Belo Horizonte, onde deu aulas e auxiliava a direção da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia.

Em 2005, foi para São Paulo se tratar no Hospital do Coração de um princípio de enfarte. A ideia era permanecer por cinco meses. Assumiu a reitoria do São Luís no último dia 17.

Numa conferência, falou o seguinte: “Alguns sábios afirmaram que a ira é uma loucura breve; por não se controlar a si mesma, perde a compostura, esquece as suas obrigações, persegue os seus intentos de forma obstinada e ansiosa, recusa os conselhos da razão. Incapaz de discernir o que é justo e verdadeiro, semelhante às ruínas que se abatem sobre quem as derruba.”

Heroi?

Como Landmeisser, no final das contas, ele apenas fez o certo. Em tempos como os nossos, é mais do que necessário. Que nos sirva de exemplo.