O herói chinês

Paulo Nogueira 6 de março de 2012 10

Lei lê para crianças: um herói que os chineses querem que seja devidamente apreciado nestes dias de enriquecimento veloz

 

O governo chinês está, neste momento, empenhado em promover um nome: o de Lei Feng. Mais precisamente, repromover.

Nos dias de Mao Tsetung, Lei foi um símbolo entre os chineses de modéstia, simplicidade, altruísmo, solidariedade – todas aquelas virtudes, enfim, que costumam sumir quando uma sociedade enriquece rapidamente como é o caso da China contemporânea.

Soldado, Lei morreu em 1962, aos 21 anos, num acidente, quando dirigia um caminhão do exército. Depois de sua morte, foi descoberto que ele mantinha um diário no qual registrava suas ações. Lei, por exemplo, sempre pedia que seu nome não fosse citado quando fazia algum tipo de caridade.

Os líderes chineses consideraram tão inspiradora sua conduta que decidiram transformar Lei numa referência para as pessoas. Na China, 5 de março é o dia conhecido como “Aprenda com Lei Feng”. Serviços comunitários são realizados neste dia – em praças, escolas etc.

Agora, cinquenta anos depois de sua morte, livros, filmes e eventos destacarão entre os chineses a figura de Lei Feng. Como escreveu um jornal chinês, num momento em que o dinheiro jorra e espalha riqueza e com ele ganância, é mais que oportuno sublinhar valores que possam servir de contrapartida à sociedade.

Clap, clap, clap.

Aplausos de pé. Não é por sorte que a China, uma civilização altamente desenvolvida que pelo seu caráter não militarista foi espoliada selvagemente pelas potências ocidentais e pelo vizinho Japão ao longo de cerca de 100 anos a partir de meados do século 19, não é à toa que a China, eu dizia, vai se tornando a maior potência do mundo.

Lei Feng é um exemplo não apenas para os chineses – mas para pessoas de todas as nacionalidades.

 

  • http://paradiseduluoz.blogspot.com Paulo Sales

    Caro Paulo, permita-me discordar de você em um ponto: durante o século 20, a China não teve um caráter fortemente militarista? A invasão do Tibet foi um ato de franca covardia contra uma nação, esta sim, sem qualquer caráter militarista. O governo chinês também usou, em diferentes períodos, o exército para reprimir seu próprio povo, como no período da revolução cultural de Mao e sobretudo no massacre da praça da Paz Celestial. Os chineses possuem, acredito, uma essência pacífica, mas talvez tenham desaprendido a usá-la.
    Enfim, é só uma opinião discordante para enriquecer o debate.
    Grande abraço.

    • Paulo Nogueira

      Oi, Paulo. O Tibete é questão bem controversa. Para muitos, entre os quais me incluo, a China fez e faz um bem aos tibetanos ao libertá-los da exploração que uma casta privilegiada — a dos monges budistas — impunha à sociedade. Há mto de propaganda ocidental anti-China na forma como o assunto é tratado em países como o Brasil. Qto ao Mao, em minha opinião ele cumpriu um papel vital ao erradicar as potências ocidentais — e uma obra daquela natureza não se faz sem usar em certos momentos força. (Não se faz revolução sem revolução, como disse o Robespierre.) O episódio da Paz Celestial, por fim, foi decisivo para que o governo acelerasse as reformas econômicas que deram no que deram. Grande abraço e grato pelos bons pontos.

  • graça moura

    Paulo, meu lindo…continuamos a ter algumas opiniões divergentes sobre a China, mas em uma coisa concordamos plenamente : A China é digna de observação minuciosa e fonte de inspiração para os ocidentais que queiram enxergar um gigante se estabelecendo e se adequando, sem contudo se curvar ao definido no ocidente como certo e irrefutável.

    Tenho acompanhado de perto as atitudes chinesas em relação à política, cultura, direitos humanos, economia etc, e confesso estar admirada com posturas baseadas em estratégias de requintada inteligência que só uma cultura milenar como a chinesa seria capaz.

    Estou por aqui, hoje, me deliciando com seus textos…por mim, postaria em todos, mas não vou cansá-lo com minhas opiniões, contudo, tenha certeza que foram lidos, relidos e causaram reflexões enriquecedoras

    Grande beijo e saudades das nossas conversas

    • http://www.diariodocentrodomundo.com.br/ Paulo Nogueira

      Saudade tb, minha querida Graça. Sua presença enriquece o Diário. Bjs

    • Paulo Nogueira

      sua presença no Diário enriquece sempre os debates com opiniões independentes e fundamentadas, Graça. beijo!

  • Amilton

    Paulo, vivo na China ha meia decada. Nao e' dificil notar que a figura de Lei Feng e' claramente uma fabricacao do Partido, um heroi inventado. A geracao de hoje desconfia dele, acham estranho que sempre houvesse, por acaso, um fotografo oficial por perto para registrar — em fotos bem posadas — os inumeros atos de altruismo "anonimo". Seu diario esta carregado de slogans e louvores ao Partido e a Mao. Nao se engane, e' so' uma figura da propaganda, que quer colocar o "bom moc,o que amava o Partido acima de tudo" como modelo para a sociedade.

    • Paulo Nogueira

      Oi, Amilton. Que vc faz na China? Se puder compartilhar sua experiência conosco, seria ótimo. Qto ao Lei Feng, sei que existem controvérsias, mas, para mim, o mais importante é o legado essencial — o espírito altruísta e comunitário. Isso acaba beneficiando a sociedade como um todo — muito mais que o Partido. Abraço

      • Paulo Nogueira

        Acho que este texto do jornal chinês Global Times contribui para a discussão:

        From students to government employees, tens of thousands of people have gone out to offer a helping hand in memory of China's icon of altruism, Lei Feng, amid controversy over the authenticity of the heroic figure's exploits.

        Some 90 percent of respondents in a telephone survey believed that the campaign of learning from Lei Feng has exerted positive influence on Chinese society.

        The survey, which was conducted by the Global Poll Center under the Global Times, polled 1,013 people in seven cities.

        Over 60 percent of respondents said in the survey they had never heard about Lei Feng's image being modified, and 90 percent support the nation continuing to promote the Lei Feng spirit.

  • Bruna Crespo

    Quem dera se aqui no Brasil "inventassem" um herói como Lei Feng… Real ou inventada, uma referência como essa só poderia ser inspiração positiva. Abraços, Karamavov!

    • Paulo Nogueira

      concordo!